segunda-feira, 9 de abril de 2012

Cotidiano concentrado

Desde que comprei a passagem para Fortaleza, comecei a pensar na viagem como uma espécie de pitstop. Como um piloto de Fórmula 1 que planeja cuidadosamente a ida ao box da escuderia, onde sua equipe inteira o aguarda para aquela curta pausa que vai tornar o resto da corrida possível, também eu contava os dias para o desembarque no Pinto Martins.

Esses 20 dias de Fortaleza foram como uma dose concentrada de cotidiano. Como já diria Kerouac, "everything went on as usual in the city itself - except that it was always changing, like me." (trecho do ótimo Maggie Cassidy) E a cada abraço amigo tudo se tornava mais familiar. Porém, a sensação era de não haver aquela casualidade típica da rotina, o encontrar-se por acaso, nos lugares onde os afazeres diários se interceptam. Na correria do pitstop, era tudo marcado com antecedência e algumas vezes faltou oportunidade para conversar mais demoradamente a sós, saber e contar da vida e das ebulições dentro de nós.

Aliás, essa foi uma das diferenças mais marcantes nos meus reencontros: enquanto havia gente que apenas queria ver como eu estava (se havia engordado ou emagrecido, se estava me vestindo de forma diferente ou até falando com sotaque), os amigos queriam apenas dar um abraço ou retomar uma conversa, como se eu nunca houvesse partido.

Embarco com a sensação de que estamos mudando, crescendo lá e cá do Atlântico, mas que o carinho permanece e talvez a casualidade da rotina um dia seja retomada.

4 de abril de 2012, escrito à mesa de um café superfaturado no aeroporto de Salvador.

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