domingo, 3 de agosto de 2008

Inventário: pensando (no futuro)

As férias estão chegando ao fim. Se me perguntarem se viajei, posso até dizer que sim, apesar de não ter saído de casa: visitei um monte de histórias, que me deixaram viajando em pensamento. Além de tirar o atraso das leituras de ficção, vi filmes como nunca. Na verdade, não agüentava mais nunca ter visto nenhum filme daqueles que todo mundo conhece e comenta e aproveitei a liseira que não me deixou viajar pra me aculturar um pouquinho "gratuitamente" pela TV :P

As próximas postagens vão resumir algumas das impressões que cada livro e cada película deixaram em mim. Agrupei tudo em categorias meio flutuantes, pra ficar mais fácil escolher de quais vou falar em cada dia. Hoje, alguns filmes que me fizeram pensar no futuro ou refletir sobre tedências do presente.

Gattaca - experiência genética: O filme, com Ethan Hawke e Uma Thurman, se passa num futuro bem próximo, em que a eugenia é ilegal, porém amplamente praticada. A sociedade é divida em castas: seres humanos tidos como perfeitos, em sua maioria filhos da inseminação artificial e da manipulação genética, ocupam o topo da sociedade, enquanto aqueles com qualquer característica recessiva (miopia, problemas cardíacos, deficiências físicas ou mentais) são relegados à pobreza e não podem sonhar com qualquer ascensão social. Não é um futuro de todo impossível; se não criarmos limites éticos fortes e axiomáticos, não duvido que, dentro de 10 ou 20 anos, estejamos vivendo uma realidade em que o mapeamento genético dos candidatos será praxe em entrevistas de emprego. O desenrolar do filme lança a questão: será a ciência mesmo tão exata assim? O mero fato de alguém possuir genes recessivos torna-o fadado a uma existência mais medíocre que a de outra pessoa de genes dominantes? Onde fica a capacidade de superação humana, fator imprevisível? Essa dogmatização que a ciência vem experimentando desde o Iluminismo, que a transforma quase em religião para muitos, pode ser extremamente perigosa, porque, ao contrário da maioria das religiões, que eleva o homem a portador da centelha divina e do livre arbítrio, a eugenia e tantos outros "avanços" nos transformam em cobaias descartáveis, caso fujamos à regra.

WALL-E: Assisti a essa animação quase que por acidente, porque era a única sessão num horário conveniente - e promocional - no multiplex. Não me arrependi. Não dava nem pra acreditar que o desenho era da Disney, por seu teor crítico e até escrachado em certos momentos. Bendita Pixar! Achei particularmente interessante a maneira como o futuro da humanidade é retratado: a Terra vira um lixão inabitável para quase qualquer ser vivo (exceto as baratas, claro :P) e os seres humanos saem em um cruzeiro espacial de 700 anos, o que afeta sua evolução, tornando seu esqueleto cada vez mais diminuto e subdesenvolvido em um corpo pródigo de gordura, tudo graças ao sedentarismo proporcionado por robôs que fazem todas as tarefas e tornam desnecessário até o ato de caminhar. Mais uma vez, um futuro nada improvável, hein? É aí que entra o fator imprevisível: a possibilidade de mudança, de retorno à Terra, que leva os humanos a superar as expectativas e a demonstrar que ainda é possível mudar a realidade. Deixa até o espectador mais cético esperançoso!



Amnésia: Sempre me falaram que esse filme era muito bom. E é mesmo: a história é imprevisível, o formato é inovador e conseguiram fazer o espectador se sentir exatamente como Leonard (Guy Pierce), o personagem principal que, após tentar deter o homem que estuprou e matou sua esposa, perde a memória de curto prazo e passa a caçar o bandido, utilizando subterfúgios que lhe permitem organizar a seqüência de fatos vividos no passado recente e as descobertas em sua investigação. Foi assistindo a esse filme que comecei a pensar na fascinação que as tragédias e os crimes exercem sobre o público em geral. Sei que não é uma coisa nova, como provam tantos romances policiais de séculos atrás, mas a onda de seriados que se baseiam em investigação criminal tornou isso ainda mais latente. Sou fã dessas séries desde o seu boom inicial com CSI, mas devo reconhecer que agora a TV - por assinatura ou não - está transbordando com histórias de crimes horríveis desvendados de modos perspicazes. É até difícil encontrar seriados com argumentos diferentes desse. Por que será que dramas como o de Leonard, que teve sua vida destruída com a morte da esposa, nos atraem tanto?

O observador
: Enquanto, em Amnésia, a simbiose entre um criminoso e seu perseguidor fica implícita, aqui, essa relação vira o centro da história. Keanu Reeves faz o papel de David Allen Griffin, um serial killer que se muda de Los Angeles para Chicago, só para poder continuar perto do detetive Joel Campbell (James Spader), o primeiro a investigar seus crimes e que, devastado física e psicológicamente pelo desenrolar da investigação (a qual não resulta na prisão de Griffin), se aposenta do FBI e vai morar em outra cidade. É interessante perceber como um dá sentido à vida do outro: os crimes de David são muito mais para lembrar a Joel que ele existe que qualquer outra coisa, enquanto Joel molda sua vida à memória do assassino - primeiro, tentando esquecê-lo, depois buscando evitar que fizesse mais vítimas. Fica claro que o antagonismo é um dos relacionamentos mais fortes que uma pessoa pode estabelecer com outra: é a identificação pela oposição, a tentativa de não se tornar igual ao inimigo. A obsessão por neutralizá-lo vira o único motivo para todas as ações.