sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Memórias musicais

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Como é que alguém que não gosta de música faz pra se lembrar das coisas? É o que indaga Queimado, um dos protagonistas do documentário As Canções (2011), de Eduardo Coutinho. Sua história é uma das mais bonitas entre as tecidas ao longo dos cerca de 90 minutos do documentário, que preencheu minha noite escura e fria berlinense com o calor de melodias e memórias intimamente entrelaçadas: clássicos populares, composições próprias, amores que permanecem na memória, desenlaces inesperados. 

Quando vi que o filme estaria em cartaz por aqui, soube que tinha de ir assistir. Desde Edifício Master (2002), tenho uma certeza: os documentários de Eduardo Coutinho são a realização do sonho de todo jornalista que entrou nessa profissão para ouvir as histórias das pessoas e (re-)apresentá-las com toda a sensibilidade que elas merecem.

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sábado, 3 de novembro de 2012

Mobile memories

I got my first smartphone this summer - and it's already quite outdated, but I don't care. It enables me to check my e-mails, tweet nonsense on the go and take lovely, pixelated pictures. Almost without noticing, I've been registering details of my everyday life and small adventures with this new medium. One day, I decided to organize everything and put my old gallery on Flickr to some good use. And that's how this new project began.

 

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sábado, 27 de outubro de 2012

Discussing new forms of journalism

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What distinguishes citizen media from traditional media? Is it even still possible do draw the line? These were some of the questions that guided our discussion on new forms of journalism during the barcamp science2discuss, which took place on 26 October, the second day of the Berlin Colloquium for Internet and Society.

Especially after the Iranian election protests in 2009 and 2010, more and more traditional media outlets have been relying on citizen media - or what they call user generated content (UGC) - to report on major news events. That happened because the access correspondents had to the action on the ground was restricted by the authoritarian Iranian regime and networks ended up noticing the flow of information coming from Iranian citizens, who shot footage with their mobile phones, tweeted and, essentially, reported on the ground, as a way of articulating the manifestations locally and informing the international community. 

Many newsrooms have now whole divisions to receive and verify information from citizen journalists. The BBC is one of the most famous examples, as Maximillian Hänska-Ahy and Roxanna Shapour describe in an article about what they perceive as mutual adaptions between citizen journalists and traditional media. The first try to make verification easier through the use of time-stamps in their footage, while the latter have increased their reliance on so-called UGC.

However, are citizen journalists considered regular sources by those who work at traditional newsrooms? All over the world, citizen journalists may even risk their lives to capture and divulge accounts or footage of protests, police brutality and meaningful events, which raises ethical issues that seem to be still in the process of being answered.

Despite the almost symbiotic relationship developed between both forms of media over the years, some distrust still prevails. Even though the term "citizen media" has been coined by Clemencia Rodriguez an academic that defended the important role of media developed by citizens, it has been constantly used in a pejorative manner by journalists, as a way of pointing out that this kind of journalism made by "mere" citizens, not professionals, as 

Moritz Queisner pointed out. 

Platforms such as Global Voices, founded in 2005 by Rebecca MacKinnon and Ethan Zuckerman, have been helping overcome that distrust. With the aim of amplifying the reach of citizen media, Global Voices has grown exponentially over the past seven years and is now available in almost 30 languages, with projects that foment the introduction of citizen media in under-represented language communities, as well as reporting on threats do freedom of expression all over the world. Global Voices has a partnership with the news agency Reuters and has been cited by various other outlets, such as the BBC.

However, participants of the barcamp pointed out that, with its network of over 500 contributors, Global Voices may have developed a degree of professionalism and an organizational structure that not all citizen media necessarily possesses, making verification a lot easier, for example. Could it still be considered citizen media?, they wondered. 

Is it really the structure that distinguishes citizen media from traditional media? I'm not entirely sure. One factor that the whole group seemed to agree on was the motivations behind each kind of media. Maybe traditional media is more guided by agenda setting and news values, while citizen media, mostly carried out voluntarily, may obey more subjective (?) criteria, such as the citizen journalist's perception that an event or theme is not being sufficiently covered by mainstream media or their passion for a given theme, such as women's rights in their communities.

At the end, we regretted not requesting the organizers a two hour time slot, as our time was up too soon for such an interesting discussion. I'd like to thank the participants of the barcamp for the interesting questions and contributions to the debate. Hope you left the colloquium yesterday with as much food for thought as I did!

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sábado, 20 de outubro de 2012

A pátria

"A pátria não são bandeiras, nem hinos, mas um punhado de lugares e pessoas que povoam nossas lembranças e as tingem de melancolia." - Mario Vargas Llosa, discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura

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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Talkin' about my generation

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Hanover, 25 de setembro de 2012: Gaga em sua entrada triunfal (Débora Medeiros)

Gaga adentrou o palco em grande estilo: em meio a um cortejo de dançarinos portando estandartes, ela vinha montada num cavalo negro, o rosto encoberto por uma armadura repleta de cristais (provavelmente Swarovski). É a auto-confiança de quem sabe que é quase impossível alguém sair do seu show sem virar fã. Eu, que sempre me diverti com as músicas e segui sua carreira com curiosidade, certamente saí de lá também cheia de admiração.

Vê-la ao vivo é ver uma síntese da minha geração. Lembro que, quando conheci seu trabalho, não foram os figurinos estranhos ou os clips mirabolantes que mais me espantaram, mas o fato de ela ser apenas dois anos mais velha do que eu. É sempre uma sensação engraçada, perceber que alguém que viveu a infância na mesma época que você está por aí, fazendo coisas de impacto mundial (me senti da mesma maneira quando descobri que o Sebastian Vettel, bicampeão de Fórmula 1, era de 1987).

No Born This Way Ball, que vi ontem em Hanover, tudo - desde o cenário grandioso até a miríade de figurinos, músicos e dançarinos - está ali para servir à imaginação daquela menina ítalo-americana, que começou a tocar piano aos quatro anos de idade e sempre compôs as próprias músicas. Músicas essas que podem soar bobinhas, mas que falam diretamente àqueles que vieram ao mundo no fim dos anos 1980 ou começo dos 1990. São letras que pregam o amor-próprio (Born This Way é o melhor exemplo - e sensacional de se cantar junto), tecem contos sobre os nossos tempos midiáticos (Paparazzi), expressam uma religiosidade livre de dogmas e bem-humorada (como não amar Black Jesus?) e defendem uma sexualidade desencanada (LoveGame) e uma postura independente e forte nos relacionamentos amorosos (Telephone).

Fico pensando quantas neuras e preconceitos já seriam coisa do passado se Lady Gaga tivesse existido há uns trinta anos. No entanto, só alguém que nasceu na virada da vida offline para a online poderia ter uma postura tão acessível e sem deslumbres em relação à indústria de entretenimento. Como alguém que atualiza pessoalmente as próprias mídias sociais, no palco, ela bate-papo com um público de milhares de pessoas: reconhece fãs assíduos na platéia, conta histórias pessoais, dá bronca naqueles que não se deixam levar pela apresentação (os alemães são conhecidos por assistirem aos shows impassíveis nas arquibancadas) e escancara o esforço por trás de toda aquela pirotecnia ("Eu acordo todos os dias às 5h da manhã para poder trazer isso aqui pra vocês"). Somos a geração da transparência, dos que transformam a própria vida numa experiência multimídia e global, se unindo em torno do direito de viver abertamente da maneira que cada um quiser.

Pode até ser que a obra dela não seja tão provocativa quanto a da Madonna de algumas décadas atrás. No entanto, ao descer do pedestal no meio de um show, Lady Gaga revoluciona a vida dos seus fãs de maneira muito mais direta: ela incentiva o amor-próprio e a auto-expressão (Gaga fundou recentemente a Born This Way Foundation para combater o bullying nas escolas e outros tipos de discriminação), abraça causas como as do movimento LGBT por igualdade de direitos e combate leis retrógradas como as medidas anti-imigração nos EUA (a mais famosa delas é a Arizona SB 1070).

Parece ironia do destino, mas a máxima "just be yourself", tão repisada na cultura pop americana, encontrou sua melhor expressão em uma artista que se transformou da cabeça aos pés para ser quem sempre quis.

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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Niemals

Einsamkeit

Der Wanderer über dem Nebelmeer (Caspar David Friedrich)

"Niemals ist man tätiger, als wenn man dem äusserem Anschein nach nichts tut, niemals ist man weniger allein, als wenn man in der Einsamkeit mit sich allein ist."

Cato

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Niemals

Einsamkeit

Der Wanderer über dem Nebelmeer (Caspar David Friedrich)

"Niemals ist man tätiger, als wenn man dem äusserem Anschein nach nichts tut, niemals ist man weniger allein, als wenn man in der Einsamkeit mit sich allein ist."

Cato

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sábado, 5 de maio de 2012

Os fariseus no Congresso

Ottobeuren

O Fariseu e o Publicano, afresco representando uma das muitas parábolas usadas por Jesus para combater a hipocrisia. (Abadia de Ottobeuren)

Imagine ler, no Diário Oficial da União, que a partir de agora todos vamos ter de usar um crucifixo pendurado no pescoço. Parece absurdo? Pois algo semelhante aconteceu no Irã quando o país se tornou uma república islâmica: gradualmente, todas as mulheres do país se viram obrigadas por lei a usar o hijab em público, independente da maneira como elas se sentiam em relação às passagens do Corão que mencionam o véu.

Quando religião vira questão de Estado, até as mais simples liberdades individuais se tornam escassas. Penso nisso toda vez que leio sobre o crescente lobby religioso no Brasil. Políticos que muitas vezes se elegeram não com propostas, mas pedindo votos em pregações, vêm impondo dogmas (ou seria melhor dizer preconceitos?) a um país que sempre se caracterizou justamente pela diversidade pacífica de crenças. 

O boicote da bancada religiosa à lei contra a homofobia, sob o pretexto de que isso feriria a liberdade de expressão, é quase como se os Jesuítas, no Brasil Colônia, pedissem ao rei que aprovasse uma lei que salvaguardasse o direito de dizer em homilias que negros e índios não possuíam alma. Nunca é apenas uma questão de credo, o que está em jogo são realidades sociais. Em 1500, era a escravidão. Em 2012, é a discriminação por orientação sexual que relega milhões de pessoas ao status de cidadãos de segunda categoria.

Ao resvalar para discussões baseadas na fé, deixamos de debater políticas públicas realmente com profundidade. Em um debate sobre aborto, por exemplo, pouco se abordam questões como uma possível obrigatoriedade de acompanhamento psicológico antes e depois do procedimento, planejamento familiar e a própria infra-estrutura do SUS. Não conheço nenhum país onde o aborto seja proibido devido a fatores como esses. O que prevalece são os julgamentos morais.

O flerte da política nacional com o fundamentalismo me constrange ainda mais enquanto católica praticante. Peço aos irmãos de credo que se voltem mais para a leitura do Evangelho - afinal, é ele que nos torna cristãos. Em momento nenhum, Jesus defende que o caminho para a salvação é o cumprimento de dogmas ou preceitos. Pelo contrário, em todas as oportunidades que teve, Ele escancarou a fé vazia dos fariseus. Impor sua visão de mundo como verdade absoluta aos outros não torna ninguém um melhor cristão, apenas um cidadão mais hipócrita. Que tal dar uma chance ao amor incondicional ao próximo e respeitar o livre-arbítrio?

Se essa cruzada contra o Estado laico continuar, o Brasil só terá dois destinos diante de si: tornar-se uma nação hipócrita como os EUA, onde políticos caem mais por tabus morais que por escândalos de corrupção, ou uma ditadura como o Irã, onde homens e mulheres inteligentes e promissores têm o próprio cotidiano cerceado até nas menores nuances. Será que não queremos um futuro diferente para o nosso país?

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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Cotidiano concentrado

Desde que comprei a passagem para Fortaleza, comecei a pensar na viagem como uma espécie de pitstop. Como um piloto de Fórmula 1 que planeja cuidadosamente a ida ao box da escuderia, onde sua equipe inteira o aguarda para aquela curta pausa que vai tornar o resto da corrida possível, também eu contava os dias para o desembarque no Pinto Martins.

Esses 20 dias de Fortaleza foram como uma dose concentrada de cotidiano. Como já diria Kerouac, "everything went on as usual in the city itself - except that it was always changing, like me." (trecho do ótimo Maggie Cassidy) E a cada abraço amigo tudo se tornava mais familiar. Porém, a sensação era de não haver aquela casualidade típica da rotina, o encontrar-se por acaso, nos lugares onde os afazeres diários se interceptam. Na correria do pitstop, era tudo marcado com antecedência e algumas vezes faltou oportunidade para conversar mais demoradamente a sós, saber e contar da vida e das ebulições dentro de nós.

Aliás, essa foi uma das diferenças mais marcantes nos meus reencontros: enquanto havia gente que apenas queria ver como eu estava (se havia engordado ou emagrecido, se estava me vestindo de forma diferente ou até falando com sotaque), os amigos queriam apenas dar um abraço ou retomar uma conversa, como se eu nunca houvesse partido.

Embarco com a sensação de que estamos mudando, crescendo lá e cá do Atlântico, mas que o carinho permanece e talvez a casualidade da rotina um dia seja retomada.

4 de abril de 2012, escrito à mesa de um café superfaturado no aeroporto de Salvador.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Impressões de um Berlinale

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Em fevereiro, o Theater am Potsdamer Platz vira Berlinale Palast. (Débora Medeiros)

Não sou nenhuma cinéfila, mas, quase sem me dar conta, assisti dez filmes em uma semana de Berlinale. Cada dia no 62o Festival Internacional do Filme de Berlim era sinônimo de voltar pra casa com novas histórias na cabeça, ruminando novas realidades, relatos de vida e ideias. 

E foi um acontecimento típico de Berlim: misturado ao cotidiano - não tive a sensação de que a cidade parou por causa do Berlinale -, reservando um butim de experiências para quem ousa parar os afazeres e comprar um ingresso. 

Pretendo repetir a dose em 2013, só que, dessa vez, desde o primeiro dia. Este ano, perdi os três primeiros dias do festival, achando que não iria conseguir ingresso. Bobagem: chegando algumas horas mais cedo, dá pra conseguir entrada pra qualquer filme, mesmo os da competição pelo Urso de Ouro. E, comprando no mesmo dia de exibição, estudante paga meia. 

Aqui vão algumas impressões (não chamaria de resenhas) dos filmes que pude ver nesse Berlinale, na ordem em que os assisti.

PS: Não foi dessa vez que comprei a bolsinha hype do festival. A desse ano estava mais fuleira que a dos Enecoms da vida.

Ai Weiwei: Never Sorry

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(Alison Klayman)

Um dos artistas mais escancaradamente críticos ao governo chinês, Ai Weiwei expõe a própria vida neste documentário com a mesma transparência que exige do regime: mostra sem medo o rosto de seu único filho, deixa-se filmar numa conversa cheia de carinho e tensões com a mãe e revela as táticas quase de guerrilha de um dos seus projetos mais interessantes, a investigação das mortes de estudantes vítimas de um terremo em Sichuan em 2008 (o governo se recusa a tornar público o número oficial de mortos).

De acordo com a diretora Alison Klayman, essa transparência também na esfera privada é uma estratégia de defesa por si só: "Ele se esconde à plena vista," explicou ela, em uma conversa com o público daquela primeira exibição internacional do documentário, no dia 12 de fevereiro. E, ainda de acordo com Klayman, essa é uma estratégia que parece estar se difundindo. Muitos dos jovens que trabalham com o artista têm adotado o mesmo ideal de transparência, tuitando, fotografando, filmando - registrando, enfim, sua resistência. São os "discípulos de Ai Weiwei", como ela os chama.

Como essa disseminação de uma cultura de transparência na China afetará o futuro do país? Essa foi a pergunta que não saiu da minha cabeça depois da exibição, mesmo após ser interpelada por uma jovem chinesa claramente filiada ao Partido Comunista, que queria porque queria uma opinião negativa sobre o filme. Depois de diplomaticamente mudar o rumo da conversa para o Brasil, escapuli pra ver o segundo filme da noite.

Cesare deve morire

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(Umberto Montiroli)

O docudrama dos irmãos Taviani definitivamente mereceu o Urso de Ouro. A ideia de levar o público a acompanhar um grupo de presos nos ensaios para uma montagem de Júlio César na cadeia é uma sacada em prol do humanismo e da reabilitação. Aqueles homens, condenados muitas vezes à prisão perpétua, aparecem, nos ensaios, meninos brincando no quintal de casa, por não poder jogar na rua: revisam o texto em suas selas, perdem a noção do tempo refazendo cenas durante o banho de sol, acompanham ansiosos a reforma do auditório do presídio.

E a escolha justamente de uma peça que fala sobre liberdade e soberania reforça ainda mais o contraste. Uma das cenas que mais me marcou foi o discurso de Brutus (Salvatore Striano), no meio do pátio da prisão, bradando pela liberdade de Roma, diante de uma audiência que o assistia atrás das grades.

Olhe pra mim de novo

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(Divulgação)

Sylvio Luccio tem uma história incrível, tanto que virou o único personagem de um documentário cuja proposta inicial era acompanhar vários protagonistas. Ao mesmo tempo, o que se vê na tela é mais um cara que quer ter uma vida normal, casado, pensando em ter filhos, que talvez só tenha vivenciado tantas coisas por ser um transsexual masculino. "Eu não fui só excluído pela minha família, pela escola, pelos amigos, ou pelo mundo masculino e feminino. Fui excluído do meu direito de ser cidadão brasileiro e ser humano", declarou ele, em uma conversa com o público após a exibição do filme.

Olhe pra mim de novo é um retrato do esforço quase exaustivo que muitos LGBTs empreendem diariamente na busca por uma vida normal, que lhes é negada pelo preconceito contra sua orientação - ou sua identidade - sexual. No documentário, Sylvio conduz o público pelos sertões nordestinos, mostrando histórias de outras pessoas que sofrem com as diferenças, enquanto tenta realizar o sonho do primeiro filho. E esse trajeto, com as cores quentes dos cenários familiares da minha infância, despertou uma nostalgia danada.

Sylvio fala abertamente dos sentimentos e da sexualidade que vivencia como transsexual, com frases às vezes até cafajestes, que provocavam riso - às vezes cúmplice, às vezes desconcertado - na platéia. No Festival de Gramado de 2011, tanta franqueza pareceu ofender algumas pessoas. Não será essa também uma forma de preconceito?

Xingu

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Parte da equipe de Xingu em conversa com o público, no dia 15 de fevereiro. (Débora Medeiros)

Impossível não associar a história dos irmãos Villas-Bôas, na tela, à polêmica em torno da usina hidrelétrica de Belo Monte, nos jornais. Ao contar a história da criação do Parque Indígena do Xingu, o diretor Cao Hamburger parece querer lembrar o quanto essa reserva indígena representa uma conquista, ao mesmo tempo em que retrata a gênese de muitos dos erros que desaguaram em Belo Monte (não é à toa que o projeto vem desde a ditadura militar).

Depois da exibição, o diretor respondeu algumas perguntas do público, juntamente dos atores Caio Blat e João Miguel (Leonardo e Cláudio Villas-Bôas, respectivamente) e de alguns dos produtores do filme. Ao ser questionado sobre Belo Monte, não usou meias palavras: "Nessa cena em que o presidente estava inaugurando a Transamazônica, é a mesma cidade onde estão construindo Belo Monte (Altamira). Naquela época, tínhamos uma ditadura, mas agora temos um governo democrático e estamos cometendo o mesmo erro. Estamos perdendo uma oportunidade de construir um novo paradima de progresso, respeitando o meu ambiente," disse Cao.

Sophie's Choice

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(Divulgação)

A homenageada esse ano no Berlinale foi Meryl Streep e muitos filmes que marcaram a sua carreira estavam em cartaz. Aproveitei para ver Sophie's Choice, baseado no livro do americano William Styron. Confesso que foi estranho, até um pouco pertubador, ver um filme com menções diretas ao nazismo em meio a um público predominantemente alemão. Os diálogos em alemão nos campos de concentração, nos flashbacks de Sophie, eram de uma crueza cortante até para os meus ouvidos de estrangeira que aprendeu alemão muito recentemente. Inevitável não se perguntar como os próprios alemães ao meu redor se sentiram quando Sophie, em sua narrativa, se referia não aos nazistas isoladamente, mas "aos alemães", ao relembrar as crueldades da época.

Terá sido uma escolha deliberada dos curadores do festival?

Words of Witness

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(Divulgação)

O documentário acompanha Heba Afify, de 22 anos, que começou a trabalhar apenas três meses antes da revolução que derrubou o ditador Husni Mubarak no Egito. Além da sensação incrível de ver alguém da minha geração fazendo tanta diferença, o filme é interessante por mostrar aquilo que não chegou com tanta força às manchetes dos jornais ocidentais: os acontecimentos pós-revolucionários.

Enquanto Heba apura suas pautas, acompanhamos os conflitos entre cristãos e muçulmanos (que haviam lutado unidos durante a revolução), o papel ambíguo do exército, a emoção de muitos egípcios ao votar pela primeira vez na vida, o uso das redes sociais, a permanência de manifestantes na Praça Tahrir, retirados à força pelo exército. O próprio cotidiano de Heba diz muito sobre a realidade do país: membro da classe média egípcia, ela discute com a mãe (que é tão moderninha como muitas mães brasileiras e tem até perfil no Facebook) sobre os riscos de se envolver em coberturas políticas, se sente em casa escrevendo em inglês e hoje colabora até com o New York Times

Entre os momentos mais marcantes do filme, estão as cenas em que Heba entrevista anônimos em meio à multidão. Todos correm para ser ouvidos, querem contar suas histórias, apresentar seus argumentos, tirar uma foto. É como se, com a possibilidade da democracia, as pessoas percebessem também o papel essencial da imprensa para que essa possibilidade se concretize.

In the shadow of a man

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(Hanan Abdalla)

Exibido em dobradinha com Words of Witness, este documentário enfoca os direitos da mulher na sociedade egípcia e retrata como ainda há muitas revoluções a serem desencadeadas na esfera privada, talvez até mais difícil de ser transformada que a pública. 

Wafaa, Suzanne, Shahinda e Badreya: quatro mulheres de realidades bem diferentes contam suas histórias, repletas de sonhos, frustrações, opiniões decididas, afeto, memórias. Por não se concentrar somente na capital do país e explorar regiões mais pobres, o documentário apresenta uma perspectiva mais ampla do Egito pós-Mubarak que Words of Witness.

Uma observação interessante: essa foi a primeira exibição dos dois documentários no Berlinale e, na fila, os últimos ingressos eram disputados quase a tapa. Isso é um exemplo do que eu já tinha percebido em outras sessões - as pessoas querem ver, na telona, histórias reais do mundo em que habitam, quem sabe até fazer do cinema uma ferramenta para entender melhor as diversas transformações que, de uma forma ou outra, puderam acompanhar no noticiário ao longo de 2011. A seleção do Berlinale realmente tocou muito nesse aspecto. Além dos dois filmes egípcios, havia documentários sobre o extremismo de direita que ressurgiu na Alemanha (Blut muss fließen), sobre a luta contra o projeto de lei anti-gay na Uganda (Call me Kuchu), sobre os protestos na Espanha (Indignados) e diversos filmes sobre a Primavera Árabe (por exemplo, The Reluctant Revolutionary). Queria ter podido ver todos, mas quem sabe tenho mais sorte (e tempo) em 2013.

Tabu

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(Divulgação)

A narração do filme, feita pelo próprio diretor Miguel Gomes, dá um tom de realismo fantástico à história, apesar desta não possuir aspectos explicitamente surreais. As grandes sacadas de Tabu são justamente os pequenos detalhes da narrativa, como a maneira cronológica como a história é contada (na primeira parte, em dias; na segunda parte, em meses, por razões quase fisiológicas que têm a ver com a história contada).

Em Paraíso, segunda das duas partes que compõem o filme, não há um único diálogo, mas muitas músicas e ruídos do ambiente que parecem ficar ainda mais alto na ausência de vozes. O recurso assinala o caráter de lembrança do que está sendo contado, como se estivéssemos nós mesmos dentro da mente de alguém que recorda acontecimentos de décadas atrás: ninguém se lembra exatamente de todas as palavras ditas, mas as canções e as imagens geralmente permanecem.

Não é coincidência que Miguel Gomes, que declarou ter pretendido fazer um filme tradicional, tenha sido premiado com o prêmio de inovação Alfred Bauer no Berlinale.

Extremely Close and Incredibly Loud

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(Divulgação)

O livro é melhor. Mas constato isso não com aquele gostinho pretencioso e meio masoquista que a maioria dos fãs parece sentir quando vêem seus livros adaptados para o cinema. Pelo contrário, é uma pena que o livro seja tão indiscutivelmente melhor.

Claro que há que se levar em conta que são duas linguagens diferentes, mas o roteiro tinha mesmo que ser tão convencional? A multiplicidade de narrativas em primeira pessoa que acabam se interceptando, tão típica dos livros do Jonathan Safran Foer, simplesmente some aqui. Com a narração restrita a Oskar, muitos dos aspectos mais interessantes da história se perdem e o filme acaba caindo num sentimentalismo meio barato - há, no mínimo, três cenas em que Oskar "surta" e joga tudo no chão, pra que esse exagero?

Estranho pensar que Stephen Daldry, o mesmo diretor de As Horas, não tenha ousado ir além da opção mais óbvia para o roteiro. 

Pra mim, só vale a pena pela atuação de Max von Sydow, sensacional no papel do inquilino da avó de Oskar.

En kongelig affaere

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(Divulgação)

Traduzido como Um Caso Real, esse filme dinamarquês traz uma visão, mesmo que romanceada, da influência do Iluminismo em uma parte da Europa que não costuma ser estudada quando se fala dessa época. Nesse aspecto, o filme se encaixa no que parece um dos grandes objetivos do Berlinale: apresentar novas perspectivas, de lugares nem sempre enfocados pelo mainstream, mesmo que, neste caso, seja uma nova perspectiva histórica.

Outro ponto forte é a criação dos personagens. Em filmes do gênero, ela costuma ser bem maniqueísta, mas não em  Um Caso Real. Todos os personagens parecem ter suas zonas cinzas, não há heróis ufanistas, apenas seres humanos, cujas ações, em grande parte, são pautadas (ou mesmo forçadas) pelas intrigas da corte, pela defesa de interesses e ideais diversos. Um claro exemplo disso é o rei Christian VII, que desperta, ao mesmo tempo, pena, raiva e carinho por parte do público. Por sua atuação cheia de nuances, o ator Mikkel Boe Følsgaard recebeu o prêmio de melhor ator no festival.

E isso foi o que eu vi no meu primeiro Berlinale.

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Das ist Berlin

ou Da cidade e da rotina

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Um lembrete nos arredores do Checkpoint Charlie. (Débora Medeiros)

Descer as escadas de casa de dois em dois degraus, ver o ônibus partindo do outro lado da rua, perceber que o trem faz mais paradas do que a já recalcitrante pontualidade recomendaria, sair quase correndo pela rua de letreiros: tudo para desaguar num salão onde a London Symphony Orchestra afina os instrumentos, para em seguida tecer, junto ao mais novo prodígio do piano chinês, um véu de notas e sensações.

Às vezes esqueço onde estou e a cidade onde moro se reduz aos textos pra ler, o ônibus pra pegar, a casa pra cuidar. Mas, de repente, um dos compromissos anotados na minha agenda se materializa e me traz de volta à (incrível) realidade: estou em Berlim. 

Há seis anos, quando percorria os corredores da UFC com aquele misto de curiosidade e orgulho sentido por todo recém-aprovado no vestibular, nem passava pela minha cabeça que estaria vivendo do outro lado do Atlântico pouco mais de um ano depois de formada. Quando estive aqui pela primeira vez, caminhei por ruas que pareciam ter visto cada linha dos meus livros de História: placas - como a fotografada por mim acima - demarcando onde o Muro se erguia, museus cheios de relatos de um cotidiano surreal, pessoas que haviam crescido entre as ruínas do Pós-Guerra, prédios residenciais quase em cima do fatídico bunker de Hitler (que hoje não existe mais, foi aniquilado pelos soviéticos pra não virar local de peregrinação pra malucos). Mesmo assim, Berlim não me pareceu uma cidade parada no tempo. O Tachelles fervilhava com doidões do mundo inteiro, a comunistona Alexander Platz tinha virado shopping a céu aberto e as pessoas corriam pra vida, cheias de afazeres espalhados entre as conexões de ônibus/trem de superfície/metrô.

Hoje sou uma dessas pessoas e me pergunto se elas, como eu, esquecem onde estão, habitando as tarefas diárias ao invés da própria cidade. Berlim, nesse ponto, me parece o oposto de Paris, que é um lugar onde, sob a beleza dos pontos turísticos, se escondem milhares de vidas sacrificadas pelo sonho de simplesmente estar lá: pedintes no metrô, imigrantes tiritando de frio ou torrando ao sol, se fazendo de estátua para ganhar alguns trocados de quem se fotografa ao lado deles, transeuntes que parecem carregar uma couraça sob os casacos bem cortados, prontos para dar uma resposta cortante ao menor movimento brusco - algo que conviver com a hostilidade repentina faz com a gente. Paris só deve ser suportável para essas pessoas porque elas estão constantemente se lembrando do nome do chão onde pisam.

Não, Berlim me parece uma cidade mais possível - menos de fachada. Tem desempregados, especulação imobiliária, criminalidade, orçamento estourado, obras faraônicas. Mas também tem um custo de vida baixo, uma contracultura viva e militante, recantos onde estranhos se ajudam das mais diversas formas sem pedir nada em troca. As pessoas dão um jeito de não cair no caos, desde os estudantes que fazem bicos de garçom ou de professor particular aos mendigos que vendem jornais comunitários no metrô. Todos devem se esquecer às vezes que estão em Berlim. 

E, de certa forma, é essa a beleza da cidade: ela vai se infiltrando na vida da gente, de uma maneira própria de cada um, por memórias, lugares e pessoas que não estão nos cartões postais.

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