quinta-feira, 17 de abril de 2008

Divagações em trânsito

Todos os dias amanheço no mesmo trajeto: aulas de direção acaloradas da minha casa ao terminal, Borges de Melo II para o estágio. Do carro particular ao ônibus, vivo um pouco dos dois mundos dos transportes predominantes em Fortaleza e a enxergo de duas janelas bem distintas.

Meu pai não gosta que eu me distraia quando estou dirigindo. Nada de mudar a estação de rádio, comentar as barbeiragens dos outros (pra despistá-lo das minhas), nem mesmo me perder em algum detalhe captado pelo espelho retrovisor. É atenção total no que está à frente, nas luzes que se acendem e se apagam, nos alertas implícitos e nos não tão implícitos assim. Meu caminho se reduz à faixa que ocupo na pista.

No ônibus, ligo o MP3 player, procuro a janela mais próxima e a cidade transcorre diante de mim, em borrões de conversas, cheiros e cores. Outro dia, vi um zelador varrendo a calçada de um prédio na Aldeota e, como se diz em bom cearês, fazendo uns mungangos. Levantei a vista e, logo atrás das grades, no playground, uma babá segurava um bebê que, com seus bracinhos e perninhas rechonchudos, fazia tudo igual ao rapaz. Sorri até o próximo sinal vermelho.

Conheço Fortaleza pelas janelas dos ônibus, não por nomes e sentidos de avenidas ou esquinas antes das quais devo dar sinal para entrar. Cada coletivo desdobra uma rotina que vislumbro de passagem e que passa a fazer parte da minha própria rotina. Outro dia, um jornalista dizia pra gente que fazer jornalismo é vivenciar realidades com as quais, de outra forma, não teríamos contato. Pra mim, andar de ônibus também é isso.

E, diante das diferenças entre guiar um veículo e pegar uma condução, fico me perguntando se o crescimento da frota de carros particulares e a ineficiência perene da malha de transportes públicos não repercute na maneira como vemos a cidade. Quem tem tempo de olhar ao redor, quando precisa sempre pisar no acelerador? Fortaleza é, para muitos, um lugar que se atura, quase nunca se contempla - por falta de tempo, meios ou disposição. Somos hostis uns aos outros, como um bando de motoristas que tem de prever os erros do próximo para não se esborrachar. Não estaríamos passando tempo demais detrás do volante?

Foto por Yuri Leonardo.