terça-feira, 22 de julho de 2008

Já pensou?!

Meu blog foi premiado pela primeira vez! Nunca esperei que alguém fosse gostar dessas divagações cibernéticas a ponto de concedê-las alguma distinção. O Flanar surgiu como um espaço onde eu pudesse não só depositar como compartilhar minhas divagações e achados na Internet e fora dela. Por mais que passe longos períodos sem atualizações, esse blog me lembra de que há muito mais lá fora que o meu cotidiano, preenchido por tantos prazos, planos e tarefas, que deixa bem pouco tempo pra pensar além dele. Não que eu não goste do que vivo rotineiramente. Cada dia adoro mais o que faço, acho até que é por isso que é tão fácil cair na armadilha da metalinguagem.

Mas sempre que posto aqui, posso conversar sobre meus pensamentos sem necessariamente dar-lhes formas estabelecidas, sem me preocupar em ordenar tudo de acordo com a pirâmide invertida ou com os segundos que o texto leva pra ser lido. É um tempo de refletir e inovar. E é bom ver que tem gente gostando do papo, como a
Fernanda, que me concedeu o selo "Blog Consciente". Mal entrou na blogosfera, ela já virou expoente entre os blogueiros, graças ao seu talento para a escrita e à sua simpatia, que é tão grande que consegue contagiar as pessoas mesmo no mundo virtual, por vezes tão frio. Obrigada, moça, é uma honra receber esse prêmio justamente de você!

O título do selo, porém, me lembra que, pra ser consciente mesmo, ainda preciso trilhar um longo caminho. Como falei na postagem anterior, o mundo não está perfeito e todos nós podemos fazer alguma coisa para mudá-lo. Eu reclamo, mas também não ajo. O tempo não deixa e as prioridades tendem a se ordenar de maneira bem egoísta, pra caber o máximo de realização pessoal. Mas às vezes me pergunto se a realização pessoal também não estaria em fazer algo maior que eu mesma. Vamos ver quando é que eu vou passar das palavras para a ação!

domingo, 20 de julho de 2008

Nossos ídolos ainda são os mesmos


Dá pra imaginar o absurdo que é viver num país onde o racismo é apoiado pela lei e onde a maioria da população não tem o direito nem mesmo a aspirar aos melhores empregos e à participação política? Pois foi assim na África do Sul durante 40 anos, até que um jovem negro lutou para mudar a realidade do regime de apartheid, o que lhe custou 27 anos na prisão. Apesar de se situar em um contexto político específico, para mim, a luta de Nelson Mandela por uma nação mais justa é atemporal: não é preciso que exista uma legislação favorável para que o preconceito seja vigente em tantos lugares do mundo, gerando desigualdades sociais e atos de violência.

Por isso, tomei um susto quando li sobre o aniversário de 90 anos de Mandela, que foi na sexta passada. Mesmo já tendo se retirado da política (após se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994), ele ainda é uma das figuras mais importantes do cenário mundial. Sua contribuição na luta contra a AIDS é apenas uma entre as muitas ações que ele desenvolve.

A história de Mandela é impossível de ser replicada, mas seu aniversário me fez pensar em por que não ouvimos falar de outros Mandelas, contemporâneos à nossa geração. As pessoas não acham que vale mais a pena perder tempo tentando mudar a realidade atual ou simplesmente quem tenta fazê-lo é menos acreditado que os veteranos como o líder sul-africano? Parece ser um pouco dos dois.

O fato é que o mundo está longe de ser perfeito; todos os dias, problemas antigos ganham novas formas e conseqüências. A própria África do Sul ainda precisa resolver questões sérias, como a restituição das terras retiradas dos negros durante o apartheid. Quem está à frente da luta pela manutenção do legado de Mandela? Por mais que existam pessoas comprometidas com a causa, o mundo ainda espera muito daquele que, agora, merece descansar e confiar nas gerações seguintes.

Mandela foi responsável pela proeza de ver além de um mal sacramentado por décadas, mas não parou por aí: ele é capaz de buscar soluções para problemas surgidos só recentemente, como a AIDS. O que nos impede de fazer o mesmo?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Wanderlust

Só as cócegas que essa palavra faz na língua já lembram aquela euforia pré-viagem, um certo escapismo, uma certa predestinação. A vontade de se perder no mundo, fincar pé em outros chãos, farejar outros ares e simplesmente sentir. Wanderlust.

Pode ser traduzido como desejo de viajar e vem de um dos idiomas mais bonitos que já tentei dominar: wandern é o verbo em alemão para vagar e Lust significa desejo, também auf Deutsch. O inglês só fez sobrepor os dois.

De certa forma, esse sentimento sempre me acompanhou. Ainda criança, adorava ir buscar minha mãe no aeroporto - único lugar em que o ar recendendo a cigarro me parecia aceitável, porque também recendia a mundo: só a livraria já era, pra mim, a porta de entrada para Babel. Cursos de idiomas, leituras, opções acadêmicas, conversas casuais nos jantares em família - empurrões na mesma direção: partir. A wanderlust hibernou nos primeiros anos de universidade, mas agora voltou a latejar.
Como todo o resto em mim, não mudou em essência, mas amadureceu: o que, durante a adolescência, era uma fuga apressada do desajuste à minha realidade virou uma parte do meu trajeto, uma sina que cumprirei com prazer - quando chegar a hora devida.

Para o bem ou para o mal, minha vida está aqui, mas nada impede que passe por outros lugares, mesmo que estes sejam desprovidos dos afetos, conflitos, redes de apoio e inseguranças que me são tão familiares. A sensação é de que não terei iguais em nenhum outro lugar, porém a perspectiva de vivenciar esse desligamento temporário um dia é uma das coisas que me fazem prosseguir, aproveitar e tentar redimensionar as catástrofes cotidianas.

Wanderlust. A globalização atiça ou acomoda? Atlas falam da realidade geopolítica-sócio-econômica do norte da Europa, o Nobel de Literatura de 2006 tece memórias de Istambul, o filme na TV inunda a sala de poeira do Saara, a webcam transmite o porre da amiga em outro hemisfério. O que é viajar, em tempos de proximidade virtual? É simplesmente poder enfeitar o próprio auto-retrato com planos de fundo mais variados? É sentir o que é visto?

Ter novas histórias pra contar ou ouvir outras vozes?

Desarmar-se dos pré-julgamentos ou transpor os padrões para um novo cenário?

Seguir um roteiro ou se perder?

Na última viagem que fiz, percebi que todo mundo opta por um comportamento ou outro graças ao que vive na terra natal. É uma questão de personalidade, de visão de mundo, construídas no trato com o dia-a-dia.

Um amigo me falou outra noite da possibilidade que uma simples mudança de cenário descortina: construir-se praticamente do zero, não a partir das condições pré-existentes do meio a que estamos acostumados, mas daquilo que trazemos desse meio dentro de nós e daquilo que pensamos que somos ou deveríamos ser. Em outras palavras, se refazer. Acho que todo mundo é uma pessoa diferente pra cada grupo social de que faz parte. Mas quem somos quando estamos longe de tudo aquilo que é familiar?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Um comichão sazonal

Por mais que eu preferisse que não fosse só de tempos em tempos que essa vontade de escrever subjetividades me atacasse, a verdade é que é assim. Não há tempo ou fôlego, na minha rotina, pra manter um ritmo regular de escrita.

Aliás, escrevo o ano todo, mas coisas bem diversas: artigos científicos, reportagens, roteiros, artigos de opinião. Contos, fanzines e poemas - esses ficam reservados para as férias e feriados, épocas de desintoxicação do vício da Comunicação Social.


Sabe aqueles livros que te fazem parar a cada página porque o autor transformou em palavras um monte de coisas nas quais você sempre pensou, mas nunca deu forma? A insustentável leveza do ser
, do Milan Kundera, é assim. Tem uma hora em que ele narra como seu personagem se sentia permanentemente de férias, livre para pensar em outras coisas, quando teve de viver de outro tipo de trabalho que não a sua vocação, a Medicina. Confesso que reconheci a sensação. É difícil extrair a Comunicação da minha rotina, mas os efeitos são benéficos: sobra espaço pra outras coisas no meu HD. Os livros técnicos são substituídos pela ficção, as conversas de jornalista abrem alas para papos literários e abstrações, os trabalhos em grupo dão lugar aos projetos pessoais. E tudo sem o peso da obrigação de fazer sempre o meu melhor, já que há tempos descobri que a literatura não é a minha vocação mesmo, mas algo que a complementa, que lhe dá sabor.

As primeiras vezes em que senti as idéias em ebulição na minha cabeça, com jeito de obsessão, sempre surgindo com cliques vertiginosos, foi escrevendo contos. É uma sensação incrível, ficar se debatendo com algo até aquela sacada que faltava vir do nada, em um momento insuspeito da rotina. Continuo a sentir isso cada vez que me dedico a um projeto meu e agradeço à literatura por ter me apresentado ao brainstorm.