segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

"Ninguém poderia nos entender de tão longe"

...sentencia o personagem Fazıl, a certa altura do romance Neve, do Nobel de Literatura de 2006 Orhan Pamuk. A Turquia, que lhe serve de cenário, é um país fronteiriço, para onde quer que se vá: está cercado pela Bulgária a noroeste, a Grécia a oeste, a Geórgia a nordeste, a Armênia, o Irã e o Azerbaijão a leste, o Iraque e a Síria a sudeste, porém não possui identificação com nenhum dos vizinhos. Sua realidade é mostrada, nessa história, não pelas avenidas cosmopolitas de Istambul e Ancara, mas nos becos da cidadezinha de Kars, localizada na região da Anatólia, que ainda exibe resquícios das populações russa e armênia que a povoaram no passado. A rotina de Kars, não importa de que modo seja subvertida, é marcada pelo choque entre as leis da república formalmente secular e o islã político, com suas estrelas fundamentalistas refugiadas nas velhas oficinas da cidade.

Guiando o leitor pelo emaranhado de impressões, está Ka, um poeta turco que visita Kars, entre outras coisas, para investigar os suicídios de algumas moças da cidade. Morando na Alemanha, ele nunca aprendeu alemão e vive da pensão de exilado político e de leituras para comunidades turcas. Seu cotidiano em Frankfurt é de uma esterilidade sutil, só percebida com o retorno à Turquia, que lhe traz um poema atrás do outro, escritos às pressas em escadas, cafés, cozinhas, depois de anos sem idéias. Ainda assim, ele não consegue se imaginar residindo em sua terra natal, apenas transportando para a Alemanha o que lhe faz feliz ali.

Pamuk escreve de um jeito que lembra o de Dostoievski, com longas reflexões entremeadas com a ação da história, sempre no ritmo do protagonista. E, como o russo, capta um retrato de seu país que não se baseia tanto nas peculiaridades geográficas, mas nos sentimentos que permeiam os cidadãos. É assim que se percebe a veneração pelo fundador da república turca, Atatürk, misturar-se ao repúdio pelos supostos valores democráticos europeus; a religião ser encarada não como experiência individual e subjetiva, mas como algo que conecta o indivíduo à comunidade e só possível de existir como unanimidade; e os que exibem traços de outra identidade, como os milicianos curdos do presente ou os armênios massacrados no passado, serem eclipsados em prol da manutenção da identidade majoritária, sustentada pela elimanação das diferenças.

Assim, Ka, apesar de sua facilidade para cativar indivíduos de todas as orientações políticas, não é plenamente acolhido por ninguém, por ser tido como ateu e europeizado. Afinal, sobre todas as ideologias, permanece a desconfiança para com os europeus e a ausência de valores islãmicos. Mesmo assim, as menções à Europa Ocidental são tão numerosas nas falas de todos, que ela parece muito mais próxima que qualquer dos países vizinhos.

É inevitável não se perguntar o quanto a identidade nacional de um país realmente tem de tradição e quanto dela tornou-se algo latente em cada um que nasce em seu solo. Os islamitas repudiam o individualismo de Ka, afirmando a prevalência da comunidade, mas quanto dessa comunidade não é constituída pela conjunção dos valores individuais? O que se tem em Neve é a história atual de uma nação, mas também a narrativa do nascimento de um livro de poemas, contada sem nenhum verso, apenas pela matéria de que é feita a inspiração.

domingo, 20 de janeiro de 2008

O Evangelho segundo o GoogleEarth


Não sei se sou só eu, mas, quando passeio pelas esquinas virtuais do GoogleEarth, sinto-me como se desvendasse os caminhos com meus pés em carne e osso. A sensação de encontrar um prédio, baseando-me apenas no reconhecimento aéreo de seus arredores, é de pura descoberta. Prova de que as imagens feitas por satélite se irmanaram à Internet na criação de uma realidade virtual que, apesar de imaterial, é tão verdadeira quanto sua irmã "vida real".

Aliás, as experiências on line muitas vezes desempenham um papel central na vida de alguém: os contatos travados por e-mail e mensagens instantâneas, os achados em sítios distantes, as fotos de outras terras, tudo tem reflexos em sua personalidade e decisões. Será que isso inclui a fé?

Qual é a sensação evocada pela suposta imagem feita por satélite do caminho aberto por Moisés no Mar Vermelho? Estranhamente, me parece uma realidade tão papável quanto a do caminho do terminal do Papicu para a minha casa no GoogleEarth. O que não deixa de ser surreal, quase uma brincadeira pop.

Os artistas da Glue Society, responsáveis por esta e mais 3 peças que compõem a série God's eye View (Vista do olho de Deus), esclarecem suas intenções: "Gostamos de desorientar um pouco o público com nossos trabalhos. E, com estas peças, sentimos que a tecnologia agora permite que eventos que podem ter ou não acontecido sejam visualizados e tornados dramaticamente reais. Como a fotografia por satélite é um método de representação no qual se deposita tanta confiança, foi interessante brincar com isso."

Mais uma semelhança confusa entre os mundos virtual e material: nossa perpcepção depende de como nossa mente processa o que captam nossos sentidos. Como saber que é de verdade? Só raciocionando. Descartes não sai de moda.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Um novo Ano Novo

É tradição, em todos os lugares onde se escreva, começar cada ano com textos repletos de desejo de mudança para um mundo melhor. Ironicamente, essa proposta era pra ser de inovação, rompendo com as amarras dos problemas renitentes, sob o pretexto de uma mudança de calendário.

É como se o encerramento de mais um ciclo de 365 dias trouxesse vigor renovado para todos realizarem em 12 novos meses o que lhes pareceu impossível durante décadas. Escrever as esperanças nos primeiros dias do ano parece servir para aliviar a carga, ao permitir que o autor liste metas e as esqueça na gaveta, para reciclá-las na temporada de fogos de artifício e roupas brancas seguinte.

Apesar da falta de lógica, a tentação de escrever um texto nesses moldes é grande. Minha resistência final é não colocar tudo na conta do 2008, mas tomá-lo como um conveniente ponto de partida. Quem sabe em 2058 esse texto não soa antiquado? Porque, convenhamos, por mais brilhante que o Lima Barreto seja, é triste ver que, em mais de 80 anos, a Bruzundanga não mudou nada, e o livro continua atualíssimo na sua descrição das mazelas nacionais.

Por que não fazemos de 2008 o impulso inicial para a extinção de uma das maiores mazelas, a politicagem? Ainda acredito que é possível fazer algo bem diferente dela: política - limpa, delineada, racional. A começar pelas campanhas, transformadas em debates de idéias, não de slogans, arcadas dentárias e imagens chocantes/comoventes. Que a estratégia mais lógica passe a ser apelar ao cérebro do eleitor, não ao seu coração ou ao seu estômago: os candidatos declaram a que vieram e defendem suas posições, sem virar a casaca nem descumprir a palavra, depois de achar que enganaram os milhões de bestas portadores de título de eleitor. Aliás, tanto candidatos quanto eleitores devem parar de subestimar o poder do voto.

Em uma sociedade de consumo, o cidadão tem de adquirir a consciência que já possui como consumidor: por que se conformar em comprar gato por lebre, se tem a quem reclamar e exigir reparação? A diferença é que, para ser ouvido em uma democracia, não dá pra gritar sozinho, é preciso reunir outros que façam coro com você. Dessa forma, as pessoas se vêem obrigadas a restabelecer seu espírito comunitário, reaprendendo a "perder tempo" dialogando com outros, para compreender seus pontos de vista e, quem sabe, recrutá-los como aliados. Assim, os políticos passam a se sentir menos seguros em seu ninho de maracutaias e aprendem à força que é melhor nem ir por caminhos tortos, pra não precisar cobrir o rastro, cedo ou tarde descoberto - e punido.

Talvez tudo isso pareça muito utópico. Talvez. Ainda acredito nas mudanças a longo prazo, desencadeadas pela convergência de iniciativas individuais. Não é nada pra dezembro. É algo a ser construído com paciência, firmeza e fé atuante no futuro. Será realmente tão difícil impedir a si mesmo de adiar as mudanças para um próximo ano que nunca chega?

Pra quem notou, a ausência de verbos conjugados no futuro do presente e no futuro do pretérito não é mera coincidência: o futuro do presente denota algo fantasiado demais para se realizar, o futuro do pretérito é uma coisa perdida - nem é passado nem futuro realmente, mas algo suposto, intencionado, nunca concreto. Nada como viver o presente do indicativo para moldar o verdadeiro futuro.