quarta-feira, 12 de maio de 2010

Kerouac e o que vale a pena

Neal Cassidy e Jack Kerouac, Dean Moriarty e Sal Paradise. (Divulgação)

 

Existem momentos perfeitos pra gente ouvir uma banda, ver um filme, acompanhar um seriado, ler um livro. É como se nossas vidas entrassem em sincronia com aquela obra de arte específica e ela pudesse ser compreendida de um modo único, impossível de replicar alguns anos atrás ou adiante. A vida se entrelaça à criação.

 
Há uma semana, eu vasculhava o armário de livros dos meus pais, à procura de bibliografia para o mestrado: Durkheim, Weber, os clássicos que eles viram na graduação e já devem ter esquecido - pragmatismo cotidiano comendo as teorias da juventude em suas cabeças. Gosto de chafurdar na poeira desse armário, ver o que eles liam quando tinham a minha idade, no que somos ou éramos parecidos. Entre um Vargas Llosa que já li e um manual intitulado A auto-estima do seu filho, Jack Kerouac acenou pra mim, com seu grande clássico On the Road, numa edição de 1984, assinada possessivamente pelo meu pai e situada no espaço e no tempo pelos rabiscos "Natal, 30/04/84". Meus pais se casaram no final daquele ano e vieram morar em outra cidade. Não deixava de ser um chamado da estrada.
 
Sempre tive uma vaga curiosidade pra ler esse livro, mas nunca foi o suficiente pra comprá-lo, ao esbarrar com ele em alguma livraria. Algo naquela tarde modorrenta de terça-feira me fez esquecer as leituras acadêmicas e mergulhar finalmente nas viagens do maior dos beatniks. E o momento não poderia ser melhor. On the Road ecoa meu presente e meu futuro como nenhuma outra obra que caiu nas minhas mãos este ano. Cada linha repercute conversas, reflexões, sonhos, planos. Como quando Jack coloca em palavras meus próximos anos, os próximos anos de tantas gerações de jovens nessa cidade: "(...) pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal". Impossível não fechar os olhos e adivinhar as vidas dos mais queridos, seus planos virando realidade aqui ou em outro lugar e os reencontros ocasionais, migratórios.
 
Num ano em que crescer significa emprego, responsabilidades de profissional, projetos independentes e escolhas de prioridades, On the Road parece dizer que a vida não acabou, essas são novas aventuras e um mundo de possibilidades e liberdade está só começando. No livro, viajar é apenas uma etapa extremamente enriquecedora do ciclo de cansaço e renovação que é cair na estrada e esquecer que se tem uma casa pra onde voltar, até que o caminho de volta se torne a direção mais natural outra vez. 
 
Está tudo lá: o salto no escuro que é se lançar rumo a uma cidade desconhecida, a familiaridade que vem com o contato com as pessoas que moram ali, a saturação que leva a partir e começar o ciclo todo de novo. Jack também estabelece o equilíbrio entre viajar sozinho, absorvendo tudo e todos que encontramos nos acasos da estrada, e cumprir a jornada na companhia de um velho amigo. Ver Sal ver o mundo pelos olhos do seu amigo desvairado Dean é uma das sacadas mais brilhantes do livro. Fico pensando nas poucas pessoas que poderiam ser "meus Deans", tenho bem fixados os rostos desse punhado de malucos adoráveis, que achariam perfeitamente lógico esse tipo de aventura, encarada com desconfiança por 90% dos que nos cercam. Os lugares que poderíamos descobrir juntos, as histórias que teríamos pra contar...
 
A solidão de um vagabundo nas highways americanas do fim dos anos 1940 e começo dos 1950 parece falar de um tempo de inocência inimaginável nos EUA das séries de serial killers e dos horrores impronunciáveis. Jack capturou o espírito de sua época e, como certas passagens do livro explicitam, tinha plena consciência disso. Incríveis são as descrições dos shows de jazz em inferninhos do oeste, em que a música pulsa nas letras impressas e soa tão forte na imaginação que quase se pode ouvi-la. Diante de notas tão transcendentais ou das paisagens sublimes vistas de relance, tudo ganha outra dimensão. Diante do que se pode viver, pra que perder tempo, se preocupando com mesquinharias? É o que Dean parece resumir, descrevendo para Sal um grupo com quem eles pegaram carona:
 
"Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos e puramente angustiados e angustiantes, suas mentes jamais descansam, não encontram paz, a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim."
 
Amigos, a vida é tão mais que isso. Caiam nas estradas dos seus corações.

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domingo, 2 de maio de 2010

Auf Deutsch

Nächste Station: Westener Dorfstrasse, wo mein zweites Heim liegt. (Débora Medeiros)
 
Ich weiss, nicht so viele Leute werden dieser Text verstehen, aber es war unmöglich, die gleiche Wörter auf eine andere Sprache zu schreiben. 
 
Jede Sprache ist, für mich, eizigartig. Wenn ich auf Englisch schreibe, alles klingt so entfernt, als ob die Erfahrungen und Gefühle nicht zu mir gehörten (das ist aber etwa therapeutisch). Auf Portugiesisch ist es das Gegenteil: alles klignt zu persönlich, sogar wenn es nicht über mich ist.
 
Portugiesisch ist meine Muttersprache und die Muttersprache meiner Leser. Deshalb verstehen wir uns so gut – zu gut, vielleicht. Wenn ich ein Text auf Portugiesisch veröffentliche, fühle ich mich fast nackt – jeder kann zwischen den Zeilen lesen, denke ich. Na klar, es lohnt sich: manchmal finde ich andere Leute, die genau wie ich fühlen, und entdecke ich neue Freunde.
 
Englisch ist die Sprache meiner Jugend. Durch das Lernen von Englisch habe ich eine neue, grosse Welt erfahren. Damals hatte das Internet keine Grenze: ich konnte verschiedene Kenntnisse bekommen und Leute auf der ganzen Welt kennenlernen. Ich fühlte mich, als ob ich ein Teil einer weltweiten Gesellschaft wäre. Und die einzige gemeinsam wir alle hatten war die englische Sprache.
 
Deutsch ist aber Freiheit. Es ist eine ehrliche Sprache, weil es aus eine ehrliche Kultur kommt. Deswegen kann ich auch ehrlich sein und über meine Gedanken und Gefühle schreiben – ohne Druck, ohne Angst.
 
Wahrscheinlich hat dieser Text viele, viele Fehler. Ich lerne noch. Die wichtigste ist, dass ich noch schreiben kann. Ohne Übung, jeder Tag verliere ich mein Deutsch ein bisschen mehr: ich vergesse Wörter, die ich schon kenne, und auch die kleine Erinnerungen diese Wörter tragen.
 
Jedes deutsche Wort erinnernt mich an meine Zeit in Deutschland – und an Schnee, fremde Strassen, einfache Freundschaften, Entdeckungen, Zuverlässigkeit, Geschichte und Unabhängigkeit. Entweder ich künftig zurück nach Deutschland gehe oder nicht, immer wenn ich auf Deutsch schreibe, werde ich diese Gefühle wieder erleben. Für ein paar Minuten bin ich noch einmal in Düsseldorf, die Stadt, die mein anderes Leben hält, das zweite Heim meiner Jugend. Das ist ein Teil von mir, das ich nie verlieren will.

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