domingo, 16 de novembro de 2008

Boas novas da Rádio Santo Dias


O Conjunto Palmeiras, bairro situado na periferia de Fortaleza, é conhecido pelo forte espírito comunitário de seus moradores. Foi lá que surgiu uma bem sucedida experiência de economia solidária, o Banco Palmas, e um projeto de comunicação feita para e pela comunidade, a Rádio Santo Dias.

Essa emissora nasceu em 1989 da vontade dos padres italianos Chico Moser e Luís Fornasier, que queriam interligar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e existentes ali, para que trocassem informações entre si, auxiliando na articulação dos movimentos sociais do bairro. Porém, das 12 radiadoras instaladas, só a Santo Dias (que homenageia o operário Santo Dias da Silva) vingou. A rádio contava com o apoio de vários moradores do Conjunto Palmeiras, que conduziam uma programação variada, composta de programas musicais, recados aos membros da comunidade e noticiários. A dedicação de pessoas como Marinês Chaves, Gleilson da Silva e Wayne Tiago, que estavam à frente do projeto, tinha como retribuição a intensa participação do restante da comunidade.

Em 2001, a Santo Dias ultrapassou as limitações do sistema de radiadoras, que consistia em meras caixas de som espalhadas pelo pátio da igreja, para ganhar uma freqüência, a 87,9 FM. Pouco depois, sobrevieram os problemas. Em 2004, a Anatel e a Polícia Federal entraram na rádio e levaram grande parte dos equipamentos de transmissão. 10 meses antes, os agentes já haviam lacrado a sede. Até hoje, ninguém entende por que acharam necessário levar o material, visto que, ao ser lacrada, a rádio saiu do ar. Além disso, já havia dois anos que Wayne, Marinês e muitos outros corriam atrás da legalização da emissora, por meio da obtenção de uma concessão.

Pois bem, já se passaram quase cinco anos desde que a ação arbitrária da Anatel. A Santo Dias ainda não recuperou os equipamentos e sua freqüência acabou sendo concedida a uma rádio evangélica. No entanto, aqueles que antes tocavam a rádio ainda não desistiram de levar à frente esse projeto tão querido: eles ainda lutam para conquistar uma concessão e para fortalecer a comunicação dentro da comunidade.

Estive lá semana passada e recebi notícias animadoras. A Paróquia São Francisco, que abriga a emissora, irá criar, no próximo ano, uma Pastoral da Comunicação, que trabalhará com projetos junto à juventude, de modo a afastá-la da violência - que cresce a cada dia no bairro - e fortalecer o papel da comunicação para a coesão entre os moradores.

Além disso, um grupo está desenvolvendo um projeto de webrádio no Centro Social Urbano (CSU) do bairro, projeto este que será implantado justamente na Rádio Santo Dias. Então, mesmo que a concessão ainda demore, em breve, voltaremos a ouvir as vozes do Conjunto Palmeiras, ecoando mais uma através da Rádio Santo Dias. Agora é esperar a emissora ressurgir na rede!

domingo, 19 de outubro de 2008

Música da vida

Sempre achei o MySpace uma boa idéia, mesmo vindo da Microsoft, empresa avessa ao espírito colaborativo e livre de royalties que caracteriza a Internet e os softwares livres. Uma rede social para músicos e interessados mostrarem o próprio trabalho e estabelecerem laços é ampliar esse quê de wiki tão típico da Internet, além de dar aos artistas o arbítrio sobre se vale a pena abrir mão de esconder o ouro em prol de uma maior divulgação: a maioria, que vai da Madonna às bandas de garagem, parece achar que sim.

Não toco nenhum instrumento, muito menos faço vocal em banda, mas me interesso muito por música, a ponto de pensar seriamente em me dedicar à crítica musical quando me formar. Então, como poderia despediçar a chance de conhecer melhor os sons que têm reboado na terrinha e no mundo? Por essas e por outras, criei o meu perfil lá no MySpace e vou recheá-lo de resenhas, textinhos irrotuláveis e um network mais variado que salada-mista do Centro da cidade :)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Mais complexo do que parece


Confesso que não venho acompanhando os conflitos entre regiões separatistas e o governo da Bolívia que ocorrem já há algum tempo e, de vez em quando, são quase que festejados por parte da imprensa brasileira, como sinal do fracasso do presidente Evo Morales. Só parei para ler esta notícia, em especial, porque refletia tal realidade por um prisma que me interessa: o rádio, representado, aqui, pela Integración, única emissora partidária de Morales na cidade de Santa Cruz de la Sierra.

É uma leitura que recomendo, por demonstrar que o que está acontecendo na Bolívia vai muito além da figura de um governante, envolvendo questões como o racismo e as desigualdades sociais exacerbados. Essa reportagem foi feita in loco pela equipe do UOL. Ao invés de adotar maniqueísmos pré-concebidos, o repórter Rodrigo Bertolotto relata o que viu em um bairro pobre e de maioria pró-Morales, incrustado em uma região separatista, concluindo, sem escolher lados, que "no jogo de informações de uma imprensa entrincheirada como a Bolívia, a verdade é a primeira vítima".

Em tempo: não sou pró-Morales nem torço pelo desmembramento do país. Só achei que valia a pena compartilhar uma breve reflexão.

sábado, 13 de setembro de 2008

Flanando em outras vizinhanças

O blog anda meio parado, mas não sumi completamente da Internet, não. É que finalmente descobri uma utilidade construtiva e divertida pro meu inglês, que sempre tá perigando enferrujar: estou colaborando como tradutora pros sites Whiplash e Global Voices em português. Neste último, em especial, minha consciência de mundo tem crescido bastante: lendo as notícias da mídia cidadã em diversos países e traduzindo as opiniões de blogueiros a milhares de quilômetros de mim, tenho me sentido parte de uma rede imensa, como não me sentia há muito tempo. E o mais interessante: esse universalismo é alcançado através da partilha do que acontece na pátria de cada blogueiro, de cada colaborador.

Recentemente, tive a chance de estar do outro lado, alimentando o site em inglês com conteúdo inédito sobre um episódio ocorrido nas eleições aqui em Fortaleza. Depois disso, a história pode ganhar versões em alguns dos muitos idiomas para os quais o Global Voices é traduzido, alcançando cada vez mais gente, que pode relacionar aquilo à sua realidade própria.

Um dos motivos por que sempre me interessei por aprender idiomas é justamente esse grau de conexão que falar a língua do outro proporciona. Entender alemão ou espanhol é muito mais que conhecer sinônimos estrangeiros, é compreender melhor as culturas em que esses idiomas estão inseridos e, assim, poder se relacionar melhor com as pessoas que as vivenciam. Por isso, o trabalho que o time de tradutores dos sites Global Voices desenvolve é tão fascinante: cabe a eles imergir nas histórias contadas em inglês e aproximá-las daqueles com quem dividem sua língua mãe. Além de tudo, é viciante!

domingo, 3 de agosto de 2008

Inventário: pensando (no futuro)

As férias estão chegando ao fim. Se me perguntarem se viajei, posso até dizer que sim, apesar de não ter saído de casa: visitei um monte de histórias, que me deixaram viajando em pensamento. Além de tirar o atraso das leituras de ficção, vi filmes como nunca. Na verdade, não agüentava mais nunca ter visto nenhum filme daqueles que todo mundo conhece e comenta e aproveitei a liseira que não me deixou viajar pra me aculturar um pouquinho "gratuitamente" pela TV :P

As próximas postagens vão resumir algumas das impressões que cada livro e cada película deixaram em mim. Agrupei tudo em categorias meio flutuantes, pra ficar mais fácil escolher de quais vou falar em cada dia. Hoje, alguns filmes que me fizeram pensar no futuro ou refletir sobre tedências do presente.

Gattaca - experiência genética: O filme, com Ethan Hawke e Uma Thurman, se passa num futuro bem próximo, em que a eugenia é ilegal, porém amplamente praticada. A sociedade é divida em castas: seres humanos tidos como perfeitos, em sua maioria filhos da inseminação artificial e da manipulação genética, ocupam o topo da sociedade, enquanto aqueles com qualquer característica recessiva (miopia, problemas cardíacos, deficiências físicas ou mentais) são relegados à pobreza e não podem sonhar com qualquer ascensão social. Não é um futuro de todo impossível; se não criarmos limites éticos fortes e axiomáticos, não duvido que, dentro de 10 ou 20 anos, estejamos vivendo uma realidade em que o mapeamento genético dos candidatos será praxe em entrevistas de emprego. O desenrolar do filme lança a questão: será a ciência mesmo tão exata assim? O mero fato de alguém possuir genes recessivos torna-o fadado a uma existência mais medíocre que a de outra pessoa de genes dominantes? Onde fica a capacidade de superação humana, fator imprevisível? Essa dogmatização que a ciência vem experimentando desde o Iluminismo, que a transforma quase em religião para muitos, pode ser extremamente perigosa, porque, ao contrário da maioria das religiões, que eleva o homem a portador da centelha divina e do livre arbítrio, a eugenia e tantos outros "avanços" nos transformam em cobaias descartáveis, caso fujamos à regra.

WALL-E: Assisti a essa animação quase que por acidente, porque era a única sessão num horário conveniente - e promocional - no multiplex. Não me arrependi. Não dava nem pra acreditar que o desenho era da Disney, por seu teor crítico e até escrachado em certos momentos. Bendita Pixar! Achei particularmente interessante a maneira como o futuro da humanidade é retratado: a Terra vira um lixão inabitável para quase qualquer ser vivo (exceto as baratas, claro :P) e os seres humanos saem em um cruzeiro espacial de 700 anos, o que afeta sua evolução, tornando seu esqueleto cada vez mais diminuto e subdesenvolvido em um corpo pródigo de gordura, tudo graças ao sedentarismo proporcionado por robôs que fazem todas as tarefas e tornam desnecessário até o ato de caminhar. Mais uma vez, um futuro nada improvável, hein? É aí que entra o fator imprevisível: a possibilidade de mudança, de retorno à Terra, que leva os humanos a superar as expectativas e a demonstrar que ainda é possível mudar a realidade. Deixa até o espectador mais cético esperançoso!



Amnésia: Sempre me falaram que esse filme era muito bom. E é mesmo: a história é imprevisível, o formato é inovador e conseguiram fazer o espectador se sentir exatamente como Leonard (Guy Pierce), o personagem principal que, após tentar deter o homem que estuprou e matou sua esposa, perde a memória de curto prazo e passa a caçar o bandido, utilizando subterfúgios que lhe permitem organizar a seqüência de fatos vividos no passado recente e as descobertas em sua investigação. Foi assistindo a esse filme que comecei a pensar na fascinação que as tragédias e os crimes exercem sobre o público em geral. Sei que não é uma coisa nova, como provam tantos romances policiais de séculos atrás, mas a onda de seriados que se baseiam em investigação criminal tornou isso ainda mais latente. Sou fã dessas séries desde o seu boom inicial com CSI, mas devo reconhecer que agora a TV - por assinatura ou não - está transbordando com histórias de crimes horríveis desvendados de modos perspicazes. É até difícil encontrar seriados com argumentos diferentes desse. Por que será que dramas como o de Leonard, que teve sua vida destruída com a morte da esposa, nos atraem tanto?

O observador
: Enquanto, em Amnésia, a simbiose entre um criminoso e seu perseguidor fica implícita, aqui, essa relação vira o centro da história. Keanu Reeves faz o papel de David Allen Griffin, um serial killer que se muda de Los Angeles para Chicago, só para poder continuar perto do detetive Joel Campbell (James Spader), o primeiro a investigar seus crimes e que, devastado física e psicológicamente pelo desenrolar da investigação (a qual não resulta na prisão de Griffin), se aposenta do FBI e vai morar em outra cidade. É interessante perceber como um dá sentido à vida do outro: os crimes de David são muito mais para lembrar a Joel que ele existe que qualquer outra coisa, enquanto Joel molda sua vida à memória do assassino - primeiro, tentando esquecê-lo, depois buscando evitar que fizesse mais vítimas. Fica claro que o antagonismo é um dos relacionamentos mais fortes que uma pessoa pode estabelecer com outra: é a identificação pela oposição, a tentativa de não se tornar igual ao inimigo. A obsessão por neutralizá-lo vira o único motivo para todas as ações.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Já pensou?!

Meu blog foi premiado pela primeira vez! Nunca esperei que alguém fosse gostar dessas divagações cibernéticas a ponto de concedê-las alguma distinção. O Flanar surgiu como um espaço onde eu pudesse não só depositar como compartilhar minhas divagações e achados na Internet e fora dela. Por mais que passe longos períodos sem atualizações, esse blog me lembra de que há muito mais lá fora que o meu cotidiano, preenchido por tantos prazos, planos e tarefas, que deixa bem pouco tempo pra pensar além dele. Não que eu não goste do que vivo rotineiramente. Cada dia adoro mais o que faço, acho até que é por isso que é tão fácil cair na armadilha da metalinguagem.

Mas sempre que posto aqui, posso conversar sobre meus pensamentos sem necessariamente dar-lhes formas estabelecidas, sem me preocupar em ordenar tudo de acordo com a pirâmide invertida ou com os segundos que o texto leva pra ser lido. É um tempo de refletir e inovar. E é bom ver que tem gente gostando do papo, como a
Fernanda, que me concedeu o selo "Blog Consciente". Mal entrou na blogosfera, ela já virou expoente entre os blogueiros, graças ao seu talento para a escrita e à sua simpatia, que é tão grande que consegue contagiar as pessoas mesmo no mundo virtual, por vezes tão frio. Obrigada, moça, é uma honra receber esse prêmio justamente de você!

O título do selo, porém, me lembra que, pra ser consciente mesmo, ainda preciso trilhar um longo caminho. Como falei na postagem anterior, o mundo não está perfeito e todos nós podemos fazer alguma coisa para mudá-lo. Eu reclamo, mas também não ajo. O tempo não deixa e as prioridades tendem a se ordenar de maneira bem egoísta, pra caber o máximo de realização pessoal. Mas às vezes me pergunto se a realização pessoal também não estaria em fazer algo maior que eu mesma. Vamos ver quando é que eu vou passar das palavras para a ação!

domingo, 20 de julho de 2008

Nossos ídolos ainda são os mesmos


Dá pra imaginar o absurdo que é viver num país onde o racismo é apoiado pela lei e onde a maioria da população não tem o direito nem mesmo a aspirar aos melhores empregos e à participação política? Pois foi assim na África do Sul durante 40 anos, até que um jovem negro lutou para mudar a realidade do regime de apartheid, o que lhe custou 27 anos na prisão. Apesar de se situar em um contexto político específico, para mim, a luta de Nelson Mandela por uma nação mais justa é atemporal: não é preciso que exista uma legislação favorável para que o preconceito seja vigente em tantos lugares do mundo, gerando desigualdades sociais e atos de violência.

Por isso, tomei um susto quando li sobre o aniversário de 90 anos de Mandela, que foi na sexta passada. Mesmo já tendo se retirado da política (após se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994), ele ainda é uma das figuras mais importantes do cenário mundial. Sua contribuição na luta contra a AIDS é apenas uma entre as muitas ações que ele desenvolve.

A história de Mandela é impossível de ser replicada, mas seu aniversário me fez pensar em por que não ouvimos falar de outros Mandelas, contemporâneos à nossa geração. As pessoas não acham que vale mais a pena perder tempo tentando mudar a realidade atual ou simplesmente quem tenta fazê-lo é menos acreditado que os veteranos como o líder sul-africano? Parece ser um pouco dos dois.

O fato é que o mundo está longe de ser perfeito; todos os dias, problemas antigos ganham novas formas e conseqüências. A própria África do Sul ainda precisa resolver questões sérias, como a restituição das terras retiradas dos negros durante o apartheid. Quem está à frente da luta pela manutenção do legado de Mandela? Por mais que existam pessoas comprometidas com a causa, o mundo ainda espera muito daquele que, agora, merece descansar e confiar nas gerações seguintes.

Mandela foi responsável pela proeza de ver além de um mal sacramentado por décadas, mas não parou por aí: ele é capaz de buscar soluções para problemas surgidos só recentemente, como a AIDS. O que nos impede de fazer o mesmo?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Wanderlust

Só as cócegas que essa palavra faz na língua já lembram aquela euforia pré-viagem, um certo escapismo, uma certa predestinação. A vontade de se perder no mundo, fincar pé em outros chãos, farejar outros ares e simplesmente sentir. Wanderlust.

Pode ser traduzido como desejo de viajar e vem de um dos idiomas mais bonitos que já tentei dominar: wandern é o verbo em alemão para vagar e Lust significa desejo, também auf Deutsch. O inglês só fez sobrepor os dois.

De certa forma, esse sentimento sempre me acompanhou. Ainda criança, adorava ir buscar minha mãe no aeroporto - único lugar em que o ar recendendo a cigarro me parecia aceitável, porque também recendia a mundo: só a livraria já era, pra mim, a porta de entrada para Babel. Cursos de idiomas, leituras, opções acadêmicas, conversas casuais nos jantares em família - empurrões na mesma direção: partir. A wanderlust hibernou nos primeiros anos de universidade, mas agora voltou a latejar.
Como todo o resto em mim, não mudou em essência, mas amadureceu: o que, durante a adolescência, era uma fuga apressada do desajuste à minha realidade virou uma parte do meu trajeto, uma sina que cumprirei com prazer - quando chegar a hora devida.

Para o bem ou para o mal, minha vida está aqui, mas nada impede que passe por outros lugares, mesmo que estes sejam desprovidos dos afetos, conflitos, redes de apoio e inseguranças que me são tão familiares. A sensação é de que não terei iguais em nenhum outro lugar, porém a perspectiva de vivenciar esse desligamento temporário um dia é uma das coisas que me fazem prosseguir, aproveitar e tentar redimensionar as catástrofes cotidianas.

Wanderlust. A globalização atiça ou acomoda? Atlas falam da realidade geopolítica-sócio-econômica do norte da Europa, o Nobel de Literatura de 2006 tece memórias de Istambul, o filme na TV inunda a sala de poeira do Saara, a webcam transmite o porre da amiga em outro hemisfério. O que é viajar, em tempos de proximidade virtual? É simplesmente poder enfeitar o próprio auto-retrato com planos de fundo mais variados? É sentir o que é visto?

Ter novas histórias pra contar ou ouvir outras vozes?

Desarmar-se dos pré-julgamentos ou transpor os padrões para um novo cenário?

Seguir um roteiro ou se perder?

Na última viagem que fiz, percebi que todo mundo opta por um comportamento ou outro graças ao que vive na terra natal. É uma questão de personalidade, de visão de mundo, construídas no trato com o dia-a-dia.

Um amigo me falou outra noite da possibilidade que uma simples mudança de cenário descortina: construir-se praticamente do zero, não a partir das condições pré-existentes do meio a que estamos acostumados, mas daquilo que trazemos desse meio dentro de nós e daquilo que pensamos que somos ou deveríamos ser. Em outras palavras, se refazer. Acho que todo mundo é uma pessoa diferente pra cada grupo social de que faz parte. Mas quem somos quando estamos longe de tudo aquilo que é familiar?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Um comichão sazonal

Por mais que eu preferisse que não fosse só de tempos em tempos que essa vontade de escrever subjetividades me atacasse, a verdade é que é assim. Não há tempo ou fôlego, na minha rotina, pra manter um ritmo regular de escrita.

Aliás, escrevo o ano todo, mas coisas bem diversas: artigos científicos, reportagens, roteiros, artigos de opinião. Contos, fanzines e poemas - esses ficam reservados para as férias e feriados, épocas de desintoxicação do vício da Comunicação Social.


Sabe aqueles livros que te fazem parar a cada página porque o autor transformou em palavras um monte de coisas nas quais você sempre pensou, mas nunca deu forma? A insustentável leveza do ser
, do Milan Kundera, é assim. Tem uma hora em que ele narra como seu personagem se sentia permanentemente de férias, livre para pensar em outras coisas, quando teve de viver de outro tipo de trabalho que não a sua vocação, a Medicina. Confesso que reconheci a sensação. É difícil extrair a Comunicação da minha rotina, mas os efeitos são benéficos: sobra espaço pra outras coisas no meu HD. Os livros técnicos são substituídos pela ficção, as conversas de jornalista abrem alas para papos literários e abstrações, os trabalhos em grupo dão lugar aos projetos pessoais. E tudo sem o peso da obrigação de fazer sempre o meu melhor, já que há tempos descobri que a literatura não é a minha vocação mesmo, mas algo que a complementa, que lhe dá sabor.

As primeiras vezes em que senti as idéias em ebulição na minha cabeça, com jeito de obsessão, sempre surgindo com cliques vertiginosos, foi escrevendo contos. É uma sensação incrível, ficar se debatendo com algo até aquela sacada que faltava vir do nada, em um momento insuspeito da rotina. Continuo a sentir isso cada vez que me dedico a um projeto meu e agradeço à literatura por ter me apresentado ao brainstorm.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Divagações em trânsito

Todos os dias amanheço no mesmo trajeto: aulas de direção acaloradas da minha casa ao terminal, Borges de Melo II para o estágio. Do carro particular ao ônibus, vivo um pouco dos dois mundos dos transportes predominantes em Fortaleza e a enxergo de duas janelas bem distintas.

Meu pai não gosta que eu me distraia quando estou dirigindo. Nada de mudar a estação de rádio, comentar as barbeiragens dos outros (pra despistá-lo das minhas), nem mesmo me perder em algum detalhe captado pelo espelho retrovisor. É atenção total no que está à frente, nas luzes que se acendem e se apagam, nos alertas implícitos e nos não tão implícitos assim. Meu caminho se reduz à faixa que ocupo na pista.

No ônibus, ligo o MP3 player, procuro a janela mais próxima e a cidade transcorre diante de mim, em borrões de conversas, cheiros e cores. Outro dia, vi um zelador varrendo a calçada de um prédio na Aldeota e, como se diz em bom cearês, fazendo uns mungangos. Levantei a vista e, logo atrás das grades, no playground, uma babá segurava um bebê que, com seus bracinhos e perninhas rechonchudos, fazia tudo igual ao rapaz. Sorri até o próximo sinal vermelho.

Conheço Fortaleza pelas janelas dos ônibus, não por nomes e sentidos de avenidas ou esquinas antes das quais devo dar sinal para entrar. Cada coletivo desdobra uma rotina que vislumbro de passagem e que passa a fazer parte da minha própria rotina. Outro dia, um jornalista dizia pra gente que fazer jornalismo é vivenciar realidades com as quais, de outra forma, não teríamos contato. Pra mim, andar de ônibus também é isso.

E, diante das diferenças entre guiar um veículo e pegar uma condução, fico me perguntando se o crescimento da frota de carros particulares e a ineficiência perene da malha de transportes públicos não repercute na maneira como vemos a cidade. Quem tem tempo de olhar ao redor, quando precisa sempre pisar no acelerador? Fortaleza é, para muitos, um lugar que se atura, quase nunca se contempla - por falta de tempo, meios ou disposição. Somos hostis uns aos outros, como um bando de motoristas que tem de prever os erros do próximo para não se esborrachar. Não estaríamos passando tempo demais detrás do volante?

Foto por Yuri Leonardo.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Arthur Bispo: rosário de histórias

Quando, no seminário de abertura da exposição Em Torno dos Transtornos, eu disse que a vida de Arthur Bispo do Rosário dava um romance, nem imaginava que, um dia, leria um conto narrado do seu ponto de vista. Um registro de minha passagem pela terra, de Daniel Mason, está na revista Piauí deste mês. Procurei no site da revista, mas não há uma versão on line disponível. Quem puder arranjar um exemplar, arranje, porque vale a pena.

Um pouco sobre o Bispo, pros que não estiverem a fim de ler a página na Wikipédia: sergipano nascido no começo do século passado, ele trabalhou como marinheiro, boxeador e funcionário da Light, até virar empregado de uma família abastada do Rio de Janeiro, lá pelo fim da década de 1930. Foi nessa época que sua esquizofrenia se manifestou de maneira mais decisiva, levando-o a acreditar que encontrara-se com os anjos em uma madrugada na casa do patrão e que Deus tinha lhe encarregado de catalogar todas as coisas do mundo, enquanto durasse sua vida. Bispo correu a um mosteiro, a anunciar sua missão, e foi mandado para o hospício da Praia Vermelha, de onde foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde ficaria internado até morrer.

Mesmo internado, Bispo não abandonou a missão. Catalogou o mundo através de fichas de papelão com resumos das notícias de jornal, instalações repletas de objetos do cotidiano, bandeiras e bordados de vivências e memórias. Suas obras galgaram os muros da instituição psiquiátrica e chegaram aos salões da Bienal de Veneza. Para ele, no entanto, havia apenas uma audiência a quem agradar: Deus. No dia em que o Criador o chamasse, Arthur apresentaria os frutos do próprio trabalho envergando o maior deles: o Manto da Apresentação, síntese bordada de seus achados.

O que mais chama a atenção no conto de Daniel Mason é a maneira como essa história está contada. Não há nada do ilusionismo bem sacado presente na maioria das histórias de esquizofrênicos, tampouco da fantasia surreal de um delírio explícito. O escritor parece entrar nas engrenagens lógicas da mente de Bispo, romantizá-las sutilmente e conduzir o leitor ao reconhecimento mútuo e à admiração. Para mim, esse é o maior mérito do conto: faz pensar pela mente de um outro geralmente tido como incompreensível , mas que se mostra capaz de, à sua maneira, contar uma história tão inteligível e fascinante quanto tantas outras.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Um filme do caralho!

Nunca fui uma espectadora assídua de South Park na minha adolescência, a época mais propícia a gostar de iconoclastias pop estridentes como a animação. Talvez, naquela época, eu não percebesse a crítica mordaz à sociedade norte-americana por trás dos palavrões e piadas non-sense. Desenhos animados que batem nessa tecla existem aos montes, mas nenhum parece tão desbragado quanto South Park.

Ontem, assisti ao filme deles, South Park: Maior, Mais Longo e Sem Cortes. No início, a história parece metalinguística, com um Stan saltitando pelas ruas de South Park e cantarolando uma ode à cidade. O menino está feliz porque acabava de estrear um filme de Terrence & Phillip, uma dupla de comediantes canadenses de quem ele e os amigos Kenny, Kyle e Eric são fãs. A exibição se revela uma aula rápida de palavrões cabeludos e piadas de peido, que os garotos usam para se tornar populares entre as outras crianças, as quais, diante do repertório impressionante que os quatro adquiriram, correm para ver o filme também.

É então que a história cresce do modo non-sense e desequilibrado típico da série: refletindo a estupefação dos adultos do país inteiro com a boca suja de seus filhos, a mãe de Kyle reúne os pais de South Park em um movimento chamado Mães Contra o Canadá, que, depois de idagações sobre a quem deviam culpar (a sociedade? O governo? A televisão?), irrompe em cantoria e joga a culpa pela deseducação das crianças americanas na nação vizinha, o que acaba conduzindo a uma guerra de proporções literalmente apocalípticas. A crítica ao moralismo fica cada vez mais clara, resumida em um pronunciamento da mãe de Kyle para as tropas americanas: "Lembrem-se do que a MPAA (Motion Picture Association of America, associação que reúne seis gigantes da indústria cinematográfica) diz: violência horrenda e deplorável tudo bem, contanto que as pessoas não falem nenhum palavrão!"

Não pude deixar de pensar na classificação indicativa enquanto assistia a esse filme. A portaria do Ministério da Justiça que determina horários de exibição para cada tipo de conteúdo, de acordo com sua adequação às faixas etárias propostas, tem susctitado polêmica. Muitos veículos de comunicação afirmaram que a medida atentava contra a liberdade de expressão, chegando ao extremo de compará-la à censura. Nada mais leviano.

A classificação indicativa está muito mais a serviço dos pais que do Estado e evita, mesmo, ondas de moralismo repressivo contra certos conteúdos, ao situá-los em horário condizente e avisar com antecedência ao telespectador o que ele está para ver. Já pensou se, ao invés de dizer simplesmente que o filme do Terrence & Phillip é inadequado para a idade dos guris de South Park, o bilheteiro avisasse por que razões? Pode ser que as crianças continuassem querendo vê-lo, mas seus pais teriam conhecimento pra decidir se permitiriam ou não. Conscientização, não repressão, é o que evita cruzadas morais hipócritas como a caricata guerra em South Park.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

"O complicado não é saber navegar, mas saber onde ir"

Manuel Castells foi um dos teóricos mais polivalentes que descobri no ano passado, graças à cadeira de Cibercultura na universidade. Sociólogo, está habituado a pensar um fenômeno em profundidade e talvez o faça como ninguém quanto ao seu objeto mais conhecido: a Internet. Na trilogia A era da informação: economia, sociedade e cultura, ele mergulha em todas as possibilidades e realidades que a Web criou ou que com ela interagem: contracultura, hackers, sociabilidade, economia, liberdade de expressão, arte.

Ler mais de Castells nunca é redundante, por isso não resisti a esta entrevista com ele, reproduzida pelo Observatório da Imprensa. Nela, o estudioso espanhol fala sobre exclusão digital, choque de gerações, sociabilidade e mitos relacionados à Internet. Recomendo especial atenção para a relação que ele estabelece entre Internet e autonomia.

Você já se perguntou o que é melhor: sentir-se seguro numa redoma de vidro ou viver na desconfiança por ter maior controle sobre sua vida? Porque talvez seja essa a encruzilhada em que a humanidade se encontra, graças à Web e à Pós-Modernidade.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

"Ninguém poderia nos entender de tão longe"

...sentencia o personagem Fazıl, a certa altura do romance Neve, do Nobel de Literatura de 2006 Orhan Pamuk. A Turquia, que lhe serve de cenário, é um país fronteiriço, para onde quer que se vá: está cercado pela Bulgária a noroeste, a Grécia a oeste, a Geórgia a nordeste, a Armênia, o Irã e o Azerbaijão a leste, o Iraque e a Síria a sudeste, porém não possui identificação com nenhum dos vizinhos. Sua realidade é mostrada, nessa história, não pelas avenidas cosmopolitas de Istambul e Ancara, mas nos becos da cidadezinha de Kars, localizada na região da Anatólia, que ainda exibe resquícios das populações russa e armênia que a povoaram no passado. A rotina de Kars, não importa de que modo seja subvertida, é marcada pelo choque entre as leis da república formalmente secular e o islã político, com suas estrelas fundamentalistas refugiadas nas velhas oficinas da cidade.

Guiando o leitor pelo emaranhado de impressões, está Ka, um poeta turco que visita Kars, entre outras coisas, para investigar os suicídios de algumas moças da cidade. Morando na Alemanha, ele nunca aprendeu alemão e vive da pensão de exilado político e de leituras para comunidades turcas. Seu cotidiano em Frankfurt é de uma esterilidade sutil, só percebida com o retorno à Turquia, que lhe traz um poema atrás do outro, escritos às pressas em escadas, cafés, cozinhas, depois de anos sem idéias. Ainda assim, ele não consegue se imaginar residindo em sua terra natal, apenas transportando para a Alemanha o que lhe faz feliz ali.

Pamuk escreve de um jeito que lembra o de Dostoievski, com longas reflexões entremeadas com a ação da história, sempre no ritmo do protagonista. E, como o russo, capta um retrato de seu país que não se baseia tanto nas peculiaridades geográficas, mas nos sentimentos que permeiam os cidadãos. É assim que se percebe a veneração pelo fundador da república turca, Atatürk, misturar-se ao repúdio pelos supostos valores democráticos europeus; a religião ser encarada não como experiência individual e subjetiva, mas como algo que conecta o indivíduo à comunidade e só possível de existir como unanimidade; e os que exibem traços de outra identidade, como os milicianos curdos do presente ou os armênios massacrados no passado, serem eclipsados em prol da manutenção da identidade majoritária, sustentada pela elimanação das diferenças.

Assim, Ka, apesar de sua facilidade para cativar indivíduos de todas as orientações políticas, não é plenamente acolhido por ninguém, por ser tido como ateu e europeizado. Afinal, sobre todas as ideologias, permanece a desconfiança para com os europeus e a ausência de valores islãmicos. Mesmo assim, as menções à Europa Ocidental são tão numerosas nas falas de todos, que ela parece muito mais próxima que qualquer dos países vizinhos.

É inevitável não se perguntar o quanto a identidade nacional de um país realmente tem de tradição e quanto dela tornou-se algo latente em cada um que nasce em seu solo. Os islamitas repudiam o individualismo de Ka, afirmando a prevalência da comunidade, mas quanto dessa comunidade não é constituída pela conjunção dos valores individuais? O que se tem em Neve é a história atual de uma nação, mas também a narrativa do nascimento de um livro de poemas, contada sem nenhum verso, apenas pela matéria de que é feita a inspiração.

domingo, 20 de janeiro de 2008

O Evangelho segundo o GoogleEarth


Não sei se sou só eu, mas, quando passeio pelas esquinas virtuais do GoogleEarth, sinto-me como se desvendasse os caminhos com meus pés em carne e osso. A sensação de encontrar um prédio, baseando-me apenas no reconhecimento aéreo de seus arredores, é de pura descoberta. Prova de que as imagens feitas por satélite se irmanaram à Internet na criação de uma realidade virtual que, apesar de imaterial, é tão verdadeira quanto sua irmã "vida real".

Aliás, as experiências on line muitas vezes desempenham um papel central na vida de alguém: os contatos travados por e-mail e mensagens instantâneas, os achados em sítios distantes, as fotos de outras terras, tudo tem reflexos em sua personalidade e decisões. Será que isso inclui a fé?

Qual é a sensação evocada pela suposta imagem feita por satélite do caminho aberto por Moisés no Mar Vermelho? Estranhamente, me parece uma realidade tão papável quanto a do caminho do terminal do Papicu para a minha casa no GoogleEarth. O que não deixa de ser surreal, quase uma brincadeira pop.

Os artistas da Glue Society, responsáveis por esta e mais 3 peças que compõem a série God's eye View (Vista do olho de Deus), esclarecem suas intenções: "Gostamos de desorientar um pouco o público com nossos trabalhos. E, com estas peças, sentimos que a tecnologia agora permite que eventos que podem ter ou não acontecido sejam visualizados e tornados dramaticamente reais. Como a fotografia por satélite é um método de representação no qual se deposita tanta confiança, foi interessante brincar com isso."

Mais uma semelhança confusa entre os mundos virtual e material: nossa perpcepção depende de como nossa mente processa o que captam nossos sentidos. Como saber que é de verdade? Só raciocionando. Descartes não sai de moda.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Um novo Ano Novo

É tradição, em todos os lugares onde se escreva, começar cada ano com textos repletos de desejo de mudança para um mundo melhor. Ironicamente, essa proposta era pra ser de inovação, rompendo com as amarras dos problemas renitentes, sob o pretexto de uma mudança de calendário.

É como se o encerramento de mais um ciclo de 365 dias trouxesse vigor renovado para todos realizarem em 12 novos meses o que lhes pareceu impossível durante décadas. Escrever as esperanças nos primeiros dias do ano parece servir para aliviar a carga, ao permitir que o autor liste metas e as esqueça na gaveta, para reciclá-las na temporada de fogos de artifício e roupas brancas seguinte.

Apesar da falta de lógica, a tentação de escrever um texto nesses moldes é grande. Minha resistência final é não colocar tudo na conta do 2008, mas tomá-lo como um conveniente ponto de partida. Quem sabe em 2058 esse texto não soa antiquado? Porque, convenhamos, por mais brilhante que o Lima Barreto seja, é triste ver que, em mais de 80 anos, a Bruzundanga não mudou nada, e o livro continua atualíssimo na sua descrição das mazelas nacionais.

Por que não fazemos de 2008 o impulso inicial para a extinção de uma das maiores mazelas, a politicagem? Ainda acredito que é possível fazer algo bem diferente dela: política - limpa, delineada, racional. A começar pelas campanhas, transformadas em debates de idéias, não de slogans, arcadas dentárias e imagens chocantes/comoventes. Que a estratégia mais lógica passe a ser apelar ao cérebro do eleitor, não ao seu coração ou ao seu estômago: os candidatos declaram a que vieram e defendem suas posições, sem virar a casaca nem descumprir a palavra, depois de achar que enganaram os milhões de bestas portadores de título de eleitor. Aliás, tanto candidatos quanto eleitores devem parar de subestimar o poder do voto.

Em uma sociedade de consumo, o cidadão tem de adquirir a consciência que já possui como consumidor: por que se conformar em comprar gato por lebre, se tem a quem reclamar e exigir reparação? A diferença é que, para ser ouvido em uma democracia, não dá pra gritar sozinho, é preciso reunir outros que façam coro com você. Dessa forma, as pessoas se vêem obrigadas a restabelecer seu espírito comunitário, reaprendendo a "perder tempo" dialogando com outros, para compreender seus pontos de vista e, quem sabe, recrutá-los como aliados. Assim, os políticos passam a se sentir menos seguros em seu ninho de maracutaias e aprendem à força que é melhor nem ir por caminhos tortos, pra não precisar cobrir o rastro, cedo ou tarde descoberto - e punido.

Talvez tudo isso pareça muito utópico. Talvez. Ainda acredito nas mudanças a longo prazo, desencadeadas pela convergência de iniciativas individuais. Não é nada pra dezembro. É algo a ser construído com paciência, firmeza e fé atuante no futuro. Será realmente tão difícil impedir a si mesmo de adiar as mudanças para um próximo ano que nunca chega?

Pra quem notou, a ausência de verbos conjugados no futuro do presente e no futuro do pretérito não é mera coincidência: o futuro do presente denota algo fantasiado demais para se realizar, o futuro do pretérito é uma coisa perdida - nem é passado nem futuro realmente, mas algo suposto, intencionado, nunca concreto. Nada como viver o presente do indicativo para moldar o verdadeiro futuro.