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domingo, 20 de julho de 2008

Nossos ídolos ainda são os mesmos


Dá pra imaginar o absurdo que é viver num país onde o racismo é apoiado pela lei e onde a maioria da população não tem o direito nem mesmo a aspirar aos melhores empregos e à participação política? Pois foi assim na África do Sul durante 40 anos, até que um jovem negro lutou para mudar a realidade do regime de apartheid, o que lhe custou 27 anos na prisão. Apesar de se situar em um contexto político específico, para mim, a luta de Nelson Mandela por uma nação mais justa é atemporal: não é preciso que exista uma legislação favorável para que o preconceito seja vigente em tantos lugares do mundo, gerando desigualdades sociais e atos de violência.

Por isso, tomei um susto quando li sobre o aniversário de 90 anos de Mandela, que foi na sexta passada. Mesmo já tendo se retirado da política (após se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994), ele ainda é uma das figuras mais importantes do cenário mundial. Sua contribuição na luta contra a AIDS é apenas uma entre as muitas ações que ele desenvolve.

A história de Mandela é impossível de ser replicada, mas seu aniversário me fez pensar em por que não ouvimos falar de outros Mandelas, contemporâneos à nossa geração. As pessoas não acham que vale mais a pena perder tempo tentando mudar a realidade atual ou simplesmente quem tenta fazê-lo é menos acreditado que os veteranos como o líder sul-africano? Parece ser um pouco dos dois.

O fato é que o mundo está longe de ser perfeito; todos os dias, problemas antigos ganham novas formas e conseqüências. A própria África do Sul ainda precisa resolver questões sérias, como a restituição das terras retiradas dos negros durante o apartheid. Quem está à frente da luta pela manutenção do legado de Mandela? Por mais que existam pessoas comprometidas com a causa, o mundo ainda espera muito daquele que, agora, merece descansar e confiar nas gerações seguintes.

Mandela foi responsável pela proeza de ver além de um mal sacramentado por décadas, mas não parou por aí: ele é capaz de buscar soluções para problemas surgidos só recentemente, como a AIDS. O que nos impede de fazer o mesmo?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Arthur Bispo: rosário de histórias

Quando, no seminário de abertura da exposição Em Torno dos Transtornos, eu disse que a vida de Arthur Bispo do Rosário dava um romance, nem imaginava que, um dia, leria um conto narrado do seu ponto de vista. Um registro de minha passagem pela terra, de Daniel Mason, está na revista Piauí deste mês. Procurei no site da revista, mas não há uma versão on line disponível. Quem puder arranjar um exemplar, arranje, porque vale a pena.

Um pouco sobre o Bispo, pros que não estiverem a fim de ler a página na Wikipédia: sergipano nascido no começo do século passado, ele trabalhou como marinheiro, boxeador e funcionário da Light, até virar empregado de uma família abastada do Rio de Janeiro, lá pelo fim da década de 1930. Foi nessa época que sua esquizofrenia se manifestou de maneira mais decisiva, levando-o a acreditar que encontrara-se com os anjos em uma madrugada na casa do patrão e que Deus tinha lhe encarregado de catalogar todas as coisas do mundo, enquanto durasse sua vida. Bispo correu a um mosteiro, a anunciar sua missão, e foi mandado para o hospício da Praia Vermelha, de onde foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde ficaria internado até morrer.

Mesmo internado, Bispo não abandonou a missão. Catalogou o mundo através de fichas de papelão com resumos das notícias de jornal, instalações repletas de objetos do cotidiano, bandeiras e bordados de vivências e memórias. Suas obras galgaram os muros da instituição psiquiátrica e chegaram aos salões da Bienal de Veneza. Para ele, no entanto, havia apenas uma audiência a quem agradar: Deus. No dia em que o Criador o chamasse, Arthur apresentaria os frutos do próprio trabalho envergando o maior deles: o Manto da Apresentação, síntese bordada de seus achados.

O que mais chama a atenção no conto de Daniel Mason é a maneira como essa história está contada. Não há nada do ilusionismo bem sacado presente na maioria das histórias de esquizofrênicos, tampouco da fantasia surreal de um delírio explícito. O escritor parece entrar nas engrenagens lógicas da mente de Bispo, romantizá-las sutilmente e conduzir o leitor ao reconhecimento mútuo e à admiração. Para mim, esse é o maior mérito do conto: faz pensar pela mente de um outro geralmente tido como incompreensível , mas que se mostra capaz de, à sua maneira, contar uma história tão inteligível e fascinante quanto tantas outras.