segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Entrevista: janela da alma

Na época em que fiz o vestibular, eu não sabia que ser jornalista iria me proporcionar a realização de um desejo antigo: conhecer um pouco mais a fundo parte da multitude de vidas que me cerca. Bem mais que a busca pelas aspas ideais para inserir na matéria da vez, toda entrevista tem o potencial de revelar um ser humano, com sonhos, mágoas, histórias e opiniões. Hoje, tenho consciência de que é isso o que mais me atrai no fazer jornalístico.

A sensação de conquistar a confiança de um entrevistado a ponto de ele olhar nos seus olhos e relatar vivências que o marcaram ou confessar sentimentos que normalmente se escondem da superficialidade dos convívios sociais é simplesmente única. Não é só a adrenalina da declaração exclusiva ou a satisfação por estar fazendo um bom trabalho. É também um respeito profundo por aquele interlocutor, que lhe confia tantas coisas espontaneamente.

Nossa rotina é marcada pelos papéis sociais. Muitas vezes, somos reduzidos ao ofício que desempenhamos. É fácil esquecer que há uma vida em cada professor, advogado, catador de lixo, militante, pessoa com deficiência, cantor, milionário, policial, funcionário público, preso, escritor, estudante, trocador de ônibus. Acredito que somos aquilo que vivemos. E é incrível como uma entrevista pode, em meia hora, fazer emergir uma história de vida inteira.

Muitos teóricos já escreveram sobre o caráter dúbio da entrevista: não é um interrogatório, nem uma conversa entre amigos. Pra mim, é um contrato de respeito mútuo. É meu papel perguntar da maneira mais clara e completa possível e é papel do entrevistado buscar responder honestamente, mesmo ao se recusar a responder. 

Seria ingênuo achar que toda entrevista acontece em condições ideais. Seres humanos são imperfeitos e complicados. Existe o medo do repórter de ofender com uma pergunta ou de ferir a própria vaidade ao demonstrar desconhecimento. Existe o medo do entrevistado de trazer à luz certos fatos e experiências. Afinal, falar para outra pessoa sobre as próprias impressões dá a elas maior concretude - além disso, nunca se sabe a repercussão que uma confissão publicada pode ter. 

Por isso, acho que não existe entrevista definitiva, cada encontro desse tipo é como uma reação química muito complexa, envolve inúmeros elementos, sempre em dosagens distintas. Parte do meu fascínio por entrevistas vem daí: compartilhar um momento único na vida de alguém que, de outra forma, não cruzaria o meu caminho. Suas histórias viram parte da minha história. Elas persistem para além de nós, nos olhos de todos os que nos lêem, assistem ou ouvem.

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sábado, 17 de julho de 2010

Ol’ Frankie

Looking at Frankie, one can only wonder how old exactly he is. Even his hometown’s only centenary citizen, Sheila, has fewer wrinkles on her face. 

However, Frankie acts a lot younger than all the local teenagers. Whenever he’s in town, he rides his twenty-year-old Harley-Davidson and wears leather jackets under the merciless sun. A boy claims that he saw Frankie listening quite enthusiastically to an emocore album of questionable quality once, but Frankie swears over Ozzy Orboune’s grave that he’d never dare profane his own ears like that. It just won’t do to tell him that Ozzy Osbourne is very much alive – he’ll say that Ozzy is dead and that the fact that he’s now recording cover versions of The Beatles songs is a subtle indication that his agents found a substitute to keep cashing in after the original’s death, just like it happened to the late Paul McCartney a couple of decades ago.

Also, he got married at the age of fifty, when most men are begging with God to kill them at once, thus sparing them from their wives’ snores every night. Mrs. Frankie is a small, peroxide blonde who already shared the same roof with him years before he started saving money to buy his beloved motorcycle.

The fact that Frankie had decided to tie the knot after living half a century should have been enough to shock the entire city, if only it wasn’t too busy waiting on tenterhooks for Frankie’s wedding itself. In the invitations, the couple had asked the guests – who happened to be every single person in town at the moment – to attend the ceremony in their best bathing suits, and no one even frowned at that.

Frankie and his blonde got married in their swimming pool. Everyone noticed the blissful smile the priest wore throughout the rite, and the more malicious were sure it wasn’t because he was uniting two souls in love, but, rather, due to the fact that he wasn’t wearing much, aside from that grin and trunks. 

Frankie had worked as a mechanic and played the banjo in his free time for as long as everyone could remember. After his wedding, though, he opened a lucrative business in Vegas. Now he performs approximately forty-five swimming pool weddings per month. The couples can choose between having a Triton or a mermaid for celebrant.

Written in 2006.

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domingo, 11 de julho de 2010

Mariana Kuroyama desenhando linhas

Mariana e algumas de suas criações. (Mariana Kuroyama)

Já tinham me dito que você quase nem sente a agulha na pele, quando é a Mariana Kuroyama quem está te tatuando. Ela mesma diz que tem a mão leve, mas acho que é mais que isso: a leveza é seu jeito de ser.

Mariana é jornalista por formação, mas largou a vida de leads pra fazer arte. Cria tatuagens, roupas, pinturas, ilustrações e é fascinada pela natureza. Coloca em prática todo dia um pouco do tema da sua monografia, a permacultura.

Por e-mail, conversamos sobre esses temas e sobre a vida nas cidades onde ela mora ou já morou.

Pra começar, a pergunta de praxe: como você começou a tatuar e o que te atraiu nesse tipo de expressão artística?
Mariana Kuroyama: Então, fiz um trabalho sobre a tatuagem, a pichação e o graffite durante o período de faculdade. Ainda não tinha me tatuado, mas achava lindo. Estudei a fundo e quebrei certos paradigmas. Entendi  que a tatuagem não é uma expressão marginal, e sim uma arte, uma representação, um ritual de passagem em sociedades milenares, como a celta ou a japonesa. Isso me atraiu ainda mais. Anos depois fiz a minha primeira tattoo com o Dereka, ele já conhecia meu trabalho através de pinturas em roupas. Alguns amigos já tinham me dito para eu fazer desenhos de tattoos para eles. Uni uma coisa a outra e pedi pr'o Dereka me ensinar. Ele é um verdadeiro mestre, não só na arte da tatuagem, como sobre as coisas espirituais da vida. Ele e também o Júnior Animal.  Eles são geniais. Fiquei dois anos no studio do Dereka, o Freedom of Tattoo, onde conheci outros tatuadores muito bacanas, pessoas do bem que amam arte. A tattoo pra mim é uma forma de arte mais profunda... As pessoas geralmente pensam "ah, mas isso vai ficar pra vida inteira..." Ora, mas e a gente não morre? Morre o corpo... E a alma segue adiante. De qualquer forma, ter ou não uma tattoo é uma escolha muito pessoal que deve ser respeitada. 

Você mesma tem algumas tattoos. Qual a história delas?
Mariana: O bracelete vermelho está localizado na articulação da intenção (de acordo com a matemática do calendário da paz) e é composto por corações. Representa minha intenção de amar incondicionalmente a vida, as pessoas, o próprio amor. Foi feita pelo Dereka. Os corações dos pés fazem parte de uma história antiga, já tinha o desenho guardado antes de aprender a tatuar. O passarinho, também no pé, fiz aproveitando uma flor que tinha no tornozelo. Estas duas fiz eu mesma, pra poder sentir como é fazer a tattoo em si mesmo. A da perna é um crop circle, foi feita pelo Tinico (Rosa) e representa minha crença na vida inteligente, no amor e na arte também em outros planetas. 

Além de tatuagens, você também faz ilustrações e roupas. De que forma todas essas coisas estão relacionadas na sua vida?
Mariana: Vixe... Um amigo me emprestou um livro uma vez, que falava sobre a arte islâmica. Lá eles detalhavam como os artesãos trabalham com esmero em diferentes superfícies. Da maior mesquita à menor caixinha, tudo é repleto de uma arte meticulosa. Olhei para isso e pensei, "posso desenhar em qualquer superfície." Na verdade, eu sempre desenhei, ilustrei papéis, provas, cadernos de colégio, etc. As roupas e as tattoos foram consequencia disso. As roupas aconteceram meio sem querer, me inscrevi no Projeto Palco por sugestão de um amigo e ganhei o concurso de novos talentos. Depois começei a pensar em uma moda mais original, atemporal, feita por encomenda e exclusiva. As tattoos, tu já sabes.

Você escolheu estudar, na faculdade, não algo relacionado diretamente à arte, mas a modos de vida: a permacultura. De que forma esse tema está presente na sua rotina?
Mariana: Então... A Permacultura está além de uma filosofia, é uma prática que engloba várias outras como a agrofloresta, reciclagem, compostagem, bioconstrução... Xi, vai longe. É uma quebra de paradigma, da competição para a cooperação (do homem para com o meio). E representa, pra mim, o uso da inteligência humana em busca de uma harmonia ideal. Morando no meio urbano, faço o que posso, em casa tenho uma minhocasa que composta o lixo orgânico produzido, e esse composto vai para as plantas. Planto alguns temperos. Me locomovo de bicicleta e transporte público. Só compro para mim aquilo que estou realmente precisando, não fico consumindo por consumir. E uso o meu trabalho para fazer o link entre pessoas que trabalham com isso. Em São Paulo doei, junto com uma amiga, uma pintura para um centro de permacultura urbana, a Casa Jaya. Acho fundamental atrelar a arte a estas causas. Outras coisas me afligem, coisas que não posso mudar sozinha, como o sistema de saneamento, por exemplo. Até quando vamos jogar dejetos no mar? Precisamos de uma mudança na criação da construção civil. Precisamos de muitas mudanças, já! E precisamos fazer isso juntos.

É possível levar uma vida sustentável, quando se vive em grandes cidades?
Mariana: Olha... Acho que as grandes cidades são como feridas na Terra. E precisam de agentes de cura dentro delas. Acho que é possível fazer por onde, tem que estar alerta, consciente. Estamos todos num mesmo barco, procurando crescer e aprender e muitas pessoas pensam nisso, outras agem, outras nem prestam atenção... Acham que é só marketing. Como eu disse na pergunta anterior, precisamos de muitas mudanças, e precisamos fazer isso juntos. 

Por falar em grandes cidades, você já morou em Brasília, Fortaleza e está atualmente em São Paulo. De que maneira cada um desses lugares fez de você quem você é hoje? 
Mariana: Em Brasília eu tinha muito contato com a natureza, muito mesmo, amaaaaava ficar nas cachoeiras, nas florestas que meus pais me levavam, e também em frente ao meu prédio, era uma mini floresta. Isso é a minha lembrança mais nítida de amar a vida. Sempre vinha pra cá de férias, então também sentia a ligação forte com o mar. Morei no Rio também, quando era criança, e lá a natureza também era exuberante. Aqui foi onde passei mais tempo e nossa... aprendi bastante aqui com relação ao que eu quero ou não pra mim. E conheci pessoas maravilhosas que serão sempre minha família, e aprendi muito sobre tolerância, paciência, calma, amor ao próximo. São Paulo é outro ritmo, ainda está em fase de teste, hehehe, mas devo dizer que amo estar lá. Sem muitas explicações, vou vivendo, de acordo com o coração.

Qual delas você considera sua cidade natal?
Mariana: Nenhuma delas e todas, como eu disse pro orkut: minha cidade natal é a Terra.

Você se vê morando em um lugar pra sempre? Por quê?
Mariana: Sim, porque acho que precisamos de uma base, mas posso estar errada. Viajar é preciso, afinal. 

Veja aos trabalhos dela no flickr. Mariana também está no twitter: @kuroyamaSun.

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cartografia

Quero te pegar pela mão e te levar pra conhecer a cidade: inteira, linda e cheia de memórias – mas espera, isso é a cidade ou é você? Não, eu sei que você também nasceu aqui, não estou falando de visitar pontos turísticos, podemos pular essa parte mais burocrática. Vamos às lembranças. Vou te contar como descobri essa vista e memorizar o jeito como o sol se aninha no seu sorriso, nessa tarde em que todas as pessoas correm por suas vidas e nós nos damos ao luxo de viver. Depois tomamos sorvete à sombra dos prédios, e o sabor vai ser o nosso por uns tempos. Você tenta me contar tudo o que já viu passar daqui, desse mesmo banco de praça, mas um cara perguntando as horas com um cacoete estranho interrompe a história e vira nossa primeira piada interna. Se bem que o dia todo foi uma piada interna: só eu e você, que o vivemos, podemos entender por que não paro de sorrir, na solidão de um ônibus quase vazio.

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Kerouac e o que vale a pena

Neal Cassidy e Jack Kerouac, Dean Moriarty e Sal Paradise. (Divulgação)

 

Existem momentos perfeitos pra gente ouvir uma banda, ver um filme, acompanhar um seriado, ler um livro. É como se nossas vidas entrassem em sincronia com aquela obra de arte específica e ela pudesse ser compreendida de um modo único, impossível de replicar alguns anos atrás ou adiante. A vida se entrelaça à criação.

 
Há uma semana, eu vasculhava o armário de livros dos meus pais, à procura de bibliografia para o mestrado: Durkheim, Weber, os clássicos que eles viram na graduação e já devem ter esquecido - pragmatismo cotidiano comendo as teorias da juventude em suas cabeças. Gosto de chafurdar na poeira desse armário, ver o que eles liam quando tinham a minha idade, no que somos ou éramos parecidos. Entre um Vargas Llosa que já li e um manual intitulado A auto-estima do seu filho, Jack Kerouac acenou pra mim, com seu grande clássico On the Road, numa edição de 1984, assinada possessivamente pelo meu pai e situada no espaço e no tempo pelos rabiscos "Natal, 30/04/84". Meus pais se casaram no final daquele ano e vieram morar em outra cidade. Não deixava de ser um chamado da estrada.
 
Sempre tive uma vaga curiosidade pra ler esse livro, mas nunca foi o suficiente pra comprá-lo, ao esbarrar com ele em alguma livraria. Algo naquela tarde modorrenta de terça-feira me fez esquecer as leituras acadêmicas e mergulhar finalmente nas viagens do maior dos beatniks. E o momento não poderia ser melhor. On the Road ecoa meu presente e meu futuro como nenhuma outra obra que caiu nas minhas mãos este ano. Cada linha repercute conversas, reflexões, sonhos, planos. Como quando Jack coloca em palavras meus próximos anos, os próximos anos de tantas gerações de jovens nessa cidade: "(...) pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal". Impossível não fechar os olhos e adivinhar as vidas dos mais queridos, seus planos virando realidade aqui ou em outro lugar e os reencontros ocasionais, migratórios.
 
Num ano em que crescer significa emprego, responsabilidades de profissional, projetos independentes e escolhas de prioridades, On the Road parece dizer que a vida não acabou, essas são novas aventuras e um mundo de possibilidades e liberdade está só começando. No livro, viajar é apenas uma etapa extremamente enriquecedora do ciclo de cansaço e renovação que é cair na estrada e esquecer que se tem uma casa pra onde voltar, até que o caminho de volta se torne a direção mais natural outra vez. 
 
Está tudo lá: o salto no escuro que é se lançar rumo a uma cidade desconhecida, a familiaridade que vem com o contato com as pessoas que moram ali, a saturação que leva a partir e começar o ciclo todo de novo. Jack também estabelece o equilíbrio entre viajar sozinho, absorvendo tudo e todos que encontramos nos acasos da estrada, e cumprir a jornada na companhia de um velho amigo. Ver Sal ver o mundo pelos olhos do seu amigo desvairado Dean é uma das sacadas mais brilhantes do livro. Fico pensando nas poucas pessoas que poderiam ser "meus Deans", tenho bem fixados os rostos desse punhado de malucos adoráveis, que achariam perfeitamente lógico esse tipo de aventura, encarada com desconfiança por 90% dos que nos cercam. Os lugares que poderíamos descobrir juntos, as histórias que teríamos pra contar...
 
A solidão de um vagabundo nas highways americanas do fim dos anos 1940 e começo dos 1950 parece falar de um tempo de inocência inimaginável nos EUA das séries de serial killers e dos horrores impronunciáveis. Jack capturou o espírito de sua época e, como certas passagens do livro explicitam, tinha plena consciência disso. Incríveis são as descrições dos shows de jazz em inferninhos do oeste, em que a música pulsa nas letras impressas e soa tão forte na imaginação que quase se pode ouvi-la. Diante de notas tão transcendentais ou das paisagens sublimes vistas de relance, tudo ganha outra dimensão. Diante do que se pode viver, pra que perder tempo, se preocupando com mesquinharias? É o que Dean parece resumir, descrevendo para Sal um grupo com quem eles pegaram carona:
 
"Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos e puramente angustiados e angustiantes, suas mentes jamais descansam, não encontram paz, a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim."
 
Amigos, a vida é tão mais que isso. Caiam nas estradas dos seus corações.

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domingo, 2 de maio de 2010

Auf Deutsch

Nächste Station: Westener Dorfstrasse, wo mein zweites Heim liegt. (Débora Medeiros)
 
Ich weiss, nicht so viele Leute werden dieser Text verstehen, aber es war unmöglich, die gleiche Wörter auf eine andere Sprache zu schreiben. 
 
Jede Sprache ist, für mich, eizigartig. Wenn ich auf Englisch schreibe, alles klingt so entfernt, als ob die Erfahrungen und Gefühle nicht zu mir gehörten (das ist aber etwa therapeutisch). Auf Portugiesisch ist es das Gegenteil: alles klignt zu persönlich, sogar wenn es nicht über mich ist.
 
Portugiesisch ist meine Muttersprache und die Muttersprache meiner Leser. Deshalb verstehen wir uns so gut – zu gut, vielleicht. Wenn ich ein Text auf Portugiesisch veröffentliche, fühle ich mich fast nackt – jeder kann zwischen den Zeilen lesen, denke ich. Na klar, es lohnt sich: manchmal finde ich andere Leute, die genau wie ich fühlen, und entdecke ich neue Freunde.
 
Englisch ist die Sprache meiner Jugend. Durch das Lernen von Englisch habe ich eine neue, grosse Welt erfahren. Damals hatte das Internet keine Grenze: ich konnte verschiedene Kenntnisse bekommen und Leute auf der ganzen Welt kennenlernen. Ich fühlte mich, als ob ich ein Teil einer weltweiten Gesellschaft wäre. Und die einzige gemeinsam wir alle hatten war die englische Sprache.
 
Deutsch ist aber Freiheit. Es ist eine ehrliche Sprache, weil es aus eine ehrliche Kultur kommt. Deswegen kann ich auch ehrlich sein und über meine Gedanken und Gefühle schreiben – ohne Druck, ohne Angst.
 
Wahrscheinlich hat dieser Text viele, viele Fehler. Ich lerne noch. Die wichtigste ist, dass ich noch schreiben kann. Ohne Übung, jeder Tag verliere ich mein Deutsch ein bisschen mehr: ich vergesse Wörter, die ich schon kenne, und auch die kleine Erinnerungen diese Wörter tragen.
 
Jedes deutsche Wort erinnernt mich an meine Zeit in Deutschland – und an Schnee, fremde Strassen, einfache Freundschaften, Entdeckungen, Zuverlässigkeit, Geschichte und Unabhängigkeit. Entweder ich künftig zurück nach Deutschland gehe oder nicht, immer wenn ich auf Deutsch schreibe, werde ich diese Gefühle wieder erleben. Für ein paar Minuten bin ich noch einmal in Düsseldorf, die Stadt, die mein anderes Leben hält, das zweite Heim meiner Jugend. Das ist ein Teil von mir, das ich nie verlieren will.

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Bençãos

Numa noite chuvosa de quinta-feira, dois poetas da vida confirmam o que eu já suspeitava:

Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais

Não tome cuidado
Não tome cuidado comigo:
o canto foi aprovado
e Deus é seu amigo
Não tome cuidado
Não tome cuidado comigo,
que eu não sou perigoso:
- Viver é que é o grande perigo

May God bless and keep you always,
May your wishes all come true,
May you always do for others
And let others do for you

May you build a ladder to the stars
And climb on every rung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

May you grow up to be righteous,
May you grow up to be true,
May you always know the truth
And see the lights surrounding you

May you always be courageous,
Stand upright and be strong,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

May your hands always be busy,
May your feet always be swift,
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift

May your heart always be joyful,
May your song always be sung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

Belchior e Bob Dylan não podem estar errados. É por essas e por outras que quero ver o mundo sempre com olhos jovens. Guio as escolhas presentes, pensando nesse futuro.

May I stay forever young?

Antes Do Fim by Belchior  
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Belchior - Antes do Fim.mp3 (1351 KB)

Forever Young by Bob Dylan  
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Bob Dylan - Forever Young.mp3 (2674 KB)

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sábado, 17 de abril de 2010

Há que mudar, mas sem perder a essência jamais

Essas escadas meio art déco são um dos meus lugares favoritos na Rádio Universitária. (Divulgação)

A Rádio Universitária entrou no ar no dia 15 de outubro de 1981, depois de um mês de testes e pelo menos dois anos de articulações políticas – um jeito bonito de dizer que foi preciso muito jogo de cintura pra colocar no ar, em plena ditadura, uma emissora com coragem de abrir o microfone para vozes da esquerda, movimentos sociais, sindicatos, acadêmicos, artistas e estudantes.

Transmitindo direto da Reitoria de uma universidade federal – embora, por essas coisas da vida e das legislações em tempos autoritários, pertença formalmente à Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC), entidade privada – ela fez dos saberes de professores e estudantes sua matéria prima, arrebanhando colaboradores e transformando bolsistas em profissionais. De tão apaixonados, estes últimos viraram funcionários e trabalham lá até hoje, cada um dono de uma história pessoal rica, inevitavelmente entrelaçada à da emissora que os acolheu na juventude.

Vindos de uma geração que fez questão de combater o regime militar, em passeatas, ocupações, apurações jornalísticas e seleções musicais, eles lutaram outras tantas batalhas para manter a Rádio aberta por 28 anos, em breve 30. A primeira foi quando o reitor José Anchieta Esmeraldo Barreto, que tomou posse em 1983, decidiu fechar o setor de jornalismo da emissora. Muitos funcionários foram transferidos para outros setores da UFC, onde não se sentiriam em casa e, assim, não poderiam desafiar ninguém. Outros permaneceram na Universitária FM, com aquela sensação incômoda de que algo estava faltando. Mas foi só Anchieta deixar o poder, substituído pelo professor Hélio Leite, que eles não demoraram a assumir as antigas funções e retomar a liberdade de expressão roubada, agora em uma casa nova – aquela que a maioria de nós conhecemos, na avenida da Universidade, 2910.

Depois, veio o governo Collor, que, entre os funcionários da Rádio Universitária, não é lembrado “apenas” pelo confisco das cadernetas de poupança e pelo impeachment. Foi também enquanto o alagoano estava no poder que foi extinto o Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa (Sinred), o que acarretou o fechamento de emissoras universitárias em todo o país. Para que o mesmo não acontecesse com a nossa, bolsistas, funcionários, colaboradores e admiradores foram às ruas e organizaram atos para que a Rádio Universitária continuasse de portas abertas.

Já em 2006, pleno governo Lula, um susto: os jeitinhos usados para driblar a ditadura acabaram cobrando seu preço. A Rádio Universitária foi considerada irregular pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e fechou as portas por alguns meses. A situação foi contornada logo, quando o status que a emissora já exercia antes, o de abrigo para diversos projetos de extensão da UFC, foi formalizado. Surgiu o Nuproex (Núcleo de Divulgação em Radiodifusão de Programas em Extensão da Universidade Federal do Ceará), mas, enquanto isso não acontecia, os funcionários não cruzaram os braços e organizaram seminários, reuniões, oficinas – a única maneira que encontraram de manter a Rádio na pauta dos assuntos do dia.

É claro que, nos intervalos entre uma turbulência e outra, muita coisa boa aconteceu: programas inovadores foram criados, novos bolsistas ingressaram na Rádio, prêmios foram conquistados, parcerias nasceram, ouvintes foram cativados. E muita coisa boa continua a acontecer agora, neste período de águas mais tranquilas. É por isso que a Rádio Universitária fascina: graças às paixões e projetos que a movem, está em constante ebulição, mas não perde a sua essência.

Texto publicado publicado originalmente no blog do Jornal Jabá, como parte da cobertura do aniversário de 28 anos da Rádio Universitária.

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terça-feira, 13 de abril de 2010

Fortaleza Lado B

Às vezes esqueço que essa cidade tem praia. O Yuri Leonardo, que tirou essa foto, é quem mais me lembra disso.

Nem peguei direito esse tempo, mas ainda lembro que os LPs, especialmente os singles, muitas vezes sofriam de múltipla personalidade: de um lado, os sucessos comerciais que tocavam na novela e nas rádios; do outro, faixas mais experimentais, viajantes, inovadoras. Duas faces do mesmo artista. Hoje, que Fortaleza completa 284 anos, acho que não há melhor metáfora pra expressar exatamente o que me faz amar essa cidade. Só que, ao invés de um lado B apenas, acho que vivemos muito mais nuances. Se duvidar Fortaleza tem até lado Z.

O lado A é o mais visível. Está nos outdoors, que anunciam as mesmas festas caras, com as mesmíssimas atrações - a única coisa que muda é a data. Está também nas Hilux com adesivos de "sou chicleteiro", nos shopping centers assépticos, nos paredões de som, nas cercas elétricas, nos muros altos e no vestuário-anúncio, onde a marca da roupa chama mais a atenção do que quem a veste. Essa é a Fortaleza que não me atrai - provinciana ainda que viva nas pontes aéreas, homogênea em sua meia dúzia de sobrenomes conhecidos. Para o lado A, só ele existe. O que está fora dessa esfera é, no máximo, motivo pra querer ir embora.

O caos das outras Fortalezas é o que cativa de verdade. Nem tudo é lindo, nada é perfeito, mas é exatamente isso o que atiça os espíritos aventureiros a abraçar a cidade como sua, criticando-a, mas também agindo. É a Fortaleza dos movimentos pela democratização da comunicação, contra a homofobia, em defesa dos direitos humanos, pelos direitos das pessoas com deficiência, de combate à prostituição infantil; a Fortaleza da bicicletada, do transporte coletivo, da preservação do meio ambiente, dos patrimônios históricos, dos passeios no Centro; a Fortaleza dos poetas, dos pintores, dos malabaristas, dos grafiteiros, dos fotógrafos, dos atores, dos contistas, dos zineiros, dos músicos, dos performers, dos boêmios e dos estudantes. É a Fortaleza de quem ousa, de peito aberto.

É nessa Fortaleza que eu gosto de morar, descobrindo e redescobrindo gente que vale a pena a cada passo. Não acho que me enquadro totalmente em nenhum desses grupos, mas o todo me acolhe e me encanta. Essa diversidade faz com que eu me sinta em casa e alimenta a vontade de fazer minha pequena parte pra que a cidade esteja ainda mais bonita aos 285 anos.

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Pedro Bandeira: imaginação é tecnologia de ponta

O doce Pedro Bandeira e seu bigode, indissociáveis no imaginário dos fãs. (Divulgação)

Dez entre dez jovens adultos que hoje lêem por gosto têm Pedro Bandeira entre suas memórias de infância. Quem nunca quis ser um dos Karas? Quem nunca torceu pra Isabel ficar com o Fernando, em A Marca de uma Lágrima? Quem nunca se divertiu com as sátiras bem humoradas de O Fantástico Mistério de Feiurinha?

Tive a oportunidade de conhecer Pedro Bandeira há muitos anos, em uma Bienal Internacional do Livro, aqui em Fortaleza. Ele autografou meu exemplar de A Marca de uma Lágrima e prometeu ler alguns dos meus primeiros contos, que lhe entreguei encadernados junto com uma cartinha. Pra vocês terem ideia do tempo que faz, a foto que tirei com ele ainda foi na minha velha câmera analógica! Mas Pedro já era moderno naquele tempo e, algumas semanas mais tarde, me surpreendeu com um e-mail carinhoso, dando sua opinião sobre os contos.

Pedro Bandeira volta à cidade neste ano para duas palestras no dia 17 de abril, na Bienal Internacional do Livro. Aproveitei a oportunidade para, por e-mail, puxar conversa com o escritor sobre os seus tempos de jornalista, o 6o livro dos Karas e as novas tecnologias.

Antes de se dedicar à literatura, você trabalhou com teatro e como jornalista. O que você levou dessas experiências para a sua atividade como escritor?
Pedro Bandeira: Sempre trabalhei produzindo textos, desde a adolescência. E isso, é claro, preparou-me para escrever qualquer coisa, não é? Quanto ao teatro... Não sei. Desde muito pequeno fui ator e só abandonei o profissionalismo pelo fato de esta profissão pagar muito mal. Mas, ainda hoje, volto a ser ator toda vez que dou conferências em palcos com plateias de até mais de mil professores.
 
Qual foi a matéria que você mais gostou de fazer, nos seus tempos de Última Hora?
Pedro: Isso foi há muito tempo. De lá saí por causa do golpe militar. Era um jovem jornalista, estudante de Ciências Sociais e ator profissional à noite. Como jovem repórter, não me lembro de ter feito qualquer matéria memorável. Logo em seguida, trabalhei em revistas de engenharia (sem entender nada do que fazia) e em uma editora de livros, esta sim uma experiência rica, onde pude fazer um jornal político chamado Jornal da Senzala, entrevistando grandes brasileiros como Plínio Marcos, Caio Prado Júnior e muitos outros. Foi nessa editora que, como editor-chefe e para meu orgulho, publiquei pela primeira vez livros de Marcos Rey e de Plínio Marcos.
 
Quando você percebeu que tinha vocação para escrever livros para o público infanto-juvenil?
Pedro: Pretendo perceber isto na semana que vem.
 
A Droga da Obediência, primeiro livro da série dos Karas, é de 1984. Desde então, a realidade dos jovens mudou bastante, mas os livros continuam fazendo sucesso, geração após geração. A que você atribui essa permanência? 
Pedro: A realidade mudou? Progresso? Tecnologia? Violência? Drogas? Isso não interessa à minha Literatura. Nela eu trato das emoções humanas, e isso não muda nunca! Com Internet, com celulares, ou iPods, os adolescentes continuarão sentindo medo, esperança, paixão, raiva, ciúme, terão dúvidas, como sempre e para sempre.
 
Você já mencionou, em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, que estava reescrevendo a 6a aventura dos Karas, porque percebeu que a primeira versão já estava desatualizada antes mesmo de ser publicada. A Internet e os avanços tecnológicos, tão presentes no cotidiano da juventude de hoje, dificultam escrever para ela?
Pedro: Está difícil, muito difícil. Meus personagens “vivem” numa época antes do computador pessoal, do celular, da Internet, dos e-mails. Certa vez redigi uma história que se baseava em tecnologia, e que iria chamar-se A droga virtual. Mas, antes de o livro ser impresso, ele  já tinha engolido pelo progresso das tecnologias. Assim, este livro foi para o lixo e de lá jamais sairá.
 
Como o autor deve lidar com esses elementos? É possível incluí-los na trama, sem que ela fique datada?
Pedro: No meu caso (não posso falar pelos outros), eu evito que as histórias tenham base em tecnologias, para que meu livro não fique datado. Veja você o caso dos grandes autores de ficção científica do século XX – praticamente todos os seus livros não fazem mais sentido; nenhum deles (nem Clarke, nem Asimov) foi sequer capaz de prever o computador pessoal (todos achavam que os computadores se tornariam monstros enormes, pois ninguém antecipou a invenção do ship), nem a Internet, nem o Google, nem sequer o celular! Por isso, é capaz de meus livros durarem bastante. Alguns até já se tornaram clássicos.
 
Você já mencionou em entrevistas que checa sempre seus e-mails e procura responder a todas as mensagens dos fãs. Já pensou em ampliar esse contato com os internautas em um blog, como fez José Saramago, por exemplo?
Pedro: Estamos na iminência da criação de um site especial, com tudo que isso tem direito. Será lançado em poucos meses.
 
E, já que falamos da 6a aventura dos Karas, antecipo aqui uma pergunta que com certeza vai ser feita durante a Bienal: já há uma data de lançamento definida para o livro?
Pedro: Como antecipar datas de um livro que ainda nem sei como será?

Pedro Bandeira estará na IX Bienal Internacional do Livro do Ceará em dois eventos, ambos no dia 17 de abril:
Encontro com o Escritor, das 16h30 às 17h45, no Salão O Quinze (Auditório Principal – Bloco D), com mediação do esritor Raymundo Netto.

Conversa com Pedro Bandeira (Brasil/SP), das 15h às 16h, na Arena Infantil O Menino Mágico (Bloco F Superior).

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domingo, 4 de abril de 2010

Creio, logo existo

No meio das ruas medievais de Colônia, as esculturas são centenárias e o Espírito Santo é um grafite. (Débora Medeiros)

A primeira missa que assisti em Düsseldorf foi na Igreja St. Maria Rosenkranz, que ficava no bairro onde estava morando. Lembro que a cerimônia já havia começado quando cheguei e, pela maneira como algumas pessoas me olharam disfarçadamente, eu era a única desconhecida naquela comunidade. O interior da igreja era austero, o altar era simples, com uma cruz pequena suspensa por fios - como é comum em muitas igrejas católicas alemãs -, e as paredes altas estavam pintadas de azul claro e outros tons pastel.

Na pressa para compensar meu atraso, me esqueci de pegar o livro de cânticos à porta e, no começo, fiquei um pouco perdida. Mas, à medida que fui compreendendo e reconhecendo a I Leitura, o Evangelho e a Oração Eucarística, senti-me novamente em casa. Por não saber as palavras exatas em alemão, respondia tudo baixinho, em português. Pode ter sido a saudade de casa, o Espírito Santo, o dia que tinha sido particularmente bom, tudo isso junto ou nada disso, mas, no momento em que recebi a Comunhão, chorei pela primeira vez desde que tinha chegado à Alemanha, há mais de um mês, e chorei de alegria. Foi uma sensação que seria inútil tentar explicar.

Conheci muitas igrejas em todas as viagens que já fiz, mas, desde aquele dia, entrar em uma só faz sentido, para mim, se estiver havendo uma celebração. Depois de 21 anos de catolicismo praticante e convicto - não, não é mamãe que me obriga ir à igreja todo sábado :P -, entendi o grau de importância do ritual.

Os três parágrafos acima são extremamente pessoais e pensei bastante antes de escrevê-los e postá-los aqui. Mas, como já deu pra perceber, a Páscoa é mais que um feriadão pra mim e queria marcá-la de alguma forma no blog. Então, se você for uma daquelas pessoas que caem na balela de que religião não se discute, estou te oferecendo a chance de parar de ler aqui porque, sim, esse é um post sobre religião.

Pros que continuaram, digo que fé e ciência, para mim, caminham juntas. Sempre me interessei pelo assunto e sempre gostei de conversar sobre ele, exceto com interlocutores fundamentalistas - sejam eles religiosos ou ateus; fundamentalismo é irritante e nada construtivo. Penso seriamente em estudar Teologia no futuro ou trabalhar com isso academicamente, quem sabe. Quanto mais aprendo, mais creio. 

O que me fascina é o fato de toda religião dialogar com os contextos político e histórico em que está inserida. Terminei hoje de ler o Dicionário das Religiões, de Mircea Eliade e Ioan Peter Couliano, e é impressionante como se estabelece um padrão entre religiões aparentemente tão díspares quanto o Judaísmo e o Xintoísmo, por exemplo. Retire o contexto em que estão inseridas e o que resta? Um monte de narrativas desconexas, que nem de longe teriam a força de gerar guerras, poemas, movimentos sociais, leis e códigos de conduta.

É particularmente interessante pensar em como esses mesmos contextos influenciaram a maneira como as religiões foram talhadas até a forma como as conhecemos hoje. Bastava uma corrente minoritária como a de Marcião de Sinope ter triunfado, para o Cristianismo ser completamente diferente na atualidade. Simplesmente, a Bíblia não teria o Velho Testamento inteiro, que eu considero a parte mais controversa e conservadora dos escritos que fundamentam a fé cristã. E este é só um de muitos e muitos casos. Cada concílio é uma história. E cada concílio é uma reação às mudanças do mundo onde o Vaticano está inserido, é quando os bispos se sentam pra pensar como agir diante da pressão social das novidades.

Como isso fortalece a minha fé? Saber que as religiões dialogam com a História me faz ter esperanças de que, um dia, elas estarão em maior harmonia com a sociedade. Isso torna plausível pensar que, quem sabe, eu ainda verei a Igreja Católica mais aberta quanto às questões inevitáveis sobre sexualidade, por exemplo. Já pensou quando o celibato dos padres for abolido? Há teorias de que ele só surgiu para evitar que os bens da Igreja se dispersassem entre herdeiros leigos mesmo... 

Aposto que ainda assisto a uma missa celebrada por uma mulher, que ainda verei uma pastoral da minha paróquia incentivando o uso da camisinha como método contraceptivo, que casais homossexuais poderão ir à missa de mãos dadas, se quiserem. Parece irreal? Bom, não faz muitos anos que a Igreja não aceitava o divórcio. Hoje, já vi paróquias que acolhem de braços abertos casais em segunda união. Pode demorar, mas boto fé que as mudanças virão. E esse é o meu jeito de desejar muitas felizes Páscoas para todos nós no futuro.

PS: Sei que esse é um pensamento tipicamente cristão, depositar as esperanças no que há de vir. Mas, se você ainda não percebeu, adoro pensar de maneira cristã, beijos.

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domingo, 28 de março de 2010

A juventude é uma arma quente

Foto: Perto do gabinete do reitor, uma vista da Reitoria que eu nunca tinha enxergado antes. Essa UFC ainda tem muito o que revelar... (Débora Medeiros)

Esqueci o relógio em casa no dia da minha colação de grau - 25 de março de 2010. Estava com a cabeça em outro lugar, acho, curtindo aquela sensação que a gente só tem no próprio aniversário: é um dia comum pro resto do mundo, mas, pra nós, quer gostemos ou não de festa, a rotina parece reluzir misteriosamente. Fecha-se um ciclo.

Sentia isso também, quando peguei o ônibus de sempre, rumo à Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Colação de grau especial é assim: no resto da Academia, a vida continua, ninguém vai encher a Concha Acústica, poucos vão assistir ou mesmo saber. Mas, no gabinete do reitor, havia 24 corações em festa. 

Meu único convidado na cerimônia foi o professor Riverson Rios. Esperamos sentados na antesala do gabinete, falando da vida, dos respectivos passados e do futuro. Atencioso como só quem é docente por vocação consegue ser, ele me lembrou até o último minuto por que me sinto em casa no curso de Comunicação Social. E como quero voltar pra lá um dia.

Em pouco mais de uma hora, estava tudo feito: a ata fora assinada, o juramento repetido em uníssono, reitor, pró-reitor de graduação, professores e recém-formados discursaram. E pronto, virei jornalista. Deixei de ser café-com-leite. Não se trata mais de definir que cadeiras fazer, se permaneço ou não no estágio atual, onde almoçar. O ano se estende, enigmático, diante de mim, uma transição de 12 meses entre o fim da monografia e, querendo Deus, o início do mestrado. Onde trabalhar? Como conciliar com outros projetos, outras paixões? E, depois de 2010, a vida, não sei até quando, se estende na imprevisibilidade de uma só pergunta: vou voltar à UFC um dia? Terei a persistência, a paciência, a sorte para retornar como professora? Por mais que eu ame o jornalismo e queira vivenciá-lo por muitos anos, tenho a certeza de que, fatalmente, só me sentirei completa quando estiver ensinando no lugar onde aprendi tanto sobre a vida adulta.

Porém, mais uma vez, a rotina só reluzia, sem de fato mudar. O sol do Benfica era o mesmo, o sorriso das pessoas conhecidas, os abraços - de parabéns ou de olá. A Castelinho, ali na esquina, continuou sendo o ponto de convergência dos afetos. Gente que eu não via há semanas ou com quem falo todos os dias se sentou à mesma mesa, para montar o Canhotos, fanzine coletivo que começamos no primeiro semestre. Conversas, confissões, brincadeiras e muito amor se embaralhavam na miríade de pedaços de papel pela enésima vez.

E o fato de não haver uma ruptura, de tudo ser feito de mudanças tão sutis, confirma minhas suspeitas de que não há regras ou figurino fixos pra vida adulta. Os planos malucos não precisam acabar, não preciso me resignar a trabalhar com o que não gosto e cresci o suficiente pra equilibrar felicidade e responsabilidades.

Na verdade, a sensação é de que o melhor vai começar agora, que a diversão vai é ficar mais consciente. E aí, o que fazer? Transformar a cidade no meu playground ou explorar outras paragens? O futuro é um mistério e nada é tão libertador quanto um caminho cheio de bifurcações. E, se pra John e Belquior, "a felicidade é uma arma quente", cresce a certeza de que a minha juventude também é.

No fim do dia, atravessei a rua pra pegar o ônibus com Bruno Reis. Os carros passavam furiosos ao nosso redor, a lua já ia alta no céu. A noite tinha sido um flashback caleidoscópico não só pra mim. É o Bruno, com aquela leveza sutil que sempre amei ao longo dos anos, quem observa: "Nem parece que o tempo passou, né?" É, nem parece.

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quinta-feira, 25 de março de 2010

Passeios pelas Cidades Internas - parte 2

Foto: Ramon Cavalcante e Fernanda Meireles, com o desenho de uma das plaquinhas da coleção Cidades Internas. (Divulgação)

A arte de Ramon Cavalcante tem como matéria prima suas andanças pela cidade. Fazendo jornalismo, com o grupo TR.E.M.A., ele já lançou o livro Cadeiras com Rodas, com relatos do cotidiano noturno dos terminais de ônibus fortalezenses, e o documentário O Conto Torto do Olho. Também já fez fanzine, quadrinhos, estudou Artes Plásticas no então CEFET-CE. 

Pra ele, tudo passa por Fortaleza, a cidade onde nasceu, se criou e vai criando obras bonitas pra fazer pensar, como as plaquinhas de PVC da coleção Cidades Internas, fruto da parceria com a arte-educadora e fanzineira Fernanda Meireles (leia a entrevista com ela aqui).

Em entrevista por e-mail, mas que também dava uma boa conversa presencial, Ramon fala sobre a vida na cidade, a proposta da coleção Cidades Internas e seus próximos planos.

Você faz parte do TREMA, grupo que já publicou até livro através de edital. De que forma essa experiência com a Fernanda se aproxima do trabalho que você fazia com os meninos e no que ela é diferente?

Ramon Cavalcante: Sim, fiz parte do TR.E.M.A. (Território de Expressão no Mundo Anônimo) que acabou com a publicação da revista/livro Cadeira com Rodas e do documentário O Conto Torto do Olho. O TR.E.M.A. era um grupo que trabalhava com jornalismo, buscando um olhar delicado sobre a cidade, mas era jornalismo. O Cidades Internas é um encontro de dois artistas, lançando um olhar sobre cidade, mas são coisas bem diferentes. Assim, as inquietações são as mesmas, os desejos também, mas a forma é outra, o que torna os trabalhos bem diferentes. Mas mesmo no TREMA nós tivemos várias interseções com a Fernanda, fosse dividindo uma mesa de bienal do livro, num zine-se ou mesmo num Literatura de Lua. Os desejos semelhantes aproximam as pessoas.

O que, da sua relação com a cidade, está presente nas plaquinhas do Cidades Internas?

Ramon: Eu nasci e me criei em Fortaleza, respiro e transpiro essa cidade todo dia, quer queira, quer não. A cidade me oprime, me inquieta, me cutuca e eu falo dela, sobre ela, seja no jornalismo, nos quadrinhos, na ilustração, no vídeo... Enfim. As minhas raízes são na cidade, minhas manifestações artísticas se nutrem dela.

Portanto, a minha relação com a cidade influencia em um relatório ou ofiício que eu tenha que escrever, na produção de imagens sobre a cidade então, nem se fala. É a própria cidade saindo de dentro de mim, através de uma caneta ou pincel, direto pro papel, pura e simples.

Como alguém que trabalha com quadrinhos e ilustração, de que forma você vê Fortaleza representada nesses meios? 

Ramon: A produção de quadrinhos em Fortaleza ainda é embrionária, mas mesmo assim, tem coisas sendo feitas sobre a cidade, meu quadrinho (que falo na última pergunta) é, basicamente, uma história sobre o cotidiano da cidade. Mas, fora um caso isolado ou outro, a produção de quadrinhos de Fortaleza ainda fala muito pouco sobre cidade... Na verdade, fala muito pouco de qualquer coisa.

Categoricamente eu não sou ilustrador, já fiz muitas ilustrações, muitas mesmo, mas não é a isso que eu me dedico. Quando você desenha é inevitável que acabe ilustrando muitas coisas, mas não é a minha sabe? Minhas imagens pedem sempre outras, uma sequência, não tenho a concisão de um ilustrador, nem a sua dedicação, a maioria dos meus desenhos pede o tempo, pede a passagem de tempo, não são caprichosos, não olhe muito tempo pra eles, passe para o próximo.

Tem algum artista específico que você considera especialmente relacionado com a cidade?

Ramon: Ah, tem muita gente boa pensando a cidade. Muita, o povo que mexe na rua mesmo, com arte pública, tem o grupo Acidum, que eu adoro, o próprio Coletivo Meio-Fio, Liquidificador sem Tampa, Coletivo Curto-Circuito, tem gente que nem tem nome, o povo do cinema, Alumbramento, Pedro Diógenes, Guto Parente. Fortaleza tá pegando fogo (e eu não tô falando do calor), tem muita gente produzindo e a cidade inquieta muita gente.

Depois do Cidades Internas, você já tem algum projeto aí engatilhado pros próximos meses?

Ramon: Eu estou terminando o meu primeiro livro de quadrinhos, chama-se Frases de Banheiro e é desenhado por mim e mais três pessoas: Jabson Rodrigues, Neudson Aquino e Carlos Campus. Vamos lançar ainda nesse semestre e, como falei antes, é um livro com histórias sobre a cidade, a vida das pessoas, como elas se interpenetram... Enfim. Logo, logo tá entrando no ar o site www.frasesdebanheiro.com.br

O lançamento da coleção Cidades Internas acontece hoje, 25, às 19h30, no Parente Snooker Bar (rua Dom Jerônimo, 554. Otávio Bonfim). Cada plaquinha de PVC custará R$ 15 no evento e, depois, R$ 20. Vendas e outras informações: 9137.1585 (Ramon) e 8646.3534 (Fernanda).

 

Eles também estão no twitter: @cidadesolar e @ramoncavalcante.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Passeios por Cidades Internas - parte 1

Fotos: Fernanda e Ramon durante o processo de criação das placas da coleção Cidades Internas, algumas delas já prontas na última foto.

Fernanda Meireles está para Fortaleza como João do Rio está para o Rio de Janeiro ou Woody Allen para Nova York. Fanzines, cartões postais, música (com a banda Alcalina), oficinas. Sempre com um projeto na manga, a arte-educadora semeia o amor à cidade e os encontros entre seus habitantes, criando memórias pra si e pra todos nós.

De partida para a França, onde, com o financiamento de um edital do Ministério da Cultura, estudará a experiência da Fanzinothèque de Poiters, Fernanda se despede da sua Cidade Solar com uma novidade todos os dias. Já fez uma semana inteira de encontros no projeto Literatura de Lua, lançou a coleção de cartões de visita eróticos Kaminha Sutra com Vitor Batista e, nesta quinta, às 19h30, no Parente Snooker Bar, lança a coleção de plaquinhas de PVC Cidades Internas, em parceria com o desenhista e jornalista Ramon Cavalcante.

Em entrevista por e-mail (como dá pra perceber pela risada de milhões de caracteres que já é praticamente marca registrada), Fernanda conta um pouco sobre o projeto, suas impressões sobre a cidade e os planos pra agora e depois.

Quando foi que você e o Ramon começaram a pensar no Cidades Internas? Como se decidiram pelo tema?

Fernanda Meireles: Desde setembro de 2mil e 9 o Ramon e eu pensamos num jeito de lançar uma coisa juntos. O conheci pelo TR.E.M.A. e já acompanhava o trabalho no tempo que o jornal O Povo publicou HQs que prestavam e tenho o zine que ele lançou, chamado Percursos (ele nem tem mais aerjknfgjaegbjear). Aí o mundo é ligeiro e viajei e voltei e nos encontramos e záz! Colocamos pra frente o projeto. A cidade é um tema constante pra mim e pra ele, aí já viu, né?

Além do Cidades Internas, com o Ramon, você também já fez parcerias com o Ayrton Pessoa Bob (Postais Supercordas) e com o Vitor Batista (Kaminha Sutra). Como é trabalhar coletivamente conceitos tão subjetivos e, de certa forma, particulares?

Fernanda: Fico morta de feliz por conseguir trabalhar criando coisa junto com eles. Primeiro porque são meus amigos, depois porque noto que artisticamente a gente cresce junto em paralelo e em tranversais, misturando linguagens. São três meninos que admiro por princípios, estilo de vida e, claro, pelo talento fora do comum.
 
O Bob foi o primeiro, a gente misturou em duas coleções de postais o que a gente gosta: Beatles, amor e sono. (Ou seja: ouvir música e tocar, namorar e dormir!). Aqui, ó: http://postaissupercordas.wordpress.com 

O Vítor eu acompanho desde quando o 7Dayz era um zine (aí virou livro comtemplado por edital www.blogzdovitor.blogspot.com). A gente também já tinha feito a polêmica HQ “A Incrível História de Ana Cláudia e Alice” pra Coordenadoria de Diversidade Sexual da Prefeitura e foi muito divertido! (E nos sentimos úteis em fazer o que acreditamos). A coleção erótica Kaminha Sutra começou a ser pensada há quase 1 ano, e agora saiu, ufa! http://picasaweb.google.com.br/fernandaameireles/KaminhaSutra 

Sobre os conceitos, é bacana reparar que todos se interligam - ou seja, não sou doida. wejfnwjenfjnwejfnjwaef

Quando você esteve na Holanda, no ano passado, organizou a exposição Inner Cities, com postais escritos em inglês, que foram parar nas mãos de gente do mundo todo. De que forma o Cidades Internas se remete a esse trabalho, além do nome traduzido?

Fernanda: O Inner Cities foi uma série de uns 40 postais com textos que nasceram lá, disso de estar com saudade, de estar numa cidade estranha que às vezes é linda e às vezes é estéril, de ter que fazer e desfazer malas e sentir cousas enquanto isso, de conhecer gente do mundo todo que já não tinham uma cidade pra-chamar-de-sua. Uns desterrados modernos que são conhecidos como cidadãos do mundo... 

Ter passado um tempo fora influenciou o jeito como você olha pra Fortaleza agora?

Fernanda: Conhecer uma parte do Velho Mundo por motivo que não foi esse mesmo (fui pra encontrar meu amor e conhecer a Fanzinothèque de Poitiers), foi uma experiência muito estranha. A Europa não era o objetivo, era algo no meio do caminho (aesbfhawbehfbawlhf), daí fui sem ilusões e claramente de passagem. Isso desencadeou muitas descobertas, impressões, boas e ruins. Eu era uma turista acidental até informada sobre muito de lá, mas ESTAR é diferente. E viajar pra mim ainda não é simples! 

Sempre digo que Fortaleza é uma cidade nova, ainda, agora que a primeira geração que enxerga a cidade como sua mesmo está começando a crescer e trabalhar. Ainda é raro encontrar alguém que tem os 4 avós nascidos aqui. Todo mundo tem um interior pra onde voltar. Ou ainda, uma cidade maior pra ir. Ou veio de passagem e ficou. Daí, é uma cidade meio sem dono. À deriva, feito o Mara Hope. (Aaaaaaaaaaaaaaaaaa) Muito oposto às cidades européias, onde os imigrantes já estão é tomando tudo (de volta, talvez) pra si.

A sensação que eu tinha do quanto Fortaleza é um “work-in-progress” se acentuou. Meu amor por essa cidade acabada e inacabada também.

E essa sensação de já estar de partida de novo, te faz ver a cidade de um jeito diferente?

Fernanda: Sim. Tomei banho de chuva, comi baião, bebi água de côco, passamos um pedaço da madrugada sobre as pedras no calçadão da Praia de Iracema, vendo o mar. É quase como me despedir da minha namorada. (klaengjkçaenrgjnaerjgnaej)

Você considera que isso está presente nas plaquinhas do Cidades Internas?

Fernanda: Está tudo lá, tudoo que eu falei aqui e os desdobramentos disso. Ramon e eu colocamos mensagens – sinais, daí serem placas! – em cada signo, seja ele escrito ou desenhado. Eu podia escrever um livro sobre cada uma delas.
 
Quais são os planos pros próximos dias, semanas, meses, lá e aqui de novo? :)

Eles se enlaçam num futuro bem próximo!

Próximos dias: 27 de março, sábado, Zine-se de 8 anos no foyer do TJA. Meia hora antes eu falo dos Zines Yoyô e como a cena de zines (odeio esse nome cena, parece que é de mentira ekarjlgaergbjabej) se construiu de dez anos pra cá. Falo mostrando as fotos, vai ser manssa!

Domingo dia 28 vai ter um feirão com tudo que produzo, aqui em casa. É também meu bota-fora...

Planos para lá: Passar abril na Fanzinothèque de Poiters, num intercâmbio/residência registrando tudo num diário de bordo. Namorar muito. Ir no London Zine Symposium dia 29 de maio. Expor em Poitiers, Amsterdam e Londres, enquanto tudo. Uma versão em inglês das placas com o Ramon vai na mala!

Planos pra cá: Transformar esse intercâmbio num relato e depois num livro, que é minha contrapartida ao Edital de Intercâmbio e Difusão do Ministério da Cultura daqui, que está bancando minhas passagens (só Fortaleza-Paris-Fortaleza) e hospedagem em Poitiers (o resto do dinheiro tem que vir da venda das coleções!) 

Ah, e namorar muito também.

Leia amanhã a entrevista com o desenhista Ramon Cavalcante.

O lançamento da coleção Cidades Internas acontece amanhã, 25, às 19h30, no Parente Snooker Bar (rua Dom Jerônimo, 554. Otávio Bonfim). Cada plaquinha de PVC custará R$ 15 no evento e, depois, R$ 20. Vendas e outras informações: 9137.1585 (Ramon) e 8646.3534 (Fernanda). Eles também estão no twitter: @cidadesolar e @ramoncavalcante.


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domingo, 14 de março de 2010

Tudo se ilumina à luz do passado

Pertenço à primeira geração de cearenses da minha família. Foi meu pai quem se mudou para Fortaleza, seguido pela minha mãe quando eles se casaram. Os dois vêm da mesma cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte, Florânia, se conhecem desde crianças e foram morar em Natal na adolescência. O grosso dos parentes de ambos os lados ainda moram em uma dessas duas cidades, de modo que, aqui em Fortaleza, somos basicamente nós quatro - eu, minha irmã, meu pai e minha mãe - e mais ninguém.

Passei todas as minhas férias escolares em Natal, na casa da minha avó materna. Apesar de eu ter memórias de infância ali, atualmente visitar a cidade (coisa que fiz essa semana) me remete a um passado mais remoto: a juventude dos meus pais. Minha mãe me mostra os lugares onde estudou e trabalhou, a igrejinha onde se casou, os trajetos dos ônibus que ela tomava. As visitas que, invariavelmente, aparecem na casa da minha avó quando estamos lá recordam causos de décadas atrás, fragmentos dos meus pais aos 17, 18 anos. 

De certa forma, é como mergulhar em um universo paralelo. E se meus pais tivessem ficado em Natal, como eles seriam hoje? Se pudessem sair com os amigos todos os fins de semana, se tivessem que se inserir em almoços de domingo com os irmãos e os filhos dos irmãos, se estivessem no meio do misto de fogo cruzado e rede de segurança tão típico das famílias grandes, seriam mais ou menos felizes? Às vezes, sinto-os tão sozinhos aqui. Eles têm colegas de trabalho, mas não têm amigos de infância em Fortaleza. Não têm aquelas pessoas que transportam a doçura do passado para o presente, ligados a eles por nada além de vivências comuns. Os amigos são vias de escape contra o lado massacrante do cotidiano. Sem eles, para onde fugir? 

Se meus pais tivessem ficado em Natal, como eu seria? Teria feito Jornalismo? Sentiria essa pulsão por percorrer o mundo? Gostaria das coisas que gosto? Se não tivesse os amigos que tenho, e sim outros; se frequentasse outros lugares, teria a mesma personalidade? Enfim, se a cidade que descobri sozinha nos primeiros suspiros de independência adolescente tivesse sido Natal, ao invés de Fortaleza, o que teria mudado? Só posso imaginar as respostas pra tantas perguntas, mas cada vez que vou a Natal trago ao menos uma certeza: somos a cidade onde crescemos, inevitavelmente.

PS: O título é uma referência ao livro Tudo se ilumina, do americano Jonathan Safran Foer, relato meio autobiográfico meio fantástico da busca do autor por suas raízes ucranianas, guiado pela indagação: se seus antepassados não tivessem fugido do nazismo rumo aos EUA, como seria sua vida na Ucrânia? Por coincidência, comecei a ler esse romance em Natal, na varanda da minha avó, onde li tantos livros que hoje são parte de mim.

PPS: Quando viajávamos de carro para Natal, meu pai gravava fitas K7 que preenchiam o percurso de oito horas inteiro. Uma das minhas favoritas era a que tinha esta música do 14 Bis. Nossa linda juventude, página de um livro bom. Devo estar ficando velha. Essa frase não me sai da cabeça.

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domingo, 7 de março de 2010

Heinrich Heine: o poeta do banzo

 
Estátua Heinrich Heine na Universidade de Düsseldorf, rebatizada como Universidade Heinrich Heine em 1988. (Débora Medeiros)

Comprei muitos livros na Alemanha, mas só comecei a ler um enquanto estava lá: Deutschland. Ein Wintermärchen ou, em tradução livre, Alemanha. Um Conto de Fadas Invernal. Formado por uma sucessão de poemas, o livro foi publicado em 1844 por Heinrich Heine, depois de uma viagem pelo país. 

O nome do poeta é quase onipresente em Düsseldorf; foi lá que ele nasceu, apesar de ter se mudado logo para Hamburgo. A Universidade se chama Heinrich Heine, os professores de alemão citam sua obra, os guias turísticos sugerem uma visita ao Heinrich Heine Institut e a casa onde ele nasceu continua de pé. 

Nem sempre foi assim: enquanto era vivo, Heine foi perseguido pela censura no próprio país e, por isso, se exilou na França. Voltou poucas vezes à Alemanha. Deutschland. Ein Wintermärchen é fruto de um desses retornos, em 1843, quando o poeta tirou algumas semanas para visitar sua mãe e seu editor, Julius Campe. O tom é agridoce, como o de quem volta pra casa e subitamente se lembra dos motivos para deixá-la. 

Acabei não tendo tempo pra ler o livro todo ainda na Alemanha e só hoje consegui terminá-lo. Ler um pedaço lá outro cá acabou sendo uma experiência única. Provavelmente não era a intenção do poeta, mas, mais do que as críticas à situação política alemã (em pleno domínio da Prússia), sobreviveu a perspectiva única do "viajante na própria pátria", aquele que olha pra tudo com um misto de espanto e familiaridade, por ter passado tanto tempo fora, porém nunca esquecido a vida na terra natal.

Nunca passei mais de dois meses longe de casa, mas penso em fazer isso em breve. Por isso, mergulhar nas impressões desse viajante foi precioso pra mim. Ao comprar o livro, esperava uma dúzia de versos bonitos sobre as cidades alemãs. Encontrei, ao invés disso, passagens que me lembraram do conforto de ouvir a língua materna, rever lugares cheios de significados pessoais, reconhecer costumes e sentir-se em casa, apesar dos pesares. Todas essas sensações foram confirmadas quando cheguei em Fortaleza.

Heine cresceu como homem e como artista quando foi morar em Paris. Conheceu Karl Marx, ajudou a criar o formato atual dos cadernos de cultura e contribuiu para reaproximar a Alemanha e a França, em meio a uma rivalidade que se estendia há décadas. Ainda assim, não resistiu à vontade percorrer novamente a terra natal, mesmo durante os rigores do inverno. Ele explica em versos por quê:

Ansiei até pelos lugares,
Ich sehnte mich nach den Plätzen sogar,
Por cada estação,
Nach jenen Leidensstationen,
Onde carreguei a cruz da minha juventude
Wo ich geschleppt das Jugendkreuz
E a minha coroa de espinhos.
Und meine Dornenkronen.

Como eu disse, agridoce. Que nem a saudade de casa - também conhecida como banzo ou, na língua do poeta, Heimweh.

PS: Uma curiosidade sobre Heinrich Heine é que ele era muito admirado por escritores brasileiros como Machado de Assis, Raul Pompéia e Manuel Bandeira. Um poema dele serviu de inspiração para O Navio Negreiro, o mais famoso poema abolicinista de todos, escrito por Castro Alves.

PPS: Quem lê em alemão encontra Deutschland. Ein Wintermärchen pra baixar aqui.

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Terra, terra, gentil chão


Fortaleza, 27 de fevereiro de 2010


O caos da minha mesa de trabalho conta das últimas andanças: bolsa de viagem, souvenirs, documentos, revistas em alemão e português, declarações da UFC, livros (subespécies como gramáticas, romances, poemas, didáticos) e anotações se misturam em um monte de papel que só faz sentido pra mim, que o construí ao longo desses dias. 

Faz quase duas semanas que estou de volta a Fortaleza. Pouco a pouco, a familiaridade da terra natal vai se infiltrando pelos meus poros, enquanto uma melancolia prematura se instala no meu coração - o ano mal começou e já me entristeço, ao imaginar que devo deixar novamente a cidade em 2011.

Todos os dias desde minha chegada têm tido um gostinho de boas-vindas. Ele se esconde na música que toca no meu mp3player, nos ônibus azuis que surgem no horizonte e me levam por aí, no calor de trinta graus, nas Havaianas nos pés, nos domingos silenciosos e meio tristes de casa, no céu azul de (poucas) nuvens branquinhas, nas blusas de alça,  no sobressalto anti-assalto, nas cores quentes, nas árvores balançando ao vento, nos prédios cheios de lembranças, nas ruas, nas mudanças sutis em tudo e, é claro, nas pessoas.

Todos os dias, revejo um amigo diferente. E é ouvindo as histórias deles, suas lembranças, seus sentimentos e planos, que me sinto mais em casa. É bom ver como todos mudaram um pouco que seja, sem deixar de continuarem os mesmos. Não me canso de caminhar pelas ruas do Benfica, reconhecendo tantos rostos e recebendo tantos abraços e embarcando em possibilidades de prosear um pouco, seja na cantina da Comunicação Social, seja num dos meus muitos bares favoritos no bairro, sem me preocupar com o tempo que passa.

Ao contrário do que acontece com muita gente que volta de um período morando fora, não sinto aquela repulsa provinciana de achar que tudo lá é melhor que cá. Fortaleza é linda, apesar dos pesares e com eles.

Quando penso em Düsseldorf, com seus bondes que cruzam a cidade em minutos, seus parques que mudam de cara proporcionalmente à neve que cai, suas regras mais que menos seguidas, seus séculos de história, suas pessoas amigáveis-e-recolhidas, sinto uma coisa boa, de quase casa. Mas é só quase. Voltar a morar lá por mais tempo seria bom, mas melhor seria poder ficar aqui. A terra natal é sempre a terra natal, cheia de idiossincrasias conhecidas, de família, de ruas percorridas incontáveis vezes, de amigos - que, não importa o que aconteça, terão sempre vivido comigo a juventude. Nada pode ligar tanto uma pessoa a outra.

As seis semanas que passei na Alemanha me mostraram que, por mais que me sinta bem em outro lugar, não quero viver pra sempre longe daqui. A vida ideal, pra mim, seria feita de idas e vindas, um pedaço lá - sendo "lá" muitas distâncias diferentes -, outro cá. Quero histórias pra contar, fragmentos de vida, imagens gravadas na retina. E quero reparti-los com aqueles que amo, numa mesa de bar, com os barulhos e pessoas da cidade passando por nós.

A terra natal guarda como nenhuma outra a magia dos retornos felizes.

PS: Olhar pela janela de casa e ver de novo a paisagem mutante desses 21 anos, um céu infinito, prédios, ruas, carros e luzes, faz cócegas no coração. 

PPS: Alguns hinos pessoais à vida na cidade não podiam faltar neste post.


Faixa 2 by Artista Desconhecido  
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Alcalina - Memorabilia.mp3 (2627 KB)

Ponta Do Lapis by Rodger Rogerio  
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Rodger Rogério - Ponta Do Lapis.mp3 (6049 KB)

Escolher Pra Quê by Cidadão Instigado  
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Cidadão Instigado - Escolher pra quê.mp3 (6170 KB)

Falando D Vida by Ednardo  
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