terça-feira, 25 de setembro de 2012

Talkin' about my generation

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Hanover, 25 de setembro de 2012: Gaga em sua entrada triunfal (Débora Medeiros)

Gaga adentrou o palco em grande estilo: em meio a um cortejo de dançarinos portando estandartes, ela vinha montada num cavalo negro, o rosto encoberto por uma armadura repleta de cristais (provavelmente Swarovski). É a auto-confiança de quem sabe que é quase impossível alguém sair do seu show sem virar fã. Eu, que sempre me diverti com as músicas e segui sua carreira com curiosidade, certamente saí de lá também cheia de admiração.

Vê-la ao vivo é ver uma síntese da minha geração. Lembro que, quando conheci seu trabalho, não foram os figurinos estranhos ou os clips mirabolantes que mais me espantaram, mas o fato de ela ser apenas dois anos mais velha do que eu. É sempre uma sensação engraçada, perceber que alguém que viveu a infância na mesma época que você está por aí, fazendo coisas de impacto mundial (me senti da mesma maneira quando descobri que o Sebastian Vettel, bicampeão de Fórmula 1, era de 1987).

No Born This Way Ball, que vi ontem em Hanover, tudo - desde o cenário grandioso até a miríade de figurinos, músicos e dançarinos - está ali para servir à imaginação daquela menina ítalo-americana, que começou a tocar piano aos quatro anos de idade e sempre compôs as próprias músicas. Músicas essas que podem soar bobinhas, mas que falam diretamente àqueles que vieram ao mundo no fim dos anos 1980 ou começo dos 1990. São letras que pregam o amor-próprio (Born This Way é o melhor exemplo - e sensacional de se cantar junto), tecem contos sobre os nossos tempos midiáticos (Paparazzi), expressam uma religiosidade livre de dogmas e bem-humorada (como não amar Black Jesus?) e defendem uma sexualidade desencanada (LoveGame) e uma postura independente e forte nos relacionamentos amorosos (Telephone).

Fico pensando quantas neuras e preconceitos já seriam coisa do passado se Lady Gaga tivesse existido há uns trinta anos. No entanto, só alguém que nasceu na virada da vida offline para a online poderia ter uma postura tão acessível e sem deslumbres em relação à indústria de entretenimento. Como alguém que atualiza pessoalmente as próprias mídias sociais, no palco, ela bate-papo com um público de milhares de pessoas: reconhece fãs assíduos na platéia, conta histórias pessoais, dá bronca naqueles que não se deixam levar pela apresentação (os alemães são conhecidos por assistirem aos shows impassíveis nas arquibancadas) e escancara o esforço por trás de toda aquela pirotecnia ("Eu acordo todos os dias às 5h da manhã para poder trazer isso aqui pra vocês"). Somos a geração da transparência, dos que transformam a própria vida numa experiência multimídia e global, se unindo em torno do direito de viver abertamente da maneira que cada um quiser.

Pode até ser que a obra dela não seja tão provocativa quanto a da Madonna de algumas décadas atrás. No entanto, ao descer do pedestal no meio de um show, Lady Gaga revoluciona a vida dos seus fãs de maneira muito mais direta: ela incentiva o amor-próprio e a auto-expressão (Gaga fundou recentemente a Born This Way Foundation para combater o bullying nas escolas e outros tipos de discriminação), abraça causas como as do movimento LGBT por igualdade de direitos e combate leis retrógradas como as medidas anti-imigração nos EUA (a mais famosa delas é a Arizona SB 1070).

Parece ironia do destino, mas a máxima "just be yourself", tão repisada na cultura pop americana, encontrou sua melhor expressão em uma artista que se transformou da cabeça aos pés para ser quem sempre quis.

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