sábado, 15 de dezembro de 2007

Diretor, roteirista, ator, produtor, editor, diretor assistente...

Ele tem um pouco de David Lynch, mas também de Sam Raimi e de Kiefer Sutherland. Oficialmente, sua carreira começou em 1969, com o faroeste Death of a Gunfighter e se estende até os dias de hoje nas mais diversas áreas: das séries de TV aos videoclips, dos recordes de bilheteria aos sucessos de crítica obscuros. Incansável, Alan Smithee ou Allen Smithee ainda denuncia as adulterações sofridas pelos produtos da indústria cinematográfica.

Aliás, é pra isso que ele existe.

Começou como um direito concedido pela Directors Guild of America (DGA), que defende os interesses dos diretores norte-americanos. Quando um diretor não estava contente com a versão final de um filme feito por ele, podia solicitar que seu nome fosse substituído pelo pseudônimo Alan Smithee nos créditos, contanto que não divulgasse o porquê de ter tomado essa decisão. No entanto, muitos deixaram seus motivos nas entrelinhas, e estes vão desde picuinhas com o elenco até edições no produto final com as quais eles não concordavam. Roteiristas descontentes com a execução de seus escritos, produtores e muitos outros logo aderiram à moda.

De fato, Alan Smithee virou quase modinha. E por isso a DGA, que avalia todos os requerimentos para uso do pseudônimo, instituiu, em 2000, que cada caso receberia um diferente. David Lynch é o detentor de uma das alcunhas mais irônicas: assinou como Judas Booth a versão para TV do clássico Dune, por considerar que o estúdio traiu e matou o filme (como John Wilkes Booth matou o presidente americano Abraham Lincoln), ao adaptá-lo para a televisão.

Alan Smithee não caiu no anonimato nem com a mudança de regras. Estrelou até uma comédia satirizando justamente o hábito de fazer cortes nos filmes sem a autorização do diretor. Depois de tantos anos no showbiz, ele não perde o charme porque representa um fenômeno interessante e, infelizmente, cada dia mais viável e bem-maquiado, graças às novas tecnologias: quando o artista perde o controle sobre sua obra. Ao mexer em um filme sem o consentimento da equipe responsável por ele, os estúdios parecem dizer: "Precisamos de vocês só pro trabalho pesado. Agora que a matéria-prima tá pronta, a gente molda como quiser".

Coisa parecida acontece com os jornalistas, que têm o direito de não assinar uma matéria, se seu conteúdo tiver sido editado por terceiros. Saber disso antes da publicação é quo são elas...

Mais sobre Alan Smithee na Wikepedia e no International Movie Database.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O rei do mundo!

Lavar o cabelo às 11 da noite pra espantar o sono, arrumar-se, pular no carro da amiga e desembocar em alguma pista de dança. Na hora, pensava por etapas de execução, no ritual de entretenimento que uns 90% dos seres da minha idade executam ao menos uma vez - ao dia, a semana, ao mês, ao ano, na vida.

Não sei dançar, mas isso não é problema na pista escura, em que reinam as luzes estroboscópicas, disfarces cool para os movimentos desengonçados. O techno é um ritmo querido pelos não-dançarinos, por não submeter ninguém à vergonha de desconhecer os passos da moda. Não há passos da moda. E quase nenhum dos corpos que lotam a pista reconhece as músicas, a se sucederem anônimas. O que importa é a batida.

Não pensei na hora, mas penso agora: quantas pessoas, naquele momento, não faziam exatamente o mesmo que eu? Faz tempo que a realidade dos jovens no mundo inteiro é retratada nas pistas de dança e, seja filmada na Coréia, seja na Argentina, a cena é plenamente reconhecível pra qualquer um. As pessoas dançam as mesmas coisas, flertam da mesma maneira, penam com a mesma ressaca. Quando o entretenimento se tornou tão igual? Sinal dos tempos não tão novo assim: os fortalezenses da Belle Époque e os russos servos do czar já se divertiam em bailes igualmente franceses. A diferença é que não dá bem pra saber qual a origem do entretenimento de agora, ele parece ter se espalhado simultaneamente nos cinco continentes. Seria a globalização? E onde ficam as manifestações locais: se misturam, perdem a graça, se fortalecem ou desaparecem?

A Wikipédia, que a cada dia conquista mais o status das definições de dicionário em textos metidos a crônica como este, diz do entretenimento:

Entretenimento, diversão, divertimento ou recreação é o conjunto de actividades que os animais (e com mais criatividade, o homem) praticam sem outra utilidade senão o prazer.

É o desvio do espírito para coisas diferentes das que preocupam. Pode ser uma distração, um passatempo ou um desporto.


O que te entretém?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Sem saída?

Talvez todos estejam cansados de debater a repercussão e os conceitos do filme Tropa de Elite. Particularmente, o que me cansa mais é a incompletude dos argumentos lançados a cada discussão. Parece que ninguém enxerga as muitas, muitas, muitas variáveis implicadas na realidade sobre a qual o filme constrói sua ficção. Convenhamos que é sempre difícil fazer isso em meio a uma polêmica, mas não tentar fazê-lo me parece irresponsável.

Com a poeira baixando - pero no mucho - aparecem opiniões valiosas. Tentativas de abrangência e racionalidade admiráveis, como a de Marcelo Yuka, nesta entrevista à Istoé.

Não vou nem me estender com comentários sobre ela, pois sei que seria incompleta e regressaria interminavelmente a esse post pra tentar consertar isso. Fica o convite pra cada um tecer suas reflexões.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Café, madrugadas e humanidade


Dormi e acordei pensando nA Garota do Café.

Produzido pela companhia independente Tightrope Pictures, com o apoio da BBC e da HBO, esse filme para a TV já está entre um dos melhores que vi em 2007. É surpreendente como o encontro casual entre o burocrata de meia-idade Lawrence (Bill Nighy) e a garota Gina (Kelly McDonald) em um café de Londres consegue render tanto: as primeiras palavras trocadas entre os dois são mundanas, mas seus gestos antecipam o vínculo sutil que existirá entre eles e que fará do filme algo muito maior que uma história de amor bem contada.

Quando conhece Gina, Lawrence está de partida para a 31ª cúpula do G8, que, na história, acontece em Reikjavik, na Islândia - na verdade, o encontro de 2005 teve como sede a Escócia. Membro da equipe do chanceler do Tesouro britânico, ele deve apresentar dados sobre a pobreza na África e pressionar para o cumprimento das Metas para o Milênio, estabelecidas em 2000, com o objetivo de extinguir a miséria no continente. Gina não sabe muito sobre a Islândia, apenas que a Björk nasceu lá. Lawrence não conhece a Björk, mas sabe que uma grande partida de xadrez foi travada em
Reikjavik, e convida a moça a acompanhá-lo, a pretexto de aprenderem mais sobre o país.

A narrativa é fluida, simples e bonita, com os momentos doces (porém nunca açucarados) que caracterizam os romances. Dá até pra pensar que, se o filme ficasse só nisso, já teria sido bastante feliz. Mais para perto do fim, no entanto, nos damos conta de que o enredo não sobreviveria sem a mensagem política que carrega. E esta é tão inesperada e verdadeira quanto as tentativas de Gina de confrontar, em todas as oportunidades possíveis, os políticos presentes no encontro, indagando sobre as Metas para o Milênio.

O principal questionamento feito por ela é por que esses homens e mulheres com tanto poder de decisão realmente estão lutando: pela defesa dos supostos interesses de seus países de origem ou pelas causas que, por afetar pessoas a quem eles nunca terão de prestar contas diretamente, estão em segundo plano, apesar de seu potencial para evitar muitas mortes? Dito de forma mais simples: os todo-poderosos estão ali para tornar o cafézinho mais barato para seus compatriotas ou para evitar que 30 mil crianças africanas morram todos os dias? Na opinião de Gina, eles podem fazer tanto uma coisa como a outra, resta saber o que querem fazer.

Seus interlocutores ficam chocados, a ponto de suspeitar que a jovem seja uma manifestante que seduziu Lawrence para se infiltrar na cúpula. O chanceler do Tesouro, indignado, confidencia à sua equipe que a razão para se trancafiarem em um hotel durante a reunião é exatamente para não ter de ouvir os protestos e, com aquela moça, os protestos os seguem até a mesa de jantar! A surdez dos líderes diante da obviedade das afirmações de Gina é gritante. E gera a pergunta: quantas mobilizações, apesar de suas causas válidas e possíveis, não chegam aos ouvidos daqueles que têm o poder de decisão e deveriam representar cada um dos que gritam por mudanças?
A Garota do Café defende que, mesmo que não escutem da primeira vez, não devemos silenciar.

Mais sobre o filme nesse site da HBO. De lá, eu recomendo a entrevista com o roteirista, Richard Curtis, para conhecer a maneira como ele entrelaça trabalho e ativismo
, colhendo bons resultados em ambas as áreas.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Janelas das almas


Meados de outubro, e as lojas já fantasiadas de Natal. Em uma avenida fortalezense com pretensões de Paulista, a fachada de uma loja de móveis se transformou em pilha de gigantescos presentes retangulares. As vizinhas não demoraram a se emperiquitar com luzinhas piscantes.

Nada de novo este ano. Até o fato de o Natal comercial estar chegando cada dia mais cedo já se tornou corriqueiro. Sou só eu, ou as pessoas estão desenvolvendo uma espécie de bloqueio natural à decoração antecipada? Não faz muito sentido pensar em listas de presentes e cartões festivos quando nem a segunda parcela do 13º saiu, prontinha pra ser torrada e repor o investimento do comércio em decoração. É como festejar o São João na Semana Santa: não faz muito sentido só porque poucos meses separam as duas datas.

Suntuosa ou kitsch, a decoração de Natal precoce das lojas não me chama mais a atenção. Meu espírito natalino não é nem maior nem menor por causa dela. Mas sabe o que realmente me faz sentir a chegada das festas de fim de ano? Encostar a cabeça no apoio do assento do ônibus, olhar pra todas aquelas fachadas de prédios e ver as primeiras luzinhas iluminando as janelas, metros e metros acima do chão, que foge sobre as rodas da "minha Mercedes".

É aí que percebo que o Natal chegou pras outras pessoas. Apesar das preocupações, conflitos e rotinas delas, o Natal invade seus pensamentos, leva-as a desenterrar a caixa da decoração de uma camada de poeira anual, só para passar horas checando cuidadosamente cada bolinha de vidro e cada fiozinho, em busca da perfeição coletiva. Se uma luzinha não funciona, nenhuma das outras, por mais operante que esteja, vai ter como brilhar. É trabalhoso, mas quem não se sente um tantinho mais alegre, vendo as luzes da cidade se misturarem às suas? Isso, por si só, é um presente que o Natal nos dá.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Para além das fronteiras?

Mês passado, o Carlos Castilho postou um artigo interessante no Observatório da Imprensa. Custos caem e grandes empresas jornalísticas voltam a investir em coberturas internacionais, diz o título. O autor traz uma reflexão um tanto irônica sobre um fenômeno recente na mídia norte-americana: o retorno dos correspondentes internacionais.

Por muito tempo, essa figura ainda um tanto glamourizada no jornalismo (mamãe vive dizendo que queria me ver como correspondente no Velho Mundo, pra eu não morrer de fome :P) se tornou mais e mais rara, devido aos altos custos para mantê-la no exterior, ainda mais se o repórter trabalhasse pra uma emissora de TV, pois precisaria de toda uma equipe para apoiá-lo. As grandes redes passaram a centralizar a cobertura de continentes inteiros nas mãos de um só repórter. As mais modestas se confiaram no conteúdo comprado das agências internacionais.

Agora, a cobertura barata, dinâmica e bem sucedida dos blogueiros de cada país tem inquietado os bolsos das empresas jornalísticas, que estão começando a ver que é mais negócio garantir uma perspectiva própria dos acontecimentos que ser vencidas pelas concorrências nativas. Castilho ressalta, no entanto, que as empresas só deram mesmo o braço a torcer porque viram que um correspondente, hoje, custa pouco, já que pode virar um faz-tudo, sem equipe pra sustentar.

Mas será que, obrigando o profissional a se concentrar em todas as funções de uma vez, a grande mídia vai mesmo conseguir competir com os blogueiros "amadores"? Preocuado em dominar a câmera, o áudio, a fotografia, a produção, a conexão com a Internet e o que mais aparecer, como o repórter vai ter tempo de se aprofundar na realidade regional que foi designado para cobrir? É difícil compreender as idiossincrasias de um país (ou continente), sem ter tempo pra vivê-las. Nesse aspecto, os blogueiros estão em imensa vantagem: permitem-se fazer isso, muitas vezes, desde que nasceram, sem dead lines.

E toda essa história dá margem pra pensar na relação da atividade jornalística tradicional com o blog. Provavelmente, é extremo dizer que um vai eliminar a outra, mas acho que ambos têm de aprender a conviver. Afinal, Jornalismo e Internet são dois campos que vivem de mutações da sociedade - não podem insistir em também não mudar.

domingo, 25 de novembro de 2007

Rede descoberta

Durante muito tempo esqueci a riqueza do conteúdo disponível na World Wide Web, um dos maiores encantos dessa Ampla Rede Mundial. É incrível a gama de possibilidades a que podemos ter acesso vencendo alguns cliques preguiçosos. Hoje de manhã, reativei meu leitor de RSS, adicionei mais alguns canais e mergulhei numa leitura prazerosa de suas novidades.

Para mim, a Internet sempre tornou a vastidão do mundo, com suas tantas realidades culturais distintas e interdependentes, muito mais próxima, mais palpável, mais compreensível, mais real. Dizem que o virtual é uma realidade em potencial, que passa a existir quando a acessamos. O mundo lá fora era esse virtual que a Internet realizava em mim. As ocupações do dia-a-dia me afastaram dele e meu horizonte se estreitou. Nada mais triste que reduzir seu tempo on line a uma visita à caixa de entrada da conta de e-mail ou a uma checagem por novos recados no perfil do orkut. Nada mais mágico que saber usar esse tempo para passear pelas possibilidades.

A vontade de criar um blog não era nova, vinha me inquietando já há alguns meses. Mas eu não achava que teria conteúdo nem pique para atualizar um site. Estou torcendo para que a epifania cibernética de hoje cedo prove que eu estava errada, porque todo esse blog se baseia na disposição para se perder na Internet e encontrar seus recantos mais interessantes. Daí o nome, Flanar. Acho bonito esse verbo, que vem do substantivo francês flânerie e significa vagar sem rumo nem objetivo, absorvendo impressões e aprendendo coisas novas sobre o mundo e sobre si mesmo, por meio da divagação.

Pretendo colocar de tudo neste blog, se Deus quiser: artigos, vídeos, podcasts, reportagens, fotos, ficção, entrevistas, devaneios urbanos, links - coisas minhas e dos outros. Como diria qualquer flâneur de respeito antes de uma jornada, vamos ver no que vai dar.