domingo, 11 de dezembro de 2011

De passagem

O mais difícil é sonhar que a gente está lá. No sonho, ver quem a gente ama ainda é apenas uma questão de sair de casa e circular pelas ruas de sempre, de fazer um telefonema, de enfrentar o engarrafamento. Mas as ruas de sempre aos poucos se tornam outras, os telefonemas viram interurbanos e os engarrafamentos, passagens compradas na promoção. Como nós, outros também estão partindo, seja para outras cidades, outros países ou outras rotinas. E a realidade do sonho, das nossas lembranças, talvez não fique lá por muito tempo. A nossa partida já a modificou, de certa forma. 

Cruzar o Atlântico de avião talvez seja a nossa chance de reverter essas transformações. Quando todos nós convergimos para o mesmo lugar, independente do quão diferente está a vida de cada um, voltamos à realidade do sonho.

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sábado, 23 de abril de 2011

A vida é tão maior que isso

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Foto: 80, de Yuri Leonardo.

Dizem de alguns povos que são como formigas, diligentes e submissos à coletividade. Pensando assim, Fortaleza é como um formigueiro que acabou de ser pisado: cada formiga corre, sozinha e desnorteada, na tentativa de deixar o caos para trás.

Ônibus apinhados de gente, ruas atulhadas de carros. Não existe contra-fluxo: todas as horas são horas do rush.  Nos corpos, sempre em rota de colisão, a sensação renitente de que o inferno são os outros. Na verdade, o inferno está em cada um.

São pobres diabos que, imersos no próprio egoísmo, viram legião, possuindo a cidade que os abriga, em uma confusão de vontades individuais irreconciliáveis. O que importa é prevalecer sobre o outro, mas ninguém de fato prevalece. E todos amaldiçoam a cidade, sonham com o dia em que fugirão dela. É mais cômodo que tentar transformá-la.

Fortaleza é um lugar hostil. O sol é escorchante, onipresente. Cega os olhos, torra a pele. À beira-mar, espigões privatizam o vento que poderia aliviar o dia-a-dia abrasador. E, quando a chuva vem, não lava as ruas nem as almas. Inunda-as.

Mas é só olhar pro céu para esquecer tudo isso. Mesmo com a vista quase sempre posta nas pedras de calçamento – para não tropeçar –, ainda encontro alívio em ver de relance a vastidão azul que paira imperturbável sobre todos nós, como a escancarar a pequenez de nossas aflições. Nos dias cada vez mais próximos do meu futuro, não haverá sempre um céu assim.

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