Domingo, 16 de Novembro de 2008

Boas novas da Rádio Santo Dias


O Conjunto Palmeiras, bairro situado na periferia de Fortaleza, é conhecido pelo forte espírito comunitário de seus moradores. Foi lá que surgiu uma bem sucedida experiência de economia solidária, o Banco Palmas, e um projeto de comunicação feita para e pela comunidade, a Rádio Santo Dias.

Essa emissora nasceu em 1989 da vontade dos padres italianos Chico Moser e Luís Fornasier, que queriam interligar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e existentes ali, para que trocassem informações entre si, auxiliando na articulação dos movimentos sociais do bairro. Porém, das 12 radiadoras instaladas, só a Santo Dias (que homenageia o operário Santo Dias da Silva) vingou. A rádio contava com o apoio de vários moradores do Conjunto Palmeiras, que conduziam uma programação variada, composta de programas musicais, recados aos membros da comunidade e noticiários. A dedicação de pessoas como Marinês Chaves, Gleilson da Silva e Wayne Tiago, que estavam à frente do projeto, tinha como retribuição a intensa participação do restante da comunidade.

Em 2001, a Santo Dias ultrapassou as limitações do sistema de radiadoras, que consistia em meras caixas de som espalhadas pelo pátio da igreja, para ganhar uma freqüência, a 87,9 FM. Pouco depois, sobrevieram os problemas. Em 2004, a Anatel e a Polícia Federal entraram na rádio e levaram grande parte dos equipamentos de transmissão. 10 meses antes, os agentes já haviam lacrado a sede. Até hoje, ninguém entende por que acharam necessário levar o material, visto que, ao ser lacrada, a rádio saiu do ar. Além disso, já havia dois anos que Wayne, Marinês e muitos outros corriam atrás da legalização da emissora, por meio da obtenção de uma concessão.

Pois bem, já se passaram quase cinco anos desde que a ação arbitrária da Anatel. A Santo Dias ainda não recuperou os equipamentos e sua freqüência acabou sendo concedida a uma rádio evangélica. No entanto, aqueles que antes tocavam a rádio ainda não desistiram de levar à frente esse projeto tão querido: eles ainda lutam para conquistar uma concessão e para fortalecer a comunicação dentro da comunidade.

Estive lá semana passada e recebi notícias animadoras. A Paróquia São Francisco, que abriga a emissora, irá criar, no próximo ano, uma Pastoral da Comunicação, que trabalhará com projetos junto à juventude, de modo a afastá-la da violência - que cresce a cada dia no bairro - e fortalecer o papel da comunicação para a coesão entre os moradores.

Além disso, um grupo está desenvolvendo um projeto de webrádio no Centro Social Urbano (CSU) do bairro, projeto este que será implantado justamente na Rádio Santo Dias. Então, mesmo que a concessão ainda demore, em breve, voltaremos a ouvir as vozes do Conjunto Palmeiras, ecoando mais uma através da Rádio Santo Dias. Agora é esperar a emissora ressurgir na rede!

Domingo, 19 de Outubro de 2008

Música da vida

Sempre achei o MySpace uma boa idéia, mesmo vindo da Microsoft, empresa avessa ao espírito colaborativo e livre de royalties que caracteriza a Internet e os softwares livres. Uma rede social para músicos e interessados mostrarem o próprio trabalho e estabelecerem laços é ampliar esse quê de wiki tão típico da Internet, além de dar aos artistas o arbítrio sobre se vale a pena abrir mão de esconder o ouro em prol de uma maior divulgação: a maioria, que vai da Madonna às bandas de garagem, parece achar que sim.

Não toco nenhum instrumento, muito menos faço vocal em banda, mas me interesso muito por música, a ponto de pensar seriamente em me dedicar à crítica musical quando me formar. Então, como poderia despediçar a chance de conhecer melhor os sons que têm reboado na terrinha e no mundo? Por essas e por outras, criei o meu perfil lá no MySpace e vou recheá-lo de resenhas, textinhos irrotuláveis e um network mais variado que salada-mista do Centro da cidade :)

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Mais complexo do que parece


Confesso que não venho acompanhando os conflitos entre regiões separatistas e o governo da Bolívia que ocorrem já há algum tempo e, de vez em quando, são quase que festejados por parte da imprensa brasileira, como sinal do fracasso do presidente Evo Morales. Só parei para ler esta notícia, em especial, porque refletia tal realidade por um prisma que me interessa: o rádio, representado, aqui, pela Integración, única emissora partidária de Morales na cidade de Santa Cruz de la Sierra.

É uma leitura que recomendo, por demonstrar que o que está acontecendo na Bolívia vai muito além da figura de um governante, envolvendo questões como o racismo e as desigualdades sociais exacerbados. Essa reportagem foi feita in loco pela equipe do UOL. Ao invés de adotar maniqueísmos pré-concebidos, o repórter Rodrigo Bertolotto relata o que viu em um bairro pobre e de maioria pró-Morales, incrustado em uma região separatista, concluindo, sem escolher lados, que "no jogo de informações de uma imprensa entrincheirada como a Bolívia, a verdade é a primeira vítima".

Em tempo: não sou pró-Morales nem torço pelo desmembramento do país. Só achei que valia a pena compartilhar uma breve reflexão.

Sábado, 13 de Setembro de 2008

Flanando em outras vizinhanças

O blog anda meio parado, mas não sumi completamente da Internet, não. É que finalmente descobri uma utilidade construtiva e divertida pro meu inglês, que sempre tá perigando enferrujar: estou colaborando como tradutora pros sites Whiplash e Global Voices em português. Neste último, em especial, minha consciência de mundo tem crescido bastante: lendo as notícias da mídia cidadã em diversos países e traduzindo as opiniões de blogueiros a milhares de quilômetros de mim, tenho me sentido parte de uma rede imensa, como não me sentia há muito tempo. E o mais interessante: esse universalismo é alcançado através da partilha do que acontece na pátria de cada blogueiro, de cada colaborador.

Recentemente, tive a chance de estar do outro lado, alimentando o site em inglês com conteúdo inédito sobre um episódio ocorrido nas eleições aqui em Fortaleza. Depois disso, a história pode ganhar versões em alguns dos muitos idiomas para os quais o Global Voices é traduzido, alcançando cada vez mais gente, que pode relacionar aquilo à sua realidade própria.

Um dos motivos por que sempre me interessei por aprender idiomas é justamente esse grau de conexão que falar a língua do outro proporciona. Entender alemão ou espanhol é muito mais que conhecer sinônimos estrangeiros, é compreender melhor as culturas em que esses idiomas estão inseridos e, assim, poder se relacionar melhor com as pessoas que as vivenciam. Por isso, o trabalho que o time de tradutores dos sites Global Voices desenvolve é tão fascinante: cabe a eles imergir nas histórias contadas em inglês e aproximá-las daqueles com quem dividem sua língua mãe. Além de tudo, é viciante!

Domingo, 3 de Agosto de 2008

Inventário: pensando (no futuro)

As férias estão chegando ao fim. Se me perguntarem se viajei, posso até dizer que sim, apesar de não ter saído de casa: visitei um monte de histórias, que me deixaram viajando em pensamento. Além de tirar o atraso das leituras de ficção, vi filmes como nunca. Na verdade, não agüentava mais nunca ter visto nenhum filme daqueles que todo mundo conhece e comenta e aproveitei a liseira que não me deixou viajar pra me aculturar um pouquinho "gratuitamente" pela TV :P

As próximas postagens vão resumir algumas das impressões que cada livro e cada película deixaram em mim. Agrupei tudo em categorias meio flutuantes, pra ficar mais fácil escolher de quais vou falar em cada dia. Hoje, alguns filmes que me fizeram pensar no futuro ou refletir sobre tedências do presente.

Gattaca - experiência genética: O filme, com Ethan Hawke e Uma Thurman, se passa num futuro bem próximo, em que a eugenia é ilegal, porém amplamente praticada. A sociedade é divida em castas: seres humanos tidos como perfeitos, em sua maioria filhos da inseminação artificial e da manipulação genética, ocupam o topo da sociedade, enquanto aqueles com qualquer característica recessiva (miopia, problemas cardíacos, deficiências físicas ou mentais) são relegados à pobreza e não podem sonhar com qualquer ascensão social. Não é um futuro de todo impossível; se não criarmos limites éticos fortes e axiomáticos, não duvido que, dentro de 10 ou 20 anos, estejamos vivendo uma realidade em que o mapeamento genético dos candidatos será praxe em entrevistas de emprego. O desenrolar do filme lança a questão: será a ciência mesmo tão exata assim? O mero fato de alguém possuir genes recessivos torna-o fadado a uma existência mais medíocre que a de outra pessoa de genes dominantes? Onde fica a capacidade de superação humana, fator imprevisível? Essa dogmatização que a ciência vem experimentando desde o Iluminismo, que a transforma quase em religião para muitos, pode ser extremamente perigosa, porque, ao contrário da maioria das religiões, que eleva o homem a portador da centelha divina e do livre arbítrio, a eugenia e tantos outros "avanços" nos transformam em cobaias descartáveis, caso fujamos à regra.

WALL-E: Assisti a essa animação quase que por acidente, porque era a única sessão num horário conveniente - e promocional - no multiplex. Não me arrependi. Não dava nem pra acreditar que o desenho era da Disney, por seu teor crítico e até escrachado em certos momentos. Bendita Pixar! Achei particularmente interessante a maneira como o futuro da humanidade é retratado: a Terra vira um lixão inabitável para quase qualquer ser vivo (exceto as baratas, claro :P) e os seres humanos saem em um cruzeiro espacial de 700 anos, o que afeta sua evolução, tornando seu esqueleto cada vez mais diminuto e subdesenvolvido em um corpo pródigo de gordura, tudo graças ao sedentarismo proporcionado por robôs que fazem todas as tarefas e tornam desnecessário até o ato de caminhar. Mais uma vez, um futuro nada improvável, hein? É aí que entra o fator imprevisível: a possibilidade de mudança, de retorno à Terra, que leva os humanos a superar as expectativas e a demonstrar que ainda é possível mudar a realidade. Deixa até o espectador mais cético esperançoso!



Amnésia: Sempre me falaram que esse filme era muito bom. E é mesmo: a história é imprevisível, o formato é inovador e conseguiram fazer o espectador se sentir exatamente como Leonard (Guy Pierce), o personagem principal que, após tentar deter o homem que estuprou e matou sua esposa, perde a memória de curto prazo e passa a caçar o bandido, utilizando subterfúgios que lhe permitem organizar a seqüência de fatos vividos no passado recente e as descobertas em sua investigação. Foi assistindo a esse filme que comecei a pensar na fascinação que as tragédias e os crimes exercem sobre o público em geral. Sei que não é uma coisa nova, como provam tantos romances policiais de séculos atrás, mas a onda de seriados que se baseiam em investigação criminal tornou isso ainda mais latente. Sou fã dessas séries desde o seu boom inicial com CSI, mas devo reconhecer que agora a TV - por assinatura ou não - está transbordando com histórias de crimes horríveis desvendados de modos perspicazes. É até difícil encontrar seriados com argumentos diferentes desse. Por que será que dramas como o de Leonard, que teve sua vida destruída com a morte da esposa, nos atraem tanto?

O observador
: Enquanto, em Amnésia, a simbiose entre um criminoso e seu perseguidor fica implícita, aqui, essa relação vira o centro da história. Keanu Reeves faz o papel de David Allen Griffin, um serial killer que se muda de Los Angeles para Chicago, só para poder continuar perto do detetive Joel Campbell (James Spader), o primeiro a investigar seus crimes e que, devastado física e psicológicamente pelo desenrolar da investigação (a qual não resulta na prisão de Griffin), se aposenta do FBI e vai morar em outra cidade. É interessante perceber como um dá sentido à vida do outro: os crimes de David são muito mais para lembrar a Joel que ele existe que qualquer outra coisa, enquanto Joel molda sua vida à memória do assassino - primeiro, tentando esquecê-lo, depois buscando evitar que fizesse mais vítimas. Fica claro que o antagonismo é um dos relacionamentos mais fortes que uma pessoa pode estabelecer com outra: é a identificação pela oposição, a tentativa de não se tornar igual ao inimigo. A obsessão por neutralizá-lo vira o único motivo para todas as ações.

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Já pensou?!

Meu blog foi premiado pela primeira vez! Nunca esperei que alguém fosse gostar dessas divagações cibernéticas a ponto de concedê-las alguma distinção. O Flanar surgiu como um espaço onde eu pudesse não só depositar como compartilhar minhas divagações e achados na Internet e fora dela. Por mais que passe longos períodos sem atualizações, esse blog me lembra de que há muito mais lá fora que o meu cotidiano, preenchido por tantos prazos, planos e tarefas, que deixa bem pouco tempo pra pensar além dele. Não que eu não goste do que vivo rotineiramente. Cada dia adoro mais o que faço, acho até que é por isso que é tão fácil cair na armadilha da metalinguagem.

Mas sempre que posto aqui, posso conversar sobre meus pensamentos sem necessariamente dar-lhes formas estabelecidas, sem me preocupar em ordenar tudo de acordo com a pirâmide invertida ou com os segundos que o texto leva pra ser lido. É um tempo de refletir e inovar. E é bom ver que tem gente gostando do papo, como a
Fernanda, que me concedeu o selo "Blog Consciente". Mal entrou na blogosfera, ela já virou expoente entre os blogueiros, graças ao seu talento para a escrita e à sua simpatia, que é tão grande que consegue contagiar as pessoas mesmo no mundo virtual, por vezes tão frio. Obrigada, moça, é uma honra receber esse prêmio justamente de você!

O título do selo, porém, me lembra que, pra ser consciente mesmo, ainda preciso trilhar um longo caminho. Como falei na postagem anterior, o mundo não está perfeito e todos nós podemos fazer alguma coisa para mudá-lo. Eu reclamo, mas também não ajo. O tempo não deixa e as prioridades tendem a se ordenar de maneira bem egoísta, pra caber o máximo de realização pessoal. Mas às vezes me pergunto se a realização pessoal também não estaria em fazer algo maior que eu mesma. Vamos ver quando é que eu vou passar das palavras para a ação!

Domingo, 20 de Julho de 2008

Nossos ídolos ainda são os mesmos


Dá pra imaginar o absurdo que é viver num país onde o racismo é apoiado pela lei e onde a maioria da população não tem o direito nem mesmo a aspirar aos melhores empregos e à participação política? Pois foi assim na África do Sul durante 40 anos, até que um jovem negro lutou para mudar a realidade do regime de apartheid, o que lhe custou 27 anos na prisão. Apesar de se situar em um contexto político específico, para mim, a luta de Nelson Mandela por uma nação mais justa é atemporal: não é preciso que exista uma legislação favorável para que o preconceito seja vigente em tantos lugares do mundo, gerando desigualdades sociais e atos de violência.

Por isso, tomei um susto quando li sobre o aniversário de 90 anos de Mandela, que foi na sexta passada. Mesmo já tendo se retirado da política (após se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994), ele ainda é uma das figuras mais importantes do cenário mundial. Sua contribuição na luta contra a AIDS é apenas uma entre as muitas ações que ele desenvolve.

A história de Mandela é impossível de ser replicada, mas seu aniversário me fez pensar em por que não ouvimos falar de outros Mandelas, contemporâneos à nossa geração. As pessoas não acham que vale mais a pena perder tempo tentando mudar a realidade atual ou simplesmente quem tenta fazê-lo é menos acreditado que os veteranos como o líder sul-africano? Parece ser um pouco dos dois.

O fato é que o mundo está longe de ser perfeito; todos os dias, problemas antigos ganham novas formas e conseqüências. A própria África do Sul ainda precisa resolver questões sérias, como a restituição das terras retiradas dos negros durante o apartheid. Quem está à frente da luta pela manutenção do legado de Mandela? Por mais que existam pessoas comprometidas com a causa, o mundo ainda espera muito daquele que, agora, merece descansar e confiar nas gerações seguintes.

Mandela foi responsável pela proeza de ver além de um mal sacramentado por décadas, mas não parou por aí: ele é capaz de buscar soluções para problemas surgidos só recentemente, como a AIDS. O que nos impede de fazer o mesmo?