domingo, 28 de março de 2010

A juventude é uma arma quente

Foto: Perto do gabinete do reitor, uma vista da Reitoria que eu nunca tinha enxergado antes. Essa UFC ainda tem muito o que revelar... (Débora Medeiros)

Esqueci o relógio em casa no dia da minha colação de grau - 25 de março de 2010. Estava com a cabeça em outro lugar, acho, curtindo aquela sensação que a gente só tem no próprio aniversário: é um dia comum pro resto do mundo, mas, pra nós, quer gostemos ou não de festa, a rotina parece reluzir misteriosamente. Fecha-se um ciclo.

Sentia isso também, quando peguei o ônibus de sempre, rumo à Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Colação de grau especial é assim: no resto da Academia, a vida continua, ninguém vai encher a Concha Acústica, poucos vão assistir ou mesmo saber. Mas, no gabinete do reitor, havia 24 corações em festa. 

Meu único convidado na cerimônia foi o professor Riverson Rios. Esperamos sentados na antesala do gabinete, falando da vida, dos respectivos passados e do futuro. Atencioso como só quem é docente por vocação consegue ser, ele me lembrou até o último minuto por que me sinto em casa no curso de Comunicação Social. E como quero voltar pra lá um dia.

Em pouco mais de uma hora, estava tudo feito: a ata fora assinada, o juramento repetido em uníssono, reitor, pró-reitor de graduação, professores e recém-formados discursaram. E pronto, virei jornalista. Deixei de ser café-com-leite. Não se trata mais de definir que cadeiras fazer, se permaneço ou não no estágio atual, onde almoçar. O ano se estende, enigmático, diante de mim, uma transição de 12 meses entre o fim da monografia e, querendo Deus, o início do mestrado. Onde trabalhar? Como conciliar com outros projetos, outras paixões? E, depois de 2010, a vida, não sei até quando, se estende na imprevisibilidade de uma só pergunta: vou voltar à UFC um dia? Terei a persistência, a paciência, a sorte para retornar como professora? Por mais que eu ame o jornalismo e queira vivenciá-lo por muitos anos, tenho a certeza de que, fatalmente, só me sentirei completa quando estiver ensinando no lugar onde aprendi tanto sobre a vida adulta.

Porém, mais uma vez, a rotina só reluzia, sem de fato mudar. O sol do Benfica era o mesmo, o sorriso das pessoas conhecidas, os abraços - de parabéns ou de olá. A Castelinho, ali na esquina, continuou sendo o ponto de convergência dos afetos. Gente que eu não via há semanas ou com quem falo todos os dias se sentou à mesma mesa, para montar o Canhotos, fanzine coletivo que começamos no primeiro semestre. Conversas, confissões, brincadeiras e muito amor se embaralhavam na miríade de pedaços de papel pela enésima vez.

E o fato de não haver uma ruptura, de tudo ser feito de mudanças tão sutis, confirma minhas suspeitas de que não há regras ou figurino fixos pra vida adulta. Os planos malucos não precisam acabar, não preciso me resignar a trabalhar com o que não gosto e cresci o suficiente pra equilibrar felicidade e responsabilidades.

Na verdade, a sensação é de que o melhor vai começar agora, que a diversão vai é ficar mais consciente. E aí, o que fazer? Transformar a cidade no meu playground ou explorar outras paragens? O futuro é um mistério e nada é tão libertador quanto um caminho cheio de bifurcações. E, se pra John e Belquior, "a felicidade é uma arma quente", cresce a certeza de que a minha juventude também é.

No fim do dia, atravessei a rua pra pegar o ônibus com Bruno Reis. Os carros passavam furiosos ao nosso redor, a lua já ia alta no céu. A noite tinha sido um flashback caleidoscópico não só pra mim. É o Bruno, com aquela leveza sutil que sempre amei ao longo dos anos, quem observa: "Nem parece que o tempo passou, né?" É, nem parece.

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quinta-feira, 25 de março de 2010

Passeios pelas Cidades Internas - parte 2

Foto: Ramon Cavalcante e Fernanda Meireles, com o desenho de uma das plaquinhas da coleção Cidades Internas. (Divulgação)

A arte de Ramon Cavalcante tem como matéria prima suas andanças pela cidade. Fazendo jornalismo, com o grupo TR.E.M.A., ele já lançou o livro Cadeiras com Rodas, com relatos do cotidiano noturno dos terminais de ônibus fortalezenses, e o documentário O Conto Torto do Olho. Também já fez fanzine, quadrinhos, estudou Artes Plásticas no então CEFET-CE. 

Pra ele, tudo passa por Fortaleza, a cidade onde nasceu, se criou e vai criando obras bonitas pra fazer pensar, como as plaquinhas de PVC da coleção Cidades Internas, fruto da parceria com a arte-educadora e fanzineira Fernanda Meireles (leia a entrevista com ela aqui).

Em entrevista por e-mail, mas que também dava uma boa conversa presencial, Ramon fala sobre a vida na cidade, a proposta da coleção Cidades Internas e seus próximos planos.

Você faz parte do TREMA, grupo que já publicou até livro através de edital. De que forma essa experiência com a Fernanda se aproxima do trabalho que você fazia com os meninos e no que ela é diferente?

Ramon Cavalcante: Sim, fiz parte do TR.E.M.A. (Território de Expressão no Mundo Anônimo) que acabou com a publicação da revista/livro Cadeira com Rodas e do documentário O Conto Torto do Olho. O TR.E.M.A. era um grupo que trabalhava com jornalismo, buscando um olhar delicado sobre a cidade, mas era jornalismo. O Cidades Internas é um encontro de dois artistas, lançando um olhar sobre cidade, mas são coisas bem diferentes. Assim, as inquietações são as mesmas, os desejos também, mas a forma é outra, o que torna os trabalhos bem diferentes. Mas mesmo no TREMA nós tivemos várias interseções com a Fernanda, fosse dividindo uma mesa de bienal do livro, num zine-se ou mesmo num Literatura de Lua. Os desejos semelhantes aproximam as pessoas.

O que, da sua relação com a cidade, está presente nas plaquinhas do Cidades Internas?

Ramon: Eu nasci e me criei em Fortaleza, respiro e transpiro essa cidade todo dia, quer queira, quer não. A cidade me oprime, me inquieta, me cutuca e eu falo dela, sobre ela, seja no jornalismo, nos quadrinhos, na ilustração, no vídeo... Enfim. As minhas raízes são na cidade, minhas manifestações artísticas se nutrem dela.

Portanto, a minha relação com a cidade influencia em um relatório ou ofiício que eu tenha que escrever, na produção de imagens sobre a cidade então, nem se fala. É a própria cidade saindo de dentro de mim, através de uma caneta ou pincel, direto pro papel, pura e simples.

Como alguém que trabalha com quadrinhos e ilustração, de que forma você vê Fortaleza representada nesses meios? 

Ramon: A produção de quadrinhos em Fortaleza ainda é embrionária, mas mesmo assim, tem coisas sendo feitas sobre a cidade, meu quadrinho (que falo na última pergunta) é, basicamente, uma história sobre o cotidiano da cidade. Mas, fora um caso isolado ou outro, a produção de quadrinhos de Fortaleza ainda fala muito pouco sobre cidade... Na verdade, fala muito pouco de qualquer coisa.

Categoricamente eu não sou ilustrador, já fiz muitas ilustrações, muitas mesmo, mas não é a isso que eu me dedico. Quando você desenha é inevitável que acabe ilustrando muitas coisas, mas não é a minha sabe? Minhas imagens pedem sempre outras, uma sequência, não tenho a concisão de um ilustrador, nem a sua dedicação, a maioria dos meus desenhos pede o tempo, pede a passagem de tempo, não são caprichosos, não olhe muito tempo pra eles, passe para o próximo.

Tem algum artista específico que você considera especialmente relacionado com a cidade?

Ramon: Ah, tem muita gente boa pensando a cidade. Muita, o povo que mexe na rua mesmo, com arte pública, tem o grupo Acidum, que eu adoro, o próprio Coletivo Meio-Fio, Liquidificador sem Tampa, Coletivo Curto-Circuito, tem gente que nem tem nome, o povo do cinema, Alumbramento, Pedro Diógenes, Guto Parente. Fortaleza tá pegando fogo (e eu não tô falando do calor), tem muita gente produzindo e a cidade inquieta muita gente.

Depois do Cidades Internas, você já tem algum projeto aí engatilhado pros próximos meses?

Ramon: Eu estou terminando o meu primeiro livro de quadrinhos, chama-se Frases de Banheiro e é desenhado por mim e mais três pessoas: Jabson Rodrigues, Neudson Aquino e Carlos Campus. Vamos lançar ainda nesse semestre e, como falei antes, é um livro com histórias sobre a cidade, a vida das pessoas, como elas se interpenetram... Enfim. Logo, logo tá entrando no ar o site www.frasesdebanheiro.com.br

O lançamento da coleção Cidades Internas acontece hoje, 25, às 19h30, no Parente Snooker Bar (rua Dom Jerônimo, 554. Otávio Bonfim). Cada plaquinha de PVC custará R$ 15 no evento e, depois, R$ 20. Vendas e outras informações: 9137.1585 (Ramon) e 8646.3534 (Fernanda).

 

Eles também estão no twitter: @cidadesolar e @ramoncavalcante.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Passeios por Cidades Internas - parte 1

Fotos: Fernanda e Ramon durante o processo de criação das placas da coleção Cidades Internas, algumas delas já prontas na última foto.

Fernanda Meireles está para Fortaleza como João do Rio está para o Rio de Janeiro ou Woody Allen para Nova York. Fanzines, cartões postais, música (com a banda Alcalina), oficinas. Sempre com um projeto na manga, a arte-educadora semeia o amor à cidade e os encontros entre seus habitantes, criando memórias pra si e pra todos nós.

De partida para a França, onde, com o financiamento de um edital do Ministério da Cultura, estudará a experiência da Fanzinothèque de Poiters, Fernanda se despede da sua Cidade Solar com uma novidade todos os dias. Já fez uma semana inteira de encontros no projeto Literatura de Lua, lançou a coleção de cartões de visita eróticos Kaminha Sutra com Vitor Batista e, nesta quinta, às 19h30, no Parente Snooker Bar, lança a coleção de plaquinhas de PVC Cidades Internas, em parceria com o desenhista e jornalista Ramon Cavalcante.

Em entrevista por e-mail (como dá pra perceber pela risada de milhões de caracteres que já é praticamente marca registrada), Fernanda conta um pouco sobre o projeto, suas impressões sobre a cidade e os planos pra agora e depois.

Quando foi que você e o Ramon começaram a pensar no Cidades Internas? Como se decidiram pelo tema?

Fernanda Meireles: Desde setembro de 2mil e 9 o Ramon e eu pensamos num jeito de lançar uma coisa juntos. O conheci pelo TR.E.M.A. e já acompanhava o trabalho no tempo que o jornal O Povo publicou HQs que prestavam e tenho o zine que ele lançou, chamado Percursos (ele nem tem mais aerjknfgjaegbjear). Aí o mundo é ligeiro e viajei e voltei e nos encontramos e záz! Colocamos pra frente o projeto. A cidade é um tema constante pra mim e pra ele, aí já viu, né?

Além do Cidades Internas, com o Ramon, você também já fez parcerias com o Ayrton Pessoa Bob (Postais Supercordas) e com o Vitor Batista (Kaminha Sutra). Como é trabalhar coletivamente conceitos tão subjetivos e, de certa forma, particulares?

Fernanda: Fico morta de feliz por conseguir trabalhar criando coisa junto com eles. Primeiro porque são meus amigos, depois porque noto que artisticamente a gente cresce junto em paralelo e em tranversais, misturando linguagens. São três meninos que admiro por princípios, estilo de vida e, claro, pelo talento fora do comum.
 
O Bob foi o primeiro, a gente misturou em duas coleções de postais o que a gente gosta: Beatles, amor e sono. (Ou seja: ouvir música e tocar, namorar e dormir!). Aqui, ó: http://postaissupercordas.wordpress.com 

O Vítor eu acompanho desde quando o 7Dayz era um zine (aí virou livro comtemplado por edital www.blogzdovitor.blogspot.com). A gente também já tinha feito a polêmica HQ “A Incrível História de Ana Cláudia e Alice” pra Coordenadoria de Diversidade Sexual da Prefeitura e foi muito divertido! (E nos sentimos úteis em fazer o que acreditamos). A coleção erótica Kaminha Sutra começou a ser pensada há quase 1 ano, e agora saiu, ufa! http://picasaweb.google.com.br/fernandaameireles/KaminhaSutra 

Sobre os conceitos, é bacana reparar que todos se interligam - ou seja, não sou doida. wejfnwjenfjnwejfnjwaef

Quando você esteve na Holanda, no ano passado, organizou a exposição Inner Cities, com postais escritos em inglês, que foram parar nas mãos de gente do mundo todo. De que forma o Cidades Internas se remete a esse trabalho, além do nome traduzido?

Fernanda: O Inner Cities foi uma série de uns 40 postais com textos que nasceram lá, disso de estar com saudade, de estar numa cidade estranha que às vezes é linda e às vezes é estéril, de ter que fazer e desfazer malas e sentir cousas enquanto isso, de conhecer gente do mundo todo que já não tinham uma cidade pra-chamar-de-sua. Uns desterrados modernos que são conhecidos como cidadãos do mundo... 

Ter passado um tempo fora influenciou o jeito como você olha pra Fortaleza agora?

Fernanda: Conhecer uma parte do Velho Mundo por motivo que não foi esse mesmo (fui pra encontrar meu amor e conhecer a Fanzinothèque de Poitiers), foi uma experiência muito estranha. A Europa não era o objetivo, era algo no meio do caminho (aesbfhawbehfbawlhf), daí fui sem ilusões e claramente de passagem. Isso desencadeou muitas descobertas, impressões, boas e ruins. Eu era uma turista acidental até informada sobre muito de lá, mas ESTAR é diferente. E viajar pra mim ainda não é simples! 

Sempre digo que Fortaleza é uma cidade nova, ainda, agora que a primeira geração que enxerga a cidade como sua mesmo está começando a crescer e trabalhar. Ainda é raro encontrar alguém que tem os 4 avós nascidos aqui. Todo mundo tem um interior pra onde voltar. Ou ainda, uma cidade maior pra ir. Ou veio de passagem e ficou. Daí, é uma cidade meio sem dono. À deriva, feito o Mara Hope. (Aaaaaaaaaaaaaaaaaa) Muito oposto às cidades européias, onde os imigrantes já estão é tomando tudo (de volta, talvez) pra si.

A sensação que eu tinha do quanto Fortaleza é um “work-in-progress” se acentuou. Meu amor por essa cidade acabada e inacabada também.

E essa sensação de já estar de partida de novo, te faz ver a cidade de um jeito diferente?

Fernanda: Sim. Tomei banho de chuva, comi baião, bebi água de côco, passamos um pedaço da madrugada sobre as pedras no calçadão da Praia de Iracema, vendo o mar. É quase como me despedir da minha namorada. (klaengjkçaenrgjnaerjgnaej)

Você considera que isso está presente nas plaquinhas do Cidades Internas?

Fernanda: Está tudo lá, tudoo que eu falei aqui e os desdobramentos disso. Ramon e eu colocamos mensagens – sinais, daí serem placas! – em cada signo, seja ele escrito ou desenhado. Eu podia escrever um livro sobre cada uma delas.
 
Quais são os planos pros próximos dias, semanas, meses, lá e aqui de novo? :)

Eles se enlaçam num futuro bem próximo!

Próximos dias: 27 de março, sábado, Zine-se de 8 anos no foyer do TJA. Meia hora antes eu falo dos Zines Yoyô e como a cena de zines (odeio esse nome cena, parece que é de mentira ekarjlgaergbjabej) se construiu de dez anos pra cá. Falo mostrando as fotos, vai ser manssa!

Domingo dia 28 vai ter um feirão com tudo que produzo, aqui em casa. É também meu bota-fora...

Planos para lá: Passar abril na Fanzinothèque de Poiters, num intercâmbio/residência registrando tudo num diário de bordo. Namorar muito. Ir no London Zine Symposium dia 29 de maio. Expor em Poitiers, Amsterdam e Londres, enquanto tudo. Uma versão em inglês das placas com o Ramon vai na mala!

Planos pra cá: Transformar esse intercâmbio num relato e depois num livro, que é minha contrapartida ao Edital de Intercâmbio e Difusão do Ministério da Cultura daqui, que está bancando minhas passagens (só Fortaleza-Paris-Fortaleza) e hospedagem em Poitiers (o resto do dinheiro tem que vir da venda das coleções!) 

Ah, e namorar muito também.

Leia amanhã a entrevista com o desenhista Ramon Cavalcante.

O lançamento da coleção Cidades Internas acontece amanhã, 25, às 19h30, no Parente Snooker Bar (rua Dom Jerônimo, 554. Otávio Bonfim). Cada plaquinha de PVC custará R$ 15 no evento e, depois, R$ 20. Vendas e outras informações: 9137.1585 (Ramon) e 8646.3534 (Fernanda). Eles também estão no twitter: @cidadesolar e @ramoncavalcante.


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domingo, 14 de março de 2010

Tudo se ilumina à luz do passado

Pertenço à primeira geração de cearenses da minha família. Foi meu pai quem se mudou para Fortaleza, seguido pela minha mãe quando eles se casaram. Os dois vêm da mesma cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte, Florânia, se conhecem desde crianças e foram morar em Natal na adolescência. O grosso dos parentes de ambos os lados ainda moram em uma dessas duas cidades, de modo que, aqui em Fortaleza, somos basicamente nós quatro - eu, minha irmã, meu pai e minha mãe - e mais ninguém.

Passei todas as minhas férias escolares em Natal, na casa da minha avó materna. Apesar de eu ter memórias de infância ali, atualmente visitar a cidade (coisa que fiz essa semana) me remete a um passado mais remoto: a juventude dos meus pais. Minha mãe me mostra os lugares onde estudou e trabalhou, a igrejinha onde se casou, os trajetos dos ônibus que ela tomava. As visitas que, invariavelmente, aparecem na casa da minha avó quando estamos lá recordam causos de décadas atrás, fragmentos dos meus pais aos 17, 18 anos. 

De certa forma, é como mergulhar em um universo paralelo. E se meus pais tivessem ficado em Natal, como eles seriam hoje? Se pudessem sair com os amigos todos os fins de semana, se tivessem que se inserir em almoços de domingo com os irmãos e os filhos dos irmãos, se estivessem no meio do misto de fogo cruzado e rede de segurança tão típico das famílias grandes, seriam mais ou menos felizes? Às vezes, sinto-os tão sozinhos aqui. Eles têm colegas de trabalho, mas não têm amigos de infância em Fortaleza. Não têm aquelas pessoas que transportam a doçura do passado para o presente, ligados a eles por nada além de vivências comuns. Os amigos são vias de escape contra o lado massacrante do cotidiano. Sem eles, para onde fugir? 

Se meus pais tivessem ficado em Natal, como eu seria? Teria feito Jornalismo? Sentiria essa pulsão por percorrer o mundo? Gostaria das coisas que gosto? Se não tivesse os amigos que tenho, e sim outros; se frequentasse outros lugares, teria a mesma personalidade? Enfim, se a cidade que descobri sozinha nos primeiros suspiros de independência adolescente tivesse sido Natal, ao invés de Fortaleza, o que teria mudado? Só posso imaginar as respostas pra tantas perguntas, mas cada vez que vou a Natal trago ao menos uma certeza: somos a cidade onde crescemos, inevitavelmente.

PS: O título é uma referência ao livro Tudo se ilumina, do americano Jonathan Safran Foer, relato meio autobiográfico meio fantástico da busca do autor por suas raízes ucranianas, guiado pela indagação: se seus antepassados não tivessem fugido do nazismo rumo aos EUA, como seria sua vida na Ucrânia? Por coincidência, comecei a ler esse romance em Natal, na varanda da minha avó, onde li tantos livros que hoje são parte de mim.

PPS: Quando viajávamos de carro para Natal, meu pai gravava fitas K7 que preenchiam o percurso de oito horas inteiro. Uma das minhas favoritas era a que tinha esta música do 14 Bis. Nossa linda juventude, página de um livro bom. Devo estar ficando velha. Essa frase não me sai da cabeça.

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domingo, 7 de março de 2010

Heinrich Heine: o poeta do banzo

 
Estátua Heinrich Heine na Universidade de Düsseldorf, rebatizada como Universidade Heinrich Heine em 1988. (Débora Medeiros)

Comprei muitos livros na Alemanha, mas só comecei a ler um enquanto estava lá: Deutschland. Ein Wintermärchen ou, em tradução livre, Alemanha. Um Conto de Fadas Invernal. Formado por uma sucessão de poemas, o livro foi publicado em 1844 por Heinrich Heine, depois de uma viagem pelo país. 

O nome do poeta é quase onipresente em Düsseldorf; foi lá que ele nasceu, apesar de ter se mudado logo para Hamburgo. A Universidade se chama Heinrich Heine, os professores de alemão citam sua obra, os guias turísticos sugerem uma visita ao Heinrich Heine Institut e a casa onde ele nasceu continua de pé. 

Nem sempre foi assim: enquanto era vivo, Heine foi perseguido pela censura no próprio país e, por isso, se exilou na França. Voltou poucas vezes à Alemanha. Deutschland. Ein Wintermärchen é fruto de um desses retornos, em 1843, quando o poeta tirou algumas semanas para visitar sua mãe e seu editor, Julius Campe. O tom é agridoce, como o de quem volta pra casa e subitamente se lembra dos motivos para deixá-la. 

Acabei não tendo tempo pra ler o livro todo ainda na Alemanha e só hoje consegui terminá-lo. Ler um pedaço lá outro cá acabou sendo uma experiência única. Provavelmente não era a intenção do poeta, mas, mais do que as críticas à situação política alemã (em pleno domínio da Prússia), sobreviveu a perspectiva única do "viajante na própria pátria", aquele que olha pra tudo com um misto de espanto e familiaridade, por ter passado tanto tempo fora, porém nunca esquecido a vida na terra natal.

Nunca passei mais de dois meses longe de casa, mas penso em fazer isso em breve. Por isso, mergulhar nas impressões desse viajante foi precioso pra mim. Ao comprar o livro, esperava uma dúzia de versos bonitos sobre as cidades alemãs. Encontrei, ao invés disso, passagens que me lembraram do conforto de ouvir a língua materna, rever lugares cheios de significados pessoais, reconhecer costumes e sentir-se em casa, apesar dos pesares. Todas essas sensações foram confirmadas quando cheguei em Fortaleza.

Heine cresceu como homem e como artista quando foi morar em Paris. Conheceu Karl Marx, ajudou a criar o formato atual dos cadernos de cultura e contribuiu para reaproximar a Alemanha e a França, em meio a uma rivalidade que se estendia há décadas. Ainda assim, não resistiu à vontade percorrer novamente a terra natal, mesmo durante os rigores do inverno. Ele explica em versos por quê:

Ansiei até pelos lugares,
Ich sehnte mich nach den Plätzen sogar,
Por cada estação,
Nach jenen Leidensstationen,
Onde carreguei a cruz da minha juventude
Wo ich geschleppt das Jugendkreuz
E a minha coroa de espinhos.
Und meine Dornenkronen.

Como eu disse, agridoce. Que nem a saudade de casa - também conhecida como banzo ou, na língua do poeta, Heimweh.

PS: Uma curiosidade sobre Heinrich Heine é que ele era muito admirado por escritores brasileiros como Machado de Assis, Raul Pompéia e Manuel Bandeira. Um poema dele serviu de inspiração para O Navio Negreiro, o mais famoso poema abolicinista de todos, escrito por Castro Alves.

PPS: Quem lê em alemão encontra Deutschland. Ein Wintermärchen pra baixar aqui.

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