quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Despedida

Já tive outros blogs, que acabaram por falta de atualizações. Não será o caso do Notas partilhadas, que vai acabar porque o Posterous em si vai acabar. É uma pena. Este espaço me ensinou que manter um blog não é uma obrigação, mas uma oportunidade para partilhar textos escritos por diletantismo, num ritmo próprio, sem deadlines.

Ao longo de três anos, registrei aqui momentos decisivos na minha vida: a primeira vinda para a Alemanha em 2010, minha formatura no curso de Comunicação Social - Jornalismo da UFC, os preparativos para a partida, o processo de sentir-me em casa em Berlim. Também pude publicar boas entrevistas, pensar sobre meus temas de pesquisa, compartilhar citações dos livros favoritos.

Toda despedida é meio triste, mas esta, pelo menos, não é definitiva. Todo o conteúdo do Notas partilhadas já está no meu novo blog na plataforma Wordpress.

Obrigada a todos que me leram ao longo destes três anos. Espero reencontrá-los em breve nos próximos textos no Falando da vida!

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Do cotidiano eternamente interrompido

Nosso destino inicial, naquela manhã cinza de domingo, era o mercado de pulgas de Schöneberg, um dos meus bairros favoritos em Berlim. Porém, a chuva e o vento nos impeliram para o prédio da Prefeitura do bairro, logo em frente. E assim encontramos a exposição Wir waren Nachbarn (Nós éramos vizinhos).  Inaugurada em 2005 e instalada na Prefeitura em caráter permanente desde 2010, ela contém álbuns de mais de cem famílias judias que residiam em Schöneberg e no bairro vizinho Tempelhof antes da ascensão do nazismo na Alemanha. 

São histórias individuais que refletem o terror que foi se instalando no país entre 1933 e 1945, detalhando pequenos atos de exclusão e discriminação no dia-a-dia daquelas pessoas, os quais possibilitaram as consequências terríveis que estão nos livros de História: a deportação para campos de concentração ou o exílio de milhões de indivíduos.

O que mais me impressionou na exposição foi o mural de cartões contendo os nomes e algumas informações básicas de 6.069 judeus deportados dos bairros de Schöneberg e Friedenau para guetos, campos de concentração ou campos de extermínio. É uma sensação indescritível estar diante dessa miríade de cartõezinhos, sabendo que muitos deles são o único traço que restou dos donos daqueles nomes escritos à mão.

Por mais que as centenas de filmes e livros já produzidos sobre a II Guerra Mundial e sobre o Holocausto possam dar a sensação de que o tema se esgotou, a verdade é que ele nunca vai se esgotar - e nem deve. Lembretes cotidianos como esta exposição encontrada por acaso, as chamadas Stolpersteine - pequenas pedras fixadas no calçamento que relembram vítimas do nazismo que moravam naquele endereço - e, mais recentemente, o Monumento aos Sinto e Rom Assassinados durante o Nacional-Socialismo na Europa inaugurado ao sul do Parlamento em outubro do ano passado, trazem à luz e à lembrança praticamente todos os dias novos fatos referentes às atrocidades cometidas no período, remetendo cada passante a um cotidiano para sempre interrompido em cada vida exterminada ou banida.

E, ao mesmo tempo em que tais marcos despertam uma melancolia profunda pelo que nunca mais foi retomado, eles também devem assegurar que nenhum outro cotidiano seja interrompido dessa maneira outra vez. As testemunhas do Holocausto estão morrendo pouco a pouco e logo só restarão estes lembretes para contar suas histórias.

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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Memórias musicais

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Como é que alguém que não gosta de música faz pra se lembrar das coisas? É o que indaga Queimado, um dos protagonistas do documentário As Canções (2011), de Eduardo Coutinho. Sua história é uma das mais bonitas entre as tecidas ao longo dos cerca de 90 minutos do documentário, que preencheu minha noite escura e fria berlinense com o calor de melodias e memórias intimamente entrelaçadas: clássicos populares, composições próprias, amores que permanecem na memória, desenlaces inesperados. 

Quando vi que o filme estaria em cartaz por aqui, soube que tinha de ir assistir. Desde Edifício Master (2002), tenho uma certeza: os documentários de Eduardo Coutinho são a realização do sonho de todo jornalista que entrou nessa profissão para ouvir as histórias das pessoas e (re-)apresentá-las com toda a sensibilidade que elas merecem.

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sábado, 3 de novembro de 2012

Mobile memories

I got my first smartphone this summer - and it's already quite outdated, but I don't care. It enables me to check my e-mails, tweet nonsense on the go and take lovely, pixelated pictures. Almost without noticing, I've been registering details of my everyday life and small adventures with this new medium. One day, I decided to organize everything and put my old gallery on Flickr to some good use. And that's how this new project began.

 

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sábado, 27 de outubro de 2012

Discussing new forms of journalism

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What distinguishes citizen media from traditional media? Is it even still possible do draw the line? These were some of the questions that guided our discussion on new forms of journalism during the barcamp science2discuss, which took place on 26 October, the second day of the Berlin Colloquium for Internet and Society.

Especially after the Iranian election protests in 2009 and 2010, more and more traditional media outlets have been relying on citizen media - or what they call user generated content (UGC) - to report on major news events. That happened because the access correspondents had to the action on the ground was restricted by the authoritarian Iranian regime and networks ended up noticing the flow of information coming from Iranian citizens, who shot footage with their mobile phones, tweeted and, essentially, reported on the ground, as a way of articulating the manifestations locally and informing the international community. 

Many newsrooms have now whole divisions to receive and verify information from citizen journalists. The BBC is one of the most famous examples, as Maximillian Hänska-Ahy and Roxanna Shapour describe in an article about what they perceive as mutual adaptions between citizen journalists and traditional media. The first try to make verification easier through the use of time-stamps in their footage, while the latter have increased their reliance on so-called UGC.

However, are citizen journalists considered regular sources by those who work at traditional newsrooms? All over the world, citizen journalists may even risk their lives to capture and divulge accounts or footage of protests, police brutality and meaningful events, which raises ethical issues that seem to be still in the process of being answered.

Despite the almost symbiotic relationship developed between both forms of media over the years, some distrust still prevails. Even though the term "citizen media" has been coined by Clemencia Rodriguez an academic that defended the important role of media developed by citizens, it has been constantly used in a pejorative manner by journalists, as a way of pointing out that this kind of journalism made by "mere" citizens, not professionals, as 

Moritz Queisner pointed out. 

Platforms such as Global Voices, founded in 2005 by Rebecca MacKinnon and Ethan Zuckerman, have been helping overcome that distrust. With the aim of amplifying the reach of citizen media, Global Voices has grown exponentially over the past seven years and is now available in almost 30 languages, with projects that foment the introduction of citizen media in under-represented language communities, as well as reporting on threats do freedom of expression all over the world. Global Voices has a partnership with the news agency Reuters and has been cited by various other outlets, such as the BBC.

However, participants of the barcamp pointed out that, with its network of over 500 contributors, Global Voices may have developed a degree of professionalism and an organizational structure that not all citizen media necessarily possesses, making verification a lot easier, for example. Could it still be considered citizen media?, they wondered. 

Is it really the structure that distinguishes citizen media from traditional media? I'm not entirely sure. One factor that the whole group seemed to agree on was the motivations behind each kind of media. Maybe traditional media is more guided by agenda setting and news values, while citizen media, mostly carried out voluntarily, may obey more subjective (?) criteria, such as the citizen journalist's perception that an event or theme is not being sufficiently covered by mainstream media or their passion for a given theme, such as women's rights in their communities.

At the end, we regretted not requesting the organizers a two hour time slot, as our time was up too soon for such an interesting discussion. I'd like to thank the participants of the barcamp for the interesting questions and contributions to the debate. Hope you left the colloquium yesterday with as much food for thought as I did!

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sábado, 20 de outubro de 2012

A pátria

"A pátria não são bandeiras, nem hinos, mas um punhado de lugares e pessoas que povoam nossas lembranças e as tingem de melancolia." - Mario Vargas Llosa, discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura

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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Talkin' about my generation

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Hanover, 25 de setembro de 2012: Gaga em sua entrada triunfal (Débora Medeiros)

Gaga adentrou o palco em grande estilo: em meio a um cortejo de dançarinos portando estandartes, ela vinha montada num cavalo negro, o rosto encoberto por uma armadura repleta de cristais (provavelmente Swarovski). É a auto-confiança de quem sabe que é quase impossível alguém sair do seu show sem virar fã. Eu, que sempre me diverti com as músicas e segui sua carreira com curiosidade, certamente saí de lá também cheia de admiração.

Vê-la ao vivo é ver uma síntese da minha geração. Lembro que, quando conheci seu trabalho, não foram os figurinos estranhos ou os clips mirabolantes que mais me espantaram, mas o fato de ela ser apenas dois anos mais velha do que eu. É sempre uma sensação engraçada, perceber que alguém que viveu a infância na mesma época que você está por aí, fazendo coisas de impacto mundial (me senti da mesma maneira quando descobri que o Sebastian Vettel, bicampeão de Fórmula 1, era de 1987).

No Born This Way Ball, que vi ontem em Hanover, tudo - desde o cenário grandioso até a miríade de figurinos, músicos e dançarinos - está ali para servir à imaginação daquela menina ítalo-americana, que começou a tocar piano aos quatro anos de idade e sempre compôs as próprias músicas. Músicas essas que podem soar bobinhas, mas que falam diretamente àqueles que vieram ao mundo no fim dos anos 1980 ou começo dos 1990. São letras que pregam o amor-próprio (Born This Way é o melhor exemplo - e sensacional de se cantar junto), tecem contos sobre os nossos tempos midiáticos (Paparazzi), expressam uma religiosidade livre de dogmas e bem-humorada (como não amar Black Jesus?) e defendem uma sexualidade desencanada (LoveGame) e uma postura independente e forte nos relacionamentos amorosos (Telephone).

Fico pensando quantas neuras e preconceitos já seriam coisa do passado se Lady Gaga tivesse existido há uns trinta anos. No entanto, só alguém que nasceu na virada da vida offline para a online poderia ter uma postura tão acessível e sem deslumbres em relação à indústria de entretenimento. Como alguém que atualiza pessoalmente as próprias mídias sociais, no palco, ela bate-papo com um público de milhares de pessoas: reconhece fãs assíduos na platéia, conta histórias pessoais, dá bronca naqueles que não se deixam levar pela apresentação (os alemães são conhecidos por assistirem aos shows impassíveis nas arquibancadas) e escancara o esforço por trás de toda aquela pirotecnia ("Eu acordo todos os dias às 5h da manhã para poder trazer isso aqui pra vocês"). Somos a geração da transparência, dos que transformam a própria vida numa experiência multimídia e global, se unindo em torno do direito de viver abertamente da maneira que cada um quiser.

Pode até ser que a obra dela não seja tão provocativa quanto a da Madonna de algumas décadas atrás. No entanto, ao descer do pedestal no meio de um show, Lady Gaga revoluciona a vida dos seus fãs de maneira muito mais direta: ela incentiva o amor-próprio e a auto-expressão (Gaga fundou recentemente a Born This Way Foundation para combater o bullying nas escolas e outros tipos de discriminação), abraça causas como as do movimento LGBT por igualdade de direitos e combate leis retrógradas como as medidas anti-imigração nos EUA (a mais famosa delas é a Arizona SB 1070).

Parece ironia do destino, mas a máxima "just be yourself", tão repisada na cultura pop americana, encontrou sua melhor expressão em uma artista que se transformou da cabeça aos pés para ser quem sempre quis.

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