domingo, 10 de fevereiro de 2008

Arthur Bispo: rosário de histórias

Quando, no seminário de abertura da exposição Em Torno dos Transtornos, eu disse que a vida de Arthur Bispo do Rosário dava um romance, nem imaginava que, um dia, leria um conto narrado do seu ponto de vista. Um registro de minha passagem pela terra, de Daniel Mason, está na revista Piauí deste mês. Procurei no site da revista, mas não há uma versão on line disponível. Quem puder arranjar um exemplar, arranje, porque vale a pena.

Um pouco sobre o Bispo, pros que não estiverem a fim de ler a página na Wikipédia: sergipano nascido no começo do século passado, ele trabalhou como marinheiro, boxeador e funcionário da Light, até virar empregado de uma família abastada do Rio de Janeiro, lá pelo fim da década de 1930. Foi nessa época que sua esquizofrenia se manifestou de maneira mais decisiva, levando-o a acreditar que encontrara-se com os anjos em uma madrugada na casa do patrão e que Deus tinha lhe encarregado de catalogar todas as coisas do mundo, enquanto durasse sua vida. Bispo correu a um mosteiro, a anunciar sua missão, e foi mandado para o hospício da Praia Vermelha, de onde foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde ficaria internado até morrer.

Mesmo internado, Bispo não abandonou a missão. Catalogou o mundo através de fichas de papelão com resumos das notícias de jornal, instalações repletas de objetos do cotidiano, bandeiras e bordados de vivências e memórias. Suas obras galgaram os muros da instituição psiquiátrica e chegaram aos salões da Bienal de Veneza. Para ele, no entanto, havia apenas uma audiência a quem agradar: Deus. No dia em que o Criador o chamasse, Arthur apresentaria os frutos do próprio trabalho envergando o maior deles: o Manto da Apresentação, síntese bordada de seus achados.

O que mais chama a atenção no conto de Daniel Mason é a maneira como essa história está contada. Não há nada do ilusionismo bem sacado presente na maioria das histórias de esquizofrênicos, tampouco da fantasia surreal de um delírio explícito. O escritor parece entrar nas engrenagens lógicas da mente de Bispo, romantizá-las sutilmente e conduzir o leitor ao reconhecimento mútuo e à admiração. Para mim, esse é o maior mérito do conto: faz pensar pela mente de um outro geralmente tido como incompreensível , mas que se mostra capaz de, à sua maneira, contar uma história tão inteligível e fascinante quanto tantas outras.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Um filme do caralho!

Nunca fui uma espectadora assídua de South Park na minha adolescência, a época mais propícia a gostar de iconoclastias pop estridentes como a animação. Talvez, naquela época, eu não percebesse a crítica mordaz à sociedade norte-americana por trás dos palavrões e piadas non-sense. Desenhos animados que batem nessa tecla existem aos montes, mas nenhum parece tão desbragado quanto South Park.

Ontem, assisti ao filme deles, South Park: Maior, Mais Longo e Sem Cortes. No início, a história parece metalinguística, com um Stan saltitando pelas ruas de South Park e cantarolando uma ode à cidade. O menino está feliz porque acabava de estrear um filme de Terrence & Phillip, uma dupla de comediantes canadenses de quem ele e os amigos Kenny, Kyle e Eric são fãs. A exibição se revela uma aula rápida de palavrões cabeludos e piadas de peido, que os garotos usam para se tornar populares entre as outras crianças, as quais, diante do repertório impressionante que os quatro adquiriram, correm para ver o filme também.

É então que a história cresce do modo non-sense e desequilibrado típico da série: refletindo a estupefação dos adultos do país inteiro com a boca suja de seus filhos, a mãe de Kyle reúne os pais de South Park em um movimento chamado Mães Contra o Canadá, que, depois de idagações sobre a quem deviam culpar (a sociedade? O governo? A televisão?), irrompe em cantoria e joga a culpa pela deseducação das crianças americanas na nação vizinha, o que acaba conduzindo a uma guerra de proporções literalmente apocalípticas. A crítica ao moralismo fica cada vez mais clara, resumida em um pronunciamento da mãe de Kyle para as tropas americanas: "Lembrem-se do que a MPAA (Motion Picture Association of America, associação que reúne seis gigantes da indústria cinematográfica) diz: violência horrenda e deplorável tudo bem, contanto que as pessoas não falem nenhum palavrão!"

Não pude deixar de pensar na classificação indicativa enquanto assistia a esse filme. A portaria do Ministério da Justiça que determina horários de exibição para cada tipo de conteúdo, de acordo com sua adequação às faixas etárias propostas, tem susctitado polêmica. Muitos veículos de comunicação afirmaram que a medida atentava contra a liberdade de expressão, chegando ao extremo de compará-la à censura. Nada mais leviano.

A classificação indicativa está muito mais a serviço dos pais que do Estado e evita, mesmo, ondas de moralismo repressivo contra certos conteúdos, ao situá-los em horário condizente e avisar com antecedência ao telespectador o que ele está para ver. Já pensou se, ao invés de dizer simplesmente que o filme do Terrence & Phillip é inadequado para a idade dos guris de South Park, o bilheteiro avisasse por que razões? Pode ser que as crianças continuassem querendo vê-lo, mas seus pais teriam conhecimento pra decidir se permitiriam ou não. Conscientização, não repressão, é o que evita cruzadas morais hipócritas como a caricata guerra em South Park.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

"O complicado não é saber navegar, mas saber onde ir"

Manuel Castells foi um dos teóricos mais polivalentes que descobri no ano passado, graças à cadeira de Cibercultura na universidade. Sociólogo, está habituado a pensar um fenômeno em profundidade e talvez o faça como ninguém quanto ao seu objeto mais conhecido: a Internet. Na trilogia A era da informação: economia, sociedade e cultura, ele mergulha em todas as possibilidades e realidades que a Web criou ou que com ela interagem: contracultura, hackers, sociabilidade, economia, liberdade de expressão, arte.

Ler mais de Castells nunca é redundante, por isso não resisti a esta entrevista com ele, reproduzida pelo Observatório da Imprensa. Nela, o estudioso espanhol fala sobre exclusão digital, choque de gerações, sociabilidade e mitos relacionados à Internet. Recomendo especial atenção para a relação que ele estabelece entre Internet e autonomia.

Você já se perguntou o que é melhor: sentir-se seguro numa redoma de vidro ou viver na desconfiança por ter maior controle sobre sua vida? Porque talvez seja essa a encruzilhada em que a humanidade se encontra, graças à Web e à Pós-Modernidade.